Silvio Almeida debate a expressão ‘fascismo de esquerda’ e alerta contra o moralismo que interdita o pensamento crítico

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Por Redação Brasil 247Brasil 247

247 – Em um momento de profundos debates sobre os rumos e os métodos do campo progressista, o jurista, filósofo e professor Silvio Almeida divulgou em suas redes sociais e em seu canal no YouTube uma densa reflexão teórica e política intitulada “Fascismo de Esquerda”.

O ponto de partida da intervenção foi uma recente entrevista concedida pelo ator Wagner Moura ao apresentador Pedro Bial, na qual o artista recorreu ao termo “fascisminho de esquerda” para criticar posturas intolerantes no debate público.

Para Silvio Almeida, embora a expressão cause estranheza e seja historicamente imprecisa — uma vez que o fascismo e o nazismo são fenômenos umbilicalmente ligados à extrema-direita e estruturados sobre o anticomunismo —, ela captura um sintoma real: práticas autoritárias de interdição da divergência no interior da própria esquerda.

A interdição do debate e as armadilhas da identidade

Silvio observa que esse comportamento se manifesta com frequência em discussões sobre raça, gênero e sexualidade, quando o argumento dá lugar à desqualificação pessoal prévia. Em vez de se examinar o conteúdo formulado, ergue-se a barreira: “Quem é você para falar disso?”.

O jurista adverte para a distorção do conceito de “lugar de fala”, que muitas vezes passa a operar como um salvo-conduto ou um mecanismo de censura:

“Esse conceito já carrega problemas próprios quando transforma a posição social em autoridade intelectual, e fica ainda pior quando é utilizado para substituir argumento por identidade. […] A investigação do problema cede lugar à biografia de quem está falando. A discussão sobre história, economia, instituições, trabalho ou poder é empurrada para um terreno pessoal.”

Por outro lado, o professor faz questão de apontar que a reação apressada contra essas distorções costuma cair no mesmo erro pelo sinal trocado. Trata-se do “anti-identitarismo militante”, que carimba sumariamente qualquer debate sobre opressões com o rótulo desqualificador de “puro identitarismo”, encerrando a conversa antes que ela comece.

“A palavra ‘identitarismo’ passa a funcionar como uma sentença. De um lado, uma identidade pode ser usada para encerrar o debate; do outro, a acusação de identitarismo pode fazer exatamente a mesma coisa. Os conteúdos são diferentes, mas a estrutura intelectual é muito parecida: a ideia de que você pode classificar algo antes de compreender como as coisas de fato funcionam.”

Segundo Almeida, essa recusa ignora a própria história material: a forma como o racismo forjou a formação dos mercados de trabalho, a relação indissociável entre escravidão e formação de classes, e a divisão sexual do trabalho na história do capitalismo.

O fascismo como recusa da mediação

Para aprofundar a mecânica psicológica e institucional desse autoritarismo contemporâneo, Silvio Almeida resgata uma formulação do historiador Michel Gherman: o fascismo não é uma ideologia coerente, mas um desejo e uma rebelião contra o abstrato.

Essa “rebelião contra o abstrato”, explica o jurista, traduz-se na recusa da mediação:

“Eu desejo alguma coisa, mas existe uma lei, existe uma instituição, existe o procedimento, existe a prova que precisa ser produzida, existe o contraditório, existe uma outra pessoa que continua tendo direitos mesmo quando eu a considero detestável. Tudo isso cria uma distância entre o desejo e sua realização. E o desejo autoritário tem dificuldade com essa distância: ele quer transformar vontade em ordem, ressentimento em sentença, antipatia em exclusão.”

No ambiente político, essa lógica desemboca no moralismo: a pressa em condenar substitui o esforço ético e analítico de investigar e compreender as contradições.

O resgate do pensamento negativo e a urgência da imaginação

Como contraponto a essa paralisia, Silvio Almeida convoca duas referências centrais do pensamento crítico: Herbert Marcuse e Ernst Bloch.

Ao revisitar Razão e Revolução (1941), de Marcuse, Almeida ressalta a recuperação da dialética hegeliana por meio do chamado “pensamento negativo” — a recusa em aceitar a ordem presente como a medida final do que é possível:

  • Se a sociedade formal afirma que todos são livres, o pensamento crítico indaga como isso convive com a exploração da força de trabalho;
  • Se a lei afirma que todos são iguais, o pensamento crítico expõe a permanência do racismo, da misoginia e da desigualdade material.

Por fim, ao evocar O Princípio Esperança, de Ernst Bloch, Silvio sublinha a centralidade do conceito de “ainda-não” (Noch-Nicht): as potencialidades emancipatórias inscritas no presente que aguardam realização histórica.

“Uma tradição emancipatória precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo: negar aquilo que existe e imaginar aquilo que ainda não existe. […] Talvez a decadência de uma tradição crítica comece quando essas duas capacidades desaparecem: primeiro ela perde a paciência com a contradição; depois, perde a imaginação.”

A intervenção de Silvio Almeida surge como um chamamento ao rigor teórico, à serenidade analítica e à recuperação do contraditório como esteio fundamental para qualquer projeto transformador e popular.

Fonte: Brasil 247

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