Por Murillo Ferreira PintoCarta Capital

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Marco Rubio visita a Colômbia, o Peru e o Equador e garante vantagens aos Estados Unidos

O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, saiu de seu giro pela América do Sul no início do mês de setembro com a sacola cheia. Como ele mesmo disse, foi “uma visita muito produtiva”. Em apenas três dias, amealhou uma série de acordos sobre minérios, tratou de cooperação nuclear e, mais importante, selou uma parceria estreita que dá aos Estados Unidos a liberdade de agir militarmente na região, sob pretexto de combater os cartéis que passaram a ser denominados “organizações terroristas internacionais” por Washington. A turnê foi, ao mesmo tempo, um giro de negócios e uma espécie de ronda armada sobre a região que o próprio secretário de Estado chamou mais de uma vez, publicamente, de “quintal” dos Estados Unidos.

Em cada uma das três paradas foi recebido com tapetes vermelhos estendidos por presidentes incondicionalmente alinhados ao governo Donald Trump: Aberlardo de la Espriella, na Colômbia, em 8 de setembro, Daniel Noboa, no Equador, no dia seguinte, e Keiko ­Fujimori, no Peru, na conclusão da turnê, no dia 10. Dois desses países, Colômbia e Equador, vivem tecnicamente situações de guerra, nas quais os norte-americanos são protagonistas diretos. O terceiro, o Peru, corre o risco de abrir as portas para situação semelhante, dado o caráter insistentemente belicista das declarações de Rubio, que disse e repetiu que “os grupos terroristas não são uma ameaça apenas para o Peru, mas também para os Estados Unidos”, razão pela qual o secretário de Estado prometeu aportar “toda a ajuda” que a recém-eleita requeira. Não será surpresa se a líder de ultradireita reeditar a mesma política belicista que fez com que o pai, o ditador Alberto Fujimori, fosse condenado por crimes contra a humanidade em 2009.

Rubio é o responsável por implementar a Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos, concebida no fim de 2025 para reorientar a política externa da maior potência do mundo. Nesse plano, a América Latina entra como área de interesse prioritário. A principal preocupação é afastar a China da região e retomar o espaço perdido pelos empresários norte-americanos nos últimos anos. Para se ter uma ideia da ênfase de Washington nessa ideia, basta dizer que o documento repete diversas vezes a expressão “Doutrina Monroe”, com a qual, no século XIX, os norte-americanos declararam ter primazia sobre as Américas. Se, antes, essa doutrina se prestou a afastar as monarquias europeias, agora se presta a tentar alijar chineses e outros competidores.

Essa entrada exclusivista e neoimperialista se dá prioritariamente por meio de acordos comerciais. Mas, quando não é possível, o recurso à força não é descartado, como mostra o episódio no qual forças militares norte-americanas invadiram a Venezuela, em janeiro deste ano, sequestraram o então presidente, ­Nicolás Maduro, e enfiaram goela abaixo dos venezuelanos um governo fantoche, com o qual celebraram um acordo que dá aos Estados Unidos o controle de um quinto de todo o petróleo do país, por ao menos 50 anos, renováveis por mais 50.

O secretário de Estado norte-americano anunciou acordos sobre minerais críticos e de cooperação militar

Passo a passo, a nova doutrina beneficia-se de um cenário político-ideológico cada vez mais favorável aos interesses de Washington. Um a um, os países da América do Sul passaram a ser governados por líderes de ultradireita, alguns dos quais – como nos casos de ­Keiko ­Fujimori, no Peru, de Javier Milei, na Argentina, e de José Antonio Kast, no Chile – abertamente revisionistas em relação às ditaduras que vicejaram em seus países durante a Guerra Fria. O avanço dessa chamada “onda azul” deixa o Brasil e o Uruguai ilhados na região.

“Aquela parte do nosso hemisfério está realmente se tornando muito diferente do que era. Eles deixaram de ser de esquerda e foram para a direita. Estão todos indo para a direita. Estamos indo muito bem”, afirmou Trump em 2 de setembro, em entrevista a jornalistas no Salão Oval da Casa Branca. Sobre o Brasil, disse ter “uma boa relação com o ­país”, o que contrasta não apenas com a política de sobretaxa das exportações brasileiras, mas com a aplicação de medidas restritivas como a Lei Magnitsky contra autoridades do Judiciário envolvidas na condenação dos envolvidos no golpe de Estado frustrado de 2023.

Se, no Brasil, o momento é de pressão e de expectativa, com vistas às eleições presidenciais de outubro, na Colômbia, no Peru e no Equador é o oposto. O alinhamento incondicional faz deslanchar projetos de cooperação que têm nas ­áreas policial e militar sua ponta de lança. Os três países visitados por Rubio fazem parte não apenas do assim chamado Escudo das Américas como também de um grupo mais restrito, batizado de Coalizão das Américas Contra Cartéis, ou A3C. Ambas as iniciativas buscam coordenar ações conjuntas contra grupos criminosos, algumas vezes com troca de informação de inteligência, outras por meio de apoio na realização de operações tão traumáticas quanto bombardeios aéreos, como o realizado, em março, em uma área de selva na fronteira entre Peru e Equador, e a volta da pulverização de veneno sobre extensas áreas de cultivo de coca na Colômbia, reeditando uma prática nociva ao meio ambiente e aos pequenos produtores rurais que tinha sido declarada ilegal anteriormente por tribunais nacionais.

Em seu giro, Rubio assinou, na Colômbia, dois acordos: um sobre minerais críticos e outro sobre cooperação atômica de natureza civil. No Equador, sinalizou que os Estados Unidos podem vir a participar de negócios envolvendo ouro, cujo comércio, hoje, segundo ele, beneficia “organizações terroristas”. No Peru, deixou claro que precisa de um governo estável para que possa fazer negócios (o Peru teve nove diferentes presidentes em dez anos), pois os Estados Unidos sabem, segundo ele, que “é mais fácil ter acesso a esses minerais quando eles estão no mesmo hemisfério, em vez de ter de buscar na África”. •

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Passeio pelo quintal’


João Paulo Charleaux

Jornalista, escritor e analista político. Autor de “As Regras da Guerra” (Zahar). Escreve sobre direito internacional dos conflitos armados e questões humanitárias.

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Fonte: Carta Capital

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