Libertad, pero no mucho
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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A Pen International denuncia a perseguição a jornalistas críticos normalizada pelo governo Milei
Na Argentina de Javier Milei, uma frase ecoa por onde o presidente passa: Viva la Libertad, Carajo! O problema é que ela não vale para todos, muito menos para quem investiga e publica reportagens que desagradam ao “libertário” chefe de Estado. A entidade norte-americana Pen International denuncia a censura e os ataques contra a liberdade de imprensa na Argentina. O texto é contundente e a instituição “expressa sua profunda preocupação com o crescente padrão de estigmatização, restrições e hostilidade direcionado a jornalistas e veículos de mídia independentes, um padrão persistente desde o início do governo de Javier Milei e que se intensificou nos últimos meses”.
Segundo a Pen, medidas adotadas pelas autoridades argentinas, juntamente com repetidos ataques dos mais altos escalões do governo, “minam o papel essencial da liberdade de imprensa em uma sociedade democrática e contribuem para um clima de intimidação e autocensura”. Um dos casos mais graves ocorreu em abril, quando o gabinete presidencial proibiu um grupo de jornalistas de ingressar na Casa Rosada, alegando que os veículos de mídia para os quais trabalhavam haviam participado de uma suposta “campanha de desinformação russa”, com o objetivo de desacreditar o governo argentino, alegação nunca comprovada. Pouco depois, as autoridades ordenaram o fechamento da sala de imprensa do palácio entre 23 de abril e 4 de maio. Embora o acesso tenha sido posteriormente restabelecido, diversas restrições continuam a dificultar o trabalho de jornalistas credenciados.
Essas medidas foram acompanhadas por uma escalada na retórica contra jornalistas e veículos de comunicação por parte de Milei. Segundo o diário La Nación, durante o fim de semana da Páscoa, Milei dedicou a maior parte de suas publicações na plataforma de mídia social X a atacar colunistas, repórteres e organizações de mídia, acusando-os de formar uma suposta “associação criminosa” contra ele. Também desferiu ataques pessoais contra jornalistas específicos, depreciou publicamente vários veículos de comunicação nacionais e compartilhou uma imagem gerada por Inteligência Artificial sobre a “morte do jornalismo”. Após a apresentação do relatório de gestão do governo ao Congresso em 30 de abril, o presidente voltou a referir-se publicamente aos jornalistas como “escória imunda”.
A entidade destaca que, no mapeamento de ataques contra jornalistas e escritores em todo o mundo, a Argentina apresenta “um aumento preocupante nos casos de assédio judicial” contra a imprensa. A Pen International não é a única a soar o alerta. De acordo com a Rede Voces del Sur, o país registrou o maior número de declarações estigmatizantes contra a imprensa na região em 2025. A Repórteres Sem Fronteiras alerta, por sua vez, que a nação vizinha caiu 13 posições em relação ao ano passado no ranking de liberdade de imprensa e enfrenta condições cada vez mais restritivas para o exercício da profissão. Hoje, a Argentina ocupa a 98ª posição, enquanto o Brasil ocupa a 54ª e o Chile aparece na 70ª. Trata-se de uma das maiores quedas anuais do mundo e, atualmente, Bolívia e Paraguai estão em situação mais positiva que os argentinos.
Uma recente sessão da Comissão de Liberdade de Expressão da Câmara dos Deputados tornou-se o espelho de um país que assiste a um ataque à liberdade de imprensa. O diretor do Perfil, Rodrigo Lloret, relatou como a campanha de Milei prometeu uma “guerra” contra sua empresa ainda em 2024, quando a revista Noticias publicou uma investigação do jornalista político Juan Luis González a respeito dos cães do presidente. Poucas horas antes da publicação, Santiago Caputo, o “estrategista” do presidente, entrou em contato com o veículo e alertou que, se o texto fosse publicado, “encararíamos isso como uma declaração de guerra”.
As restrições “minam o papel essencial da liberdade de imprensa em uma sociedade democrática”, afirma a entidade norte-americana
Na sessão, deputados ainda ouviram a jornalista Nancy Pazos e suas denúncias de violência dirigida a profissionais de imprensa durante as manifestações em frente ao Congresso. Segundo ela, um grupo de jornalistas chegou a apresentar um habeas corpus preventivo para evitar agressões físicas, detenções e o uso de gases durante a cobertura dos eventos. “Nestes dois anos, mais de 150 repórteres e repórteres fotográficos sofreram ferimentos graves enquanto realizavam seu trabalho.”
A crise começa, porém, a mobilizar o setor. A violência de Milei contra jornalistas ocupou o centro da mais recente Assembleia Geral da Associação de Entidades Jornalísticas da Argentina. De acordo com a organização, os ataques e insultos “sistemáticos” contra jornalistas “geram um efeito de contágio sobre o restante da sociedade”. O levantamento revelou que, entre 17 e 23 de agosto, “foram registradas 335 mensagens contra a imprensa republicadas pela conta do presidente, além de 26 publicações próprias e 21 alusões depreciativas ao jornalismo em declarações públicas”. Mais: “Nesses poucos dias, ao menos 16 jornalistas foram citados nominalmente e nove empresas de comunicação foram questionadas”. O informe foi apresentado por Daniel Dessein, diretor do jornal La Gaceta de Tucumán e presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação da associação.
Ao longo dos meses, Milei chamou os jornalistas de “corruptos”, “mentirosos”, “sicários do microfone” e “símios com microfone”. Em suas redes sociais, repete o chiste “não odiamos os jornalistas o suficiente” para incentivar apoiadores a atacar a imprensa.
Seu comportamento é repetido por vários ministros. Em 25 de agosto, Luis Caputo, ministro da Economia, prometeu apresentar uma lei para punir jornalistas. Três dias depois, Milei fez um discurso para estudantes do ensino médio, no qual pediu que os ataques contra a imprensa fossem intensificados. “Se quiserem fazer isso com mais força, vou comemorar”, disse, ao estimular as vaias dos alunos a jornalistas. “O chefe de Estado não se limitou a questionar uma cobertura ou a discutir uma informação: incentivou menores de idade a manifestar hostilidade em relação a uma atividade indispensável para a democracia”, ressalta o informe da associação. •
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Libertad, pero no mucho’
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Fonte: Carta Capital