Por Reginaldo NasserCarta Capital

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As escolhas do Parlamento terão ataques do Hamas e a questão palestina no centro do debate

Iniciou-se a campanha para as eleições do Parlamento israelense, previstas para outubro, mês em que o país lembra os três anos do ataque sem precedentes do Hamas, que deixou 1.219 mortos e 251 reféns e cuja retaliação deu lugar ao genocídio que hoje assombra Gaza. Embora Israel tenha participado de três guerras desde então – ­Gaza, Líbano e Irã –, as lembranças dos ataques de 7 de outubro de 2023 aparecem com destaque na disputa partidária. O primeiro-ministro Benjamin ­Netanyahu é acusado de desconsiderar alertas sobre a preparação dos militantes palestinos para uma operação de grande escala e de não ter organizado adequadamente a defesa do país. Seus concorrentes, como Naftali Bennett e Gadi Eisenkot, exigem uma investigação independente sobre as falhas.

Por outro lado, Netanyahu e aliados procuram desviar-se do tema, dirigindo-se para os “bodes expiatórios” de sempre, por meio de uma virulenta campanha de incitação racial contra árabes-israelenses, visando tanto os partidos árabes quanto a própria população. Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional de Israel, e seu partido de extrema-direita – o Otzma Yehudit – pediram ao Comitê Central de Eleições que impedisse a participação da Lista Árabe Unida no pleito, argumentando que o partido apoia o terrorismo. Em outra direção, a mídia de direita tem incitado ações contra trabalhadores árabes, estudantes e professores de forma generalizada. ­Ben-Gvir foi além e deu declaração pública dizendo que é necessário matar “30 ou 40” pessoas a cada noite em Gaza, ressaltando que isso valeria até mesmo para aqueles que não são considerados ameaças a Israel. Afinal de contas, enfatizou o ministro, para ninguém ter dúvida do que ele está falando: “Há pessoas lá ­(Gaza) que não são dignas de viver. Eles não deveriam viver. Eles nem são pessoas”.

As lideranças políticas do “­Change Bloc”, aliança de partidos de oposição, têm expressado preocupações com a imagem do país no mundo, afirmando que “Ben-Gvir não representa Israel” e que não apoiam o boicote aos partidos árabes, mas não se atrevem a mencionar a possibilidade, ainda que retórica, de se ter um Estado Palestino. Seu líder, Yair Golan, tem o cuidado de se referir à Cisjordânia como Judeia e Samaria e, além disso, não faz nenhum tipo de crítica ao genocídio em Gaza.

Infelizmente, a linguagem de desumanização empregada por Ben-Gvir em relação aos palestinos encontra amplo respaldo entre os judeus israelenses. Entre março e abril de 2024, 39% dos israelenses afirmaram que a resposta militar de Israel a Gaza foi adequada e 34%, que as ações não foram suficientes, sugerindo que deveriam ser ainda mais agressivas. Somente 19% consideraram a resposta exagerada. Apenas 26% dos israelenses acreditavam que Israel poderia coexistir pacificamente com um Estado Palestino. As pesquisas de opinião em 2025, de certa forma, preservam a mesma visão do ano anterior. Chama atenção entre os dados o fato de que 79% dos judeus israelenses disseram não se sentir perturbados pelo sofrimento da população civil palestina. Uma parte considerável da amostra da comunidade judaica, 76%, declarou acreditar que “não há inocentes em Gaza”.

Trata-se de uma disputa entre partidos sobre como a população palestina será controlada, combatida ou excluída

Os dados sugerem que a questão palestina ainda é central no debate político da sociedade israelense, mas sem preocupação com os direitos humanos, muito menos com qualquer menção a um eventual Estado Palestino. Trata-se muito mais de uma eventual disputa entre os partidos majoritários sobre a forma pela qual a população palestina será controlada, combatida ou eventualmente excluída. Por outro lado, os palestinos da Cisjordânia e de Gaza não votam nas eleições israelenses, enquanto os cidadãos palestinos de Israel, que participam, são objetos frequentes de deslegitimação ou exclusão na campanha ­atual­. Essa dissociação entre território, população e participação autônoma remete a uma questão mais estrutural, qual seja, os limites da própria democracia israelense e a definição de quem constitui a comunidade política que decide sobre o futuro dos territórios palestinos.

Como compreender uma democracia na qual a população majoritária pode decidir sobre a questão territorial e os direitos políticos e humanos de outra coletividade que não integra seu corpo eleitoral ou mesmo daqueles que, apesar de votarem, o fazem sob constrangimentos? O discurso hegemônico israelense, que encontra forte respaldo no Ocidente, gaba-se de ser a única democracia no Oriente Médio. Na verdade, há uma fachada democrática por meio de um sistema eleitoral competitivo e imprensa livre. Na prática, esse mecanismo serve para ­perpetuar, e até expandir, o controle de um grupo étnico, prejudicando princípios democráticos e comunidades minoritárias. O próprio sistema político está inserido em um processo de controle territorial e populacional com conotação étnica. Instituições formalmente democráticas, como as eleições, podem coexistir perfeitamente com uma estrutura de poder que procura preservar a predominância de um grupo étnico sobre outro. •

*Reginaldo Nasser é professor livre docente de Relações Internacionais da PUC-SP

Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Eleição sobre corpos’


Reginaldo Nasser

Professor de Relações Internacionais da PUC-SP

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Fonte: Carta Capital

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