Invasão digital
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Foi dada a largada na corrida pela instalação de data centers no Brasil
Território cobiçado por oferecer condições ambientais altamente favoráveis à instalação de data centers, o Brasil agora já pode oficialmente “abrir a porteira” para as grandes empresas dos setores de Tecnologia da Informação e de comércio eletrônico que quiserem abrigar seus megacentros de processamento de dados no País. Aprovada de forma definitiva este mês pelo Congresso Nacional, a lei que institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata) foi sancionada na terça-feira 15 pelo presidente Lula e deve impulsionar os investimentos internacionais com um plano de incentivos ao setor que, segundo o governo, somará 7,5 bilhões de reais nos próximos três anos.
Entre outras vantagens, o pacote do Redata inclui a suspensão e posterior redução a zero de tributos como IPI, Cofins e PIS/Pasep na aquisição de equipamentos, além da redução do Imposto de Importação quando houver compra de produto sem equivalente no Brasil. Em contrapartida, as empresas assumem o compromisso de que pelo menos 10% da capacidade de armazenamento e processamento dos data centers será dedicada ao mercado brasileiro ou cedida a órgãos do Poder Público e instituições de ensino e pesquisa nacionais. Além disso, deverão destinar ao menos 2% de seus investimentos à pesquisa científica desenvolvida no País. Outra condição imposta aos investidores é que a totalidade da demanda por energia elétrica dos data centers seja suprida por meio de contratos de fornecimento ou de autoprodução provenientes de “fontes renováveis ou de baixa emissão” que serão especificadas na regulamentação do Redata.
Segundo a Associação Brasileira de Data Centers, o Brasil conta atualmente com cerca de 200 data centers dedicados a processamento de dados, computação em nuvem e Inteligência Artificial, mais da metade deles instalada na Região Sudeste. Com os incentivos concedidos pelo Redata e o aumento das manifestações de interesse por parte de grandes empresas estrangeiras, a expectativa do governo é de que aconteça, já nos futuros meses, uma explosão de investimentos no País, algo estimado entre 60 bilhões e 100 bilhões de reais nos próximos quatro anos, de acordo com a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, a Brasscom, que representa 80 empresas do setor. Agora, o Brasil se junta a outros países latino-americanos que instituíram políticas de incentivo à instalação de data centers, como México e Chile.
Com o Redata e o interesse de grandes empresas estrangeiras, o País deve receber investimentos de até 100 bilhões de reais
Dias antes da aprovação do Redata, a largada na corrida pela ocupação de espaços no Brasil foi dada pelo gigante chinês Alibaba Group, que confirmou seu projeto de construção de dois data centers no País, em locais a serem anunciados. O montante do investimento ainda não foi confirmado, mas deverá representar pelo menos metade dos 53 bilhões de dólares destinados pela empresa à sua expansão global em 2026. “O Brasil é uma das economias digitais mais dinâmicas do mundo e nossos investimentos serão de acordo com essa importância”, diz Allen Guo, gerente-geral do Alibaba na América Latina. A região é estratégica para os chineses no duelo global contra empresas norte-americanas, como Amazon e Microsoft, e os data centers projetados para o Brasil serão os primeiros do grupo na América do Sul.
Outro gigante chinês, a ByteDance, dona do TikTok, também já está no pedaço. Com investimentos estimados pela empresa em 200 bilhões de reais nos próximos dez anos, um data center será construído no Complexo Portuário do Pecém, em Caucaia, no Ceará, com previsão para entrada em funcionamento em 2029. A escolha do local é estratégica e deu-se devido à sua proximidade com a rede de cabos ópticos submarinos que parte de Fortaleza para transmitir dados para a Europa e a América do Norte. O projeto do Pecém, entretanto, já enfrenta resistências que permitem vislumbrar futuros embates judiciais que provavelmente tentarão conter ou disciplinar a “invasão” .
Na segunda-feira 14, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União deram entrada em uma ação civil pública para impedir o início das obras até que exigências socioambientais sejam cumpridas. Entre as falhas apontadas estão a inexistência de um Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental, etapa considerada fundamental para estimar os efeitos do projeto, sobretudo porque o data center do TikTok será erguido ao lado de uma Área de Proteção Ambiental e de uma Terra Indígena. A ação chama atenção para as consequências que o empreendimento terá sobre os recursos hídricos da região, que sofre historicamente com a seca, uma vez que, com uma potência instalada de 300 MW para manter o data center funcionando, o projeto prevê captação de água subterrânea para o resfriamento dos servidores.
Cabos submarinos. Em Caucaia, no Ceará, o TikTok vai integrar o Complexo Portuário do Pecém – Imagem: Redes Sociais
A falta ou flexibilização das etapas de licenciamento ambiental também ronda outro megaprojeto no Brasil, o Scala AI City, que tem previsão de se tornar o maior data center da América Latina. Voltado ao treinamento de IA, o complexo da empresa norte-americana Scala Data Centers será erguido em Eldorado do Sul, cidade vizinha a Porto Alegre. O projeto já obteve, por parte do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, o compromisso de “um licenciamento ambiental simplificado” e de “concessão de licenças e outorgas ambientais no menor tempo possível”, segundo documentos obtidos pela Ambiental Media. Causa alarme entre os críticos a previsão de um gasto de energia de 5 GW quando o Scala AI City estiver operando a pleno vapor, em 2035. “Essa carga é maior do que toda a energia elétrica que o estado consome atualmente”, diz o deputado estadual Matheus Gomes, do PSOL.
Na briga para atrair data centers, a prefeitura do Rio de Janeiro assinou no primeiro dia de setembro um protocolo de intenções com o BNDES para a construção do Rio AI City, projeto da Elea Data Centers prometido como o “maior hub de data centers na América Latina”. O empreendimento exigirá uma capacidade elétrica de 3 GW, mais do que toda a zona metropolitana da cidade, que hoje consome 1,8 GW. Também fazem parte do acordo de cooperação os ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, além da Eletrobras e da Finep. Pró-reitor de Gestão da UFRJ e ex-secretário de Ciência e Tecnologia do Rio, Fernando Peregrino pergunta: “Se bilhões forem investidos em data centers no Rio, quanto dessa capacidade computacional ficará disponível para pesquisadores, universidades e empresas tecnológicas brasileiras? Essa talvez seja uma discussão mais importante do que simplesmente saber quantos data centers serão construídos”, diz. Além disso, é preciso superar o gargalo do desenvolvimento de uma indústria de ponta para usar a IA. “As indústrias que nascem nas universidades brasileiras têm grande capital intelectual, mas baixo volume de capital para investimento”, diz Peregrino.
Não basta perguntar se existe energia renovável suficiente, é preciso analisar onde ela está disponível, recomenda Clauber Leite
Diretor de Energia Sustentável e Bioeconomia do Instituto E+, Clauber Leite afirma que os principais impactos dos data centers são o alto consumo de energia para processamento e de água para refrigeração, além da ocupação do território e do ruído e calor dissipados pelas instalações. O especialista lamenta que uma dimensão da discussão ainda receba pouca atenção no Brasil: os impactos sobre o sistema elétrico. “Grandes data centers podem representar centenas de megawatts de nova demanda. Dependendo de onde e como essa carga se conecta, isso exigirá reforços nas redes de transmissão e distribuição, expansão da geração e maior necessidade de recursos de flexibilidade para manter a confiabilidade do sistema.” Não basta perguntar se existe energia renovável suficiente. “É preciso analisar onde essa energia está disponível, se existe capacidade de rede para conectá-la, quais investimentos em infraestrutura serão necessários e quem arcará com os custos.”
Apesar dos pesares, Leite diz que a instalação de data centers pode contribuir positivamente para a transição energética brasileira. “Se forem planejados desde o início, os data centers podem deixar de ser apenas uma nova carga e passar a contribuir para a modernização do setor elétrico.” Segundo ele, a discussão, portanto, não deve ser apenas ambiental ou econômica. “É uma discussão sobre desenvolvimento. O desafio é garantir que uma infraestrutura intensiva em energia e recursos naturais também gere inovação, empregos qualificados, desenvolvimento regional e fortaleça a transição”, conclui. •
Publicado na edição n° 1431 de CartaCapital, em 23 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Invasão digital’
Maurício Thuswohl
Repórter de CartaCapital no Rio de Janeiro
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Fonte: Carta Capital