Grilagem no gelo
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Após meses de pressão, Trump sela acordo com a Dinamarca e expande possibilidades de negócios no território
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou na terça-feira 22, em Nova York, um acordo com as autoridades da Dinamarca e da Groenlândia, território semiautônomo dinamarquês, para ampliar a presença de tropas norte-americanas nessa estratégica porção do Ártico, pródiga em recursos naturais e vital para os planos de defesa de Washington, notadamente contra uma projetada agressão russa em um futuro incerto e em um contexto mais incerto ainda.
O assunto é uma das obsessões de Trump desde o início de seu segundo mandato, em janeiro de 2025. Há um ano, o líder republicano coleciona declarações abertamente imperialistas, com as quais proclama o desejo ilegal de incorporar uma porção do território da Europa para si. O ímpeto sobre o que não lhe pertence não é dirigido exclusivamente à Groenlândia, pois Trump manifestou desejos semelhantes de anexação em relação ao Canadá, ao Panamá e até ao Estreito de Ormuz, que pertence ao Irã, e fica distante quase 12 mil quilômetros de Washington. No caso dinamarquês, o que impressiona é, no entanto, a desfaçatez com que ele avança sobre as terras de um de seus maiores aliados desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O gesto revela o nível de deterioração das relações com a Europa, continente no qual 81% da população passou a ver os Estados Unidos com “desconfiança”, segundo dados de uma pesquisa feita pelo Pew Research Center em junho deste ano.
Os detalhes do tratado seguem obscuros e ainda não se sabe qual a diferença para o acerto vigente desde 1951
De acordo com a mesma pesquisa, 85% dos europeus desaprovam especificamente a forma como Trump lida com a Groenlândia. Um detalhe: a pesquisa foi feita antes de o norte-americano anunciar que tomaria “controle permanente sobre a segurança e outras necessidades” da ilha. Os detalhes do assim chamado “acordo” permanecem obscuros. A primeira-ministra dinamarquesa, Jens Frederik Nielsen, de centro-direita, assegura que o trato vai “reconhecer a soberania e a integridade territorial” da Groenlândia. Não fica nítido, portanto, em que esse trato se diferenciaria do documento assinado em 1951 e vigente atualmente, que já outorga aos Estados Unidos amplos poderes para instalar e manter bases militares na região.
A justificativa para o interesse redobrado de Trump na Groenlândia é que chineses e russos estariam trabalhando em sintonia para aumentar a própria presença na região do Ártico. Além disso, há uma projeção segundo a qual o derretimento de glaciares resultaria tanto em novas rotas de navegação, mais curtas e, portanto, mais rápidas e mais baratas, quanto no acesso a recursos naturais até então inalcançáveis, como terras-raras, essenciais para o funcionamento de componentes de alta tecnologia, além de petróleo, gás e até urânio, indispensável para projetos atômicos, tanto com fins pacíficos quanto bélicos.
Trump, faz tempo, está de olho na ilha dinamarquesa – Imagem: Redes Sociais
O tratado de 1951, atualmente vigente, dá aos Estados Unidos o direito de “construir, instalar, manter e operar” bases militares próprias na Groenlândia, além de outorgar o direito de que veículos norte-americanos possam “aterrissar, decolar, ancorar e se movimentar” livremente no território insular, cuja área é maior que a do México, e onde vivem 57 mil habitantes, que se declaram “nervosos e desconfiados” com o assédio permanente de Trump. A maioria dos habitantes, quando entrevistados, se mostra completamente desinformada sobre os contornos desse novo trato, a respeito do qual o presidente dos Estados Unidos proclama duração “infinita”.
Os líderes europeus parecem perdidos entre a resistência e a capitulação. No início, quando Trump falou em anexação pela primeira vez, em janeiro deste ano, França, Noruega, Suécia, Holanda, Reino Unido e Alemanha chegaram a desembarcar algumas poucas unidades militares na ilha, demonstrando, ao menos simbolicamente, sua disposição de se contrapor às declarações de Trump. A importância do gesto não esteve exatamente em sua força – insuficiente para se opor à maior potência militar no mundo –, mas em marcar posição. Mais tarde, em 7 de setembro, a Comissão Europeia anunciou o desbloqueio de um fundo de 200 milhões de euros em 2026 e 2027 para financiar projetos na área de energia, minerais críticos e conectividade com o continente. Ao anunciar a liberação de fundos, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, relembrou o óbvio: “A integridade territorial, a soberania e a inviolabilidade das fronteiras são princípios basilares do direito internacional”. Ela relembrou que “cabe aos habitantes da Groenlândia e da Dinamarca decidirem o futuro do território. E a ninguém mais”.

Entre as declarações de Von der Leyen e as de Trump há um abismo que ninguém é capaz de dizer ainda como será preenchido, pois o presidente norte-americano dá como certo seu avanço sobre essa porção do território europeu. Na assinatura do trato, em evento paralelo à Assembleia-Geral da ONU, o republicano disse que os Estados Unidos estão agora autorizados a “estabelecer uma zona de defesa suplementar em Narsarsuaq (no sul) e em Mestersvig (no leste)”, além de poder incrementar a única base que mantêm hoje no território, em Pituffik, ao norte.
O acordo também impede a Groenlândia ou a Dinamarca de permitir que quaisquer atores estranhos à União Europeia e à Otan exerçam controle sobre recursos estratégicos da ilha. Não está claro em que extensão o documento permite aos Estados Unidos explorarem recursos para si mesmos. Em julho, a empresa Greenland Energy, ligada a aliados políticos de Trump, enviou equipamentos pesados de perfuração para a Groenlândia. Em agosto, moradores relataram que embarcações privadas estrangeiras estavam agindo na região. O governo local tomou providências legais e paralisou essas atividades por falta de licenças adequadas, mas o episódio foi suficiente para levantar a suspeita de que os argumentos sobre preocupação com segurança não passem de pretexto para abrir possibilidades de negócios lucrativos, com uma enorme reserva de mercado sobre um setor estratégico da mineração. •
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Grilagem no gelo’
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Fonte: Carta Capital