Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de ‘Um País Chamado
Favela’ e ‘Como Ser Uma Empresa Antirracista’

De 2022 a 2026, de uma promessa a outra, o brasileiro continua querendo saber se sua vida vai melhorar de maneira concreta 

Será que a caneta emagrecedora consegue acabar até com a fome de picanha? A brincadeira serve para contar uma mudança curiosa da política brasileira. Em 2022, a picanha virou um atalho para falar de poder de compra. Não era propriamente sobre o corte bovino. Era sobre voltar a fazer churrasco, reunir a família no domingo e colocar na mesa algo que tinha ficado caro demais. Quatro anos depois, a campanha encontra outro símbolo de desejo: a caneta que, entre seus efeitos, reduz o apetite.

A política também tem senso de humor.

As canetas fizeram um percurso muito brasileiro. Começaram no consultório caro e no perfil de celebridade, desceram para a academia, chegaram ao grupo de WhatsApp e agora bateram à porta do SUS. O Locomotiva encontrou um fenômeno que já atravessou as classes sociais. Entre quem conhece o produto, o preço aparece como uma das principais barreiras para usar ou voltar a usar. O desejo se democratizou antes do acesso.

É nessa distância que a caneta entra na campanha. Lula passou a defender que esses medicamentos sejam oferecidos pelo SUS a pacientes com obesidade e indicação médica. O governo fala em estudos, protocolo clínico e incorporação responsável. Entre a frase curta da campanha e a caneta na mão do paciente ainda existe um caminho a percorrer.

Durante boa parte dos últimos 20 anos, a inclusão social no Brasil foi contada pelo que a família passou a conseguir comprar: geladeira, computador, carro, passagem de avião, faculdade. Agora a desigualdade aparece também no acesso a uma tecnologia médica nova e, principalmente, na capacidade de manter o tratamento sem desmontar o resto do orçamento.

Comprar uma caixa é uma coisa. Pagar todo mês, fazer consulta, exame e acompanhamento é outra história. O boleto não emagrece.

Quem enxerga nisso apenas vaidade mais uma vez olha o Brasil pela janela errada. Para muita gente, emagrecer envolve saúde, autoestima, disposição, mobilidade e a possibilidade de trabalhar ou viver com menos limitações. Mas seria igualmente simplista imaginar que a obesidade seria derrotada por uma seringa mágica.

Essa conversa começa muito antes, inclusive na infância. Num país no qual os ultraprocessados ocupam espaço nas prateleiras, nas lancheiras e na publicidade dirigida às crianças, combater a obesidade também passa pelo que se come antes de qualquer médico receitar uma caneta. As próprias recomendações de saúde para a infância alertam para o consumo de ultraprocessados e para o peso da publicidade de alimentos sobre as crianças.

A caneta pode ser parte da resposta para quem tem indicação. Não pode virar desculpa para ignorar o ambiente alimentar que produziu o problema.

E aqui está o pedaço politicamente mais interessante da história. O eleitor não precisa acreditar na pureza das intenções de quem governa para gostar de uma política pública. Ele pode pensar: “Claro que estão anunciando isso porque tem eleição”. E logo depois: “Mas, se chegar para quem precisa, melhor”.

Brasília costuma enxergar contradição onde existe pragmatismo. O brasileiro sabe que político quer voto. A pergunta que chega à mesa de jantar é bem menos filosófica: vai funcionar? Quem terá direito? Quando começa? Meu médico poderá me indicar?

Descobrir que uma medida tem cálculo eleitoral não encerra a discussão. O eleitor também julga a entrega. Por isso, a caneta talvez seja mais interessante politicamente do que parece. Não há, até agora, pesquisa publicada capaz de mostrar que essa promessa transfere voto. Afirmar isso seria chute. O que existe é um tema que reúne saúde pública, desejo de consumo, inovação e desigualdade.

O Bolsa Família é conhecido. O Minha Casa, Minha Vida é conhecido. A Farmácia Popular é conhecida. A caneta chega com outra embalagem simbólica: representa uma tecnologia nova, desejada e ainda limitada pelo tamanho do bolso.

Em 2022, a picanha dizia: quero voltar a consumir aquilo que ficou distante. Em 2026, a caneta diz algo um pouco diferente: quero ter acesso ao que já existe, mas ainda não chegou igualmente para todos. Talvez a campanha tenha mudado o cardápio sem mudar completamente a pergunta. O brasileiro continua querendo saber se sua vida vai melhorar de maneira concreta.

A caneta pode até diminuir a fome de picanha. A questão eleitoral é outra: saber se a promessa consegue diminuir a distância entre o desejo e a entrega. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Da picanha à caneta’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Renato Meirelles

Comunicólogo, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Data Favela, autor de ‘Um País Chamado
Favela’ e ‘Como Ser Uma Empresa Antirracista’

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Fonte: Carta Capital

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