Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Núcleo Avançado de Tórax do Hospital Sírio-Libanês

Embora não haja político ideal, há uma classe política nefasta. Ao votar, pergunte ao seu coração e escute a ciência. Escolha a empatia e a vida

Em véspera de eleição, preocupada com os rumos do País, tenho revisitado muitos pensamentos e lembranças. Lembrei-me, em especial, de uma pergunta que ouvi da minha filha mais velha, aos 6 anos, quando fui buscá-la na escola: “Mãe, como faço para saber se uma coisa que vou fazer é certa ou errada?”

Essas oportunidades de diálogo com os filhos são valiosas demais. Pensei um pouco, respirei fundo e respondi: “Pergunte para o seu coração. Se na hora ele ficar feliz com o que você vai fazer, essa é a coisa certa. Se ele ficar triste, essa coisa é errada”.

Na época, pareceu-me uma boa resposta para uma menina daquela idade. Passou-se uma semana e eu já havia me esquecido da conversa quando, novamente ao pegá-la na escola, ela me disse: “Mãe, sabe, hoje eu fiz aquela pergunta para o meu coração”. Lembrei rápido, arregalei os olhos e os ouvidos: “E como foi?” “Minha amiga me falou: ‘Vamos roubar aquela borracha e a canetinha da coleguinha, é muito legal!’ Na mesma hora eu perguntei para o meu coração e ele ficou bem triste com o que ia acontecer. Daí eu disse para ela que isso não era certo e fui brincar.” Que alegria eu senti.

Na coluna de hoje, correndo o risco de simplificar a questão, gostaria de fazer essa mesma sugestão a você, leitor: ao votar, pergunte ao seu coração se o sentimento após a escolha é de alegria ou de tristeza. É claro que, no mundo dos cérebros adultos, o julgamento moral é infinitamente mais denso e complexo. Pensando nessa complexidade, e na distorção que o nosso poder de julgamento tem sofrido com tantos embates e desilusões veiculados pela mídia, gostaria de convidá-los a uma reflexão usando um exemplo que vivi no último fim de semana.

Ao caminhar por um bairro nobre de São Paulo, observei uma pessoa em situa­ção de rua bebendo água da sarjeta. Senti um choque, envolto em tristeza profunda, culpa, fracasso e horror. Não podemos normalizar isso, pensei. Temos recursos, estudos e experiências de várias nações que enfrentam esse problema. A solução não é nos tornarmos míopes sociais. Não tive, porém, coragem de me aproximar e dar um copo d’água para aquela criatura.

Para a neurociência, a desumanização opera por dois circuitos cerebrais distintos. A animalística decorre do aumento de inibição no giro frontal inferior, que bloqueia as reações emocionais de empatia, substituindo a compaixão por nojo e repulsa. A desumanização mecanística, por sua vez, resulta de uma inibição no córtex pré-frontal, levando o cérebro a reduzir seres humanos a objetos inanimados. Essa anestesia empática conecta-se à necropolítica, conceito formulado pelo filósofo Achille Mbembe.

A necropolítica descreve a capacidade do Estado e das elites políticas de ditar quem pode viver e quem deve morrer, criando “mundos de morte”, onde populações inteiras são submetidas à condição de mortos-vivos. Em vez de gerir a vida, o poder estatal passa a gerir a morte, utilizando o racismo estrutural e o estado de exceção como parâmetros para decidir quais corpos são descartáveis e matáveis sem causar comoção pública.

A miopia social e a aceitação silenciosa da política da morte cobram um preço biológico alto. Um estudo utilizando cenários de realidade virtual, publicado na revista Nature Neuroscience, mostrou que a mera antecipação visual e sensorial de uma ameaça de contágio no nosso entorno ativa uma resposta neural, inflamatória e imunológica real no sangue. O que vemos e ignoramos cotidianamente nas ruas adoece o nosso organismo.

Em contrapartida, tomar uma atitude concreta para ajudar o próximo ativa redes neuroendócrinas que reduzem os níveis de cortisol e fortalecem o sistema imunológico, gerando impactos positivos até na resposta antitumoral. Cuidar do outro é um ato direto de preservação biológica de nós mesmos.

Desculpe minha ousadia, mas a pretensão deste artigo é tentar fazer com que tudo isso passe pela sua cabeça na hora de votar. A necropolítica não pode voltar – basta lembrar as consequências da atitude omissa e deliberada do governo passado durante a pandemia, que deixou milhares expostos à morte evitável.

Amar o nosso país, seu povo e sua natureza é condição fundamental para o nosso êxito como nação, inclusive em termos econômicos. Não existe político ideal, mas, com certeza, existe uma classe política nefasta que assombra os nossos tempos. Ao votar, pergunte ao seu coração e escute a ciência: escolha a empatia e a vida. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A banalidade do mal’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Elnara Negri

Livre-docente pela Faculdade de Medicina da USP e pneumologista do Núcleo Avançado de Tórax do Hospital Sírio-Libanês

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Fonte: Carta Capital

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