O mistério continua
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Não se sabe o paradeiro de Nathana Lopes, acompanhante de Sicário no dia da prisão
Na manhã de 4 de março, um relógio de luxo passou a ocupar um lugar inesperado na história do escândalo do Banco Master. Agentes da Polícia Federal haviam chegado a um apartamento em Belo Horizonte para prender Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, apontado pelos investigadores como um dos operadores de uma estrutura clandestina a serviço do banqueiro Daniel Vorcaro. No imóvel, em companhia de Sicário, estava Nathana Lopes Figueiredo, brasileira com cidadania irlandesa e residência declarada em Dubai. Em meio à operação, Mourão tentou entregar-lhe discretamente o relógio. Segundo o auto de apreensão, Nathana recebeu o objeto e permaneceu com ele “de forma dissimulada”. O gesto não passou despercebido pelos policiais, que registraram uma suspeita de “possível cumplicidade” e apreenderam o celular da mulher.
Horas depois, Sicário atentou contra a própria vida na carceragem da PF em Minas Gerais. Morreu em 6 de março, dois dias após a prisão. A investigação oficial concluiu que o suspeito cometeu suicídio e não identificou a participação de terceiros. Permanecem, porém, perguntas sobre o que Mourão chegou a dizer aos policiais e sobre o que Nathana poderia esclarecer a respeito de seus últimos momentos em liberdade e das atividades investigadas.
Poucos dias depois, a mulher informou a pretensão de viajar para Dubai e se dispôs a prestar depoimento por videoconferência. A PF pediu ao ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal, que determinasse a apreensão do passaporte e impedisse a saída dela do Brasil sem autorização judicial. Os investigadores a consideravam uma “testemunha-chave” e argumentaram que a viagem poderia comprometer a apuração. Mendonça rejeitou o pedido, levando em conta a “disposição” da acompanhante para colaborar.
A decisão permitiu a viagem, mas os documentos públicos examinados por CartaCapital não esclarecem se Nathana efetivamente embarcou, onde se encontra hoje ou se prestou depoimento conforme prometido. Sua defesa afirma que ela não participou dos crimes, não foi indiciada e não está submetida a medidas cautelares.
O ministro André Mendonça contrariou uma solicitação da PF, que a considerava uma “testemunha-chave”, e permitiu que a mulher viajasse a Dubai
Em duas petições datadas de 22 de setembro, a deputada estadual Bella Gonçalves, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, pediu esclarecimentos à PF e a Mendonça. Quer saber em qual condição Nathana figura nas investigações, se foi ouvida, se prestou depoimento e onde se encontra atualmente. Ao relator do caso no STF, solicitou informações sobre as medidas adotadas para assegurar a colaboração após a autorização de viagem e quais delas foram cumpridas. “As lacunas desse processo sugerem que há um grande mistério envolvendo a morte de Sicário e no paradeiro da testemunha”, afirma a parlamentar.
O apartamento onde Mourão foi preso fica em um edifício no bairro Santa Lúcia, em Belo Horizonte. Embora o relatório policial se refira ao imóvel como residência, os agentes registraram não ter encontrado roupas em quantidade suficiente para demonstrar que o suspeito morasse permanentemente no local. Os documentos examinados pela revista não esclarecem quem era o proprietário, quem custeava o apartamento ou por quanto tempo Mourão e Nathana permaneceram no local.
A PF apreendeu o equipamento de gravação das câmeras do condomínio, que possuía uma câmera no hall do apartamento, mas as imagens não aparecem nos documentos públicos. A deputada pediu à corporação que informe se identificou o proprietário do imóvel e examinou as gravações. Três iPhones também foram apreendidos durante a busca. Mourão e Nathana recusaram-se a fornecer as senhas, segundo o registro policial. Posteriormente, a defesa da mulher pediu a devolução do seu aparelho, afirmando que ela residia legalmente nos Emirados Árabes Unidos e que havia comprado o telefone em Dubai, em novembro de 2025. A coincidência de datas com uma viagem de Vorcaro à cidade não demonstra que os dois tenham se encontrado.
A presença de Nathana na cena da prisão só se tornou conhecida publicamente agora, cerca de seis meses depois, com a divulgação de documentos do caso Master sob sigilo no STF. Os registros permitiram reconstituir a diligência, conhecer a suspeita anotada no termo de apreensão e examinar o pedido da PF para impedir a viagem. Não trouxeram, entretanto, uma resposta pública sobre o que aconteceu depois da decisão de Mendonça.
Imagem: Redes Sociais
Há outra pergunta em aberto: o que Mourão chegou a dizer aos investigadores antes de morrer? Na petição encaminhada à PF, a deputada pede que a corporação esclareça se Sicário prestou depoimento no dia da prisão, quais informações foram colhidas e se elas contribuíram para as investigações. A parlamentar solicita ainda informações sobre os procedimentos relacionados às atividades atribuídas a ele que continuam em andamento.
A conclusão oficial de que Mourão cometeu suicídio diz respeito às circunstâncias da morte. Não esclarece, porém, o que ele eventualmente relatou aos policiais nem o que Nathana poderia acrescentar à apuração do caso Master. Bella Gonçalves pede ainda que a PF informe se o inquérito sobre a morte foi formalmente arquivado e, em caso afirmativo, quando ocorreu.
É justamente a situação de Nathana que a petição dirigida a Mendonça procura esclarecer. Além de perguntar em qual condição ela figura nos procedimentos, a parlamentar solicita informações sobre o fundamento da autorização de viagem, quais providências foram adotadas para evitar prejuízo à obtenção de provas e quais foram efetivamente cumpridas.
A Polícia Federal recusou-se a prestar informações à reportagem “em razão do período de Defeso Eleitoral”. As petições da deputada à PF e ao ministro do STF também permaneciam sem resposta até o fechamento desta edição. •
Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O mistério continua’
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Fonte: Carta Capital