Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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A Irlanda apoia a causa palestina, mas reforça a perseguição a imigrantes

A República da Irlanda ficará de fora, pelo segundo ano consecutivo, de um dos eventos mais tradicionais do continente, o Eurovision, que completa 70 anos em 2026. O boicote foi anunciado pela diretoria da RTÉ, o conglomerado de comunicação estatal, por causa da participação de Israel na competição e expressa a coerência do país em relação à crise humanitária em Gaza. Apesar de pequena em território, a Irlanda mantém expressivo protagonismo político e influência internacional. A postura não se limita ao gesto simbólico. Em maio de 2024, o país, ao lado da Espanha e da Noruega, reconheceu o Estado palestino. E, em julho último, a presidente Catherine Connolly assinou o ato que proíbe a importação de produtos originários de assentamentos israelenses em territórios palestinos ocupados. O texto é explícito quanto à motivação: declara que a lei existe para dar cumprimento à obrigação jurídica internacional identificada pela Corte Internacional de Justiça, segundo a qual os Estados devem adotar medidas para impedir relações comerciais que contribuam para a manutenção da situação ilegal criada por Tel-Aviv na região.

O folclore celta está repleto de deusas e mulheres de poder, marca dos contos e das histórias, além das inúmeras celebrações católicas. As mulheres sempre ocuparam lugar de destaque na política local e a eleição de Mary Robinson, em 1990, fez da Irlanda o primeiro país europeu a ter uma como chefe de Estado.

No quesito igualdade de direitos, foi na Ilha Esmeralda, em 2015, que um referendo popular aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, com grande repercussão e influência internacional. Em 2018, outro referendo derrubou a Oitava Emenda, que equiparava a vida do feto à da gestante e vigorava desde 1983, após um ciclo de mobilização que levou o tema ao debate público. A March for Choice, organizada anualmente pela Abortion Rights Campaign desde 2012, reuniu 2,5 mil participantes na primeira edição e 40 mil em 2017, quando a pressão popular havia forçado a criação da Assembleia de Cidadãos e a discussão do tema pelo Legislativo. A votação terminou com 66,4% dos votos pela revogação, e a única circunscrição a rejeitar a mudança, Donegal, registrou 48% de votos favoráveis. Assim como no casamento igualitário, a pressão veio de baixo para cima, e a mudança da legislação expressou o clamor das ruas.

Com a Declaração de Independência, em 1922, a república adotou uma postura de neutralidade em conflitos internacionais. A Irlanda não faz parte da Otan, mas, embora mantenha posicionamento neutro, o aeroporto de ­Shannon, no oeste do país, tem sido usado como base pelos Estados Unidos. Segundo dados da RTÉ, cerca de 2 mil voos militares ou civis norte-americanos passaram por Shannon entre 2022 e 2024, parte deles repleto de munições, o que expõe a tensão entre a neutralidade declarada e a prática logística.

Por pressão de radicais de direita, o governo quer endurecer as regras de cidadania

O tema mobiliza a sociedade civil e a Irish Neutrality League sustenta que o uso militar de Shannon é “a mais flagrante violação da neutralidade irlandesa” e defende o fim dessa utilização. A entidade mantém uma campanha civil pela proteção e pelo fortalecimento da posição, argumentando que ela “não é apenas uma escolha diplomática, mas uma marca da identidade nacional construída ao longo de um século, e que o uso do território por forças estrangeiras em conflito ativo compromete a credibilidade do país como mediador”.

A Irlanda construiu uma reputação internacional sobre a disposição de assumir posições públicas em defesa do direito humanitário e de políticas de vanguarda, do casamento igualitário ao aborto legal. A participação popular pressiona os governantes e são inúmeros os exemplos de resistência que começaram nas ruas e se transformaram em políticas públicas. Com o avanço da extrema-direita em toda a Europa, a perseguição aos imigrantes chegou, no entanto, ao país com um pequeno e barulhento grupo que defende uma “Irlanda para os irlandeses”.

Um projeto de lei enviado ao Parlamento pelo ministro da Justiça, Jim O’Callaghan, de revisão da cidadania, parece ecoar esses protestos e criar um paradoxo. Enquanto o país se retira de um festival para marcar posição contra a crise em Gaza, discute internamente fechar as portas de entrada para quem quer se tornar cidadão irlandês. Entre os pontos apresentados estão a ampliação do tempo de residência exigido para a naturalização, hoje de cinco anos, a criação de exames de idioma e de conhecimento cívico e a restrição de direitos de cidadania por descendência, mudanças que afetam diretamente a diáspora irlandesa, historicamente um dos pilares da projeção internacional do país.

O momento escolhido agrava o paradoxo. Desde 1º de julho, a Irlanda ocupa a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, posição que exige atuar como “honest broker” (mediador imparcial) na condução das políticas do bloco, com prioridades declaradas de competitividade, valores e segurança. Aprovar, no mesmo semestre, uma reforma que restringe o acesso à nacionalidade tende a soar como uma mensagem equivocada aos parceiros europeus, justamente quando o país pede confiança para conduzir a agenda comum.

A pergunta que fica é se o protagonismo geopolítico do país resiste quando o tema deixa de ser a política externa e passa a ser quem pode – ou não – ser chamado de irlandês. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Empatia seletiva’


Fernanda Otero

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Fonte: Carta Capital

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