Dívidas apertam e microempresas em recuperação judicial saltam de 513 para 1.575; especialista alerta para sinais de risco
Por Raunner Vinícius Soares — Jornal Opção

O aumento dos pedidos de Recuperação Judicial no Brasil tem alcançado cada vez mais as empresas de menor porte. Dados do Monitor RGF-Bizdoc mostram que, em junho de 2026, o país contabilizava 6.341 empresas em Recuperação Judicial. Nas microempresas, o número de CNPJs nessa situação saltou de 513, no início de 2023, para 1.575.
Os números revelam que as dificuldades para administrar dívidas e preservar o fluxo de caixa não estão mais concentradas apenas nos grandes grupos empresariais, que protagonizaram alguns dos processos de recuperação mais conhecidos dos últimos anos.
O cenário acompanha o crescimento da inadimplência. Segundo a Serasa Experian, o Brasil registrou, em julho, 9,2 milhões de empresas inadimplentes, alta de 14,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. O volume total das dívidas atingiu R$ 238,6 bilhões.
Ao Jornal Opção, o advogado empresarial e especialista em Recuperação Judicial, Eliseu Silveira, explicou, nesta quarta-feira, 30, que a combinação de juros elevados e estrutura financeira fragilizada ajuda a entender o avanço dos pedidos de Recuperação Judicial entre os pequenos negócios.

“O que temos hoje é uma combinação de juros altos por um período prolongado com empresas que já possuem uma estrutura financeira mais frágil. O pequeno empresário, muitas vezes, precisa recorrer a crédito caro e de curto prazo para manter o capital de giro. Quando a margem diminui, chega um momento em que a dívida começa a consumir justamente o caixa necessário para manter a empresa funcionando”, disse.
Eliseu explicou que a alta observada nos pedidos também está relacionada a uma mudança na forma como os empresários enxergam o mecanismo de Recuperação Judicial. “Em 2024, as micro e pequenas empresas registraram 1.676 pedidos de Recuperação Judicial, um crescimento de 78,4% em relação a 2023”, apontou.
“Mas existe também uma mudança de comportamento. O empresário está conhecendo melhor a Recuperação Judicial e começando a enxergá-la como uma alternativa para reorganizar o negócio, e não necessariamente como sinal de que a empresa fracassou”, acrescentou.
Ao ser questionado sobre os indícios de um possível agravamento da situação financeira, o especialista afirmou que alguns sinais costumam aparecer repetidamente nas empresas em dificuldade.
“Um deles é começar a fazer um empréstimo novo para pagar uma dívida antiga. Outro é atrasar impostos para conseguir pagar fornecedores ou bancos. Também é preocupante quando a empresa precisa antecipar recebíveis todos os meses para fechar a folha ou quando o faturamento até se mantém, mas o caixa continua sempre negativo”, disse.
O advogado acrescentou que o comprometimento do patrimônio pessoal do empresário também merece atenção. “Um outro sinal importante é quando o próprio empresário passa a colocar dinheiro pessoal na empresa ou oferecer garantias pessoais com frequência. E existe uma situação ainda mais delicada”, explicou.
“Quando ele [o empresário] perde a dimensão do próprio endividamento e já não consegue dizer exatamente quanto deve e para quem deve. Quando dois ou três desses problemas começam a acontecer ao mesmo tempo, dificilmente estamos falando apenas de uma dificuldade passageira”, completou.
Serviços e comércio continuam liderando o número de pedidos de Recuperação Judicial no país. Em 2024, o setor de serviços registrou 928 pedidos, enquanto o comércio contabilizou 575.
No entanto, outras atividades também têm demonstrado aumento da pressão financeira. Segundo Eliseu, o agronegócio merece atenção especial, sobretudo na região Centro-Oeste.
“Serviços e comércio aparecem historicamente entre os setores com maior número de pedidos. Em 2024, Serviços registrou 928 pedidos e o Comércio, 575. Mas, quando olhamos para o Centro-Oeste, o agronegócio e o produtor rural também chamam bastante atenção”, comentou.
O especialista citou um recorte recente para ilustrar a tendência. “Em abril de 2025, por exemplo, o setor primário chegou a ser o segmento mais impactado, com 64 pedidos. Isso tem relação com uma série de fatores que acabam acontecendo ao mesmo tempo. Quebra de safra, redução no preço das commodities e um endividamento bancário que fica ainda mais pesado em um cenário de juros elevados”, disse.
Sobre a busca crescente por financiamentos e empréstimos, o advogado ponderou que o crédito pode ser uma ferramenta importante desde que esteja vinculado a uma estratégia capaz de gerar retorno financeiro.
“O crédito é positivo quando existe uma finalidade clara e aquele dinheiro tem capacidade de gerar retorno para a empresa. Pode ser um investimento produtivo, uma expansão planejada ou até a compra de estoque quando existe uma perspectiva concreta de giro”, esclareceu.
Por outro lado, ele alertou para os riscos de utilizar empréstimos apenas para cobrir déficits operacionais. “O problema começa quando o empréstimo deixa de financiar o crescimento e passa a financiar o prejuízo. Se a empresa está pegando dinheiro apenas para cobrir um buraco no caixa, sem resolver o que está provocando esse déficit, o crédito passa a empurrar o problema para frente. E normalmente essa dívida vai ficando cada vez mais cara”, afirmou.
Para o especialista, existe uma pergunta essencial antes da contratação de qualquer linha de crédito. “Uma pergunta simples que o empresário precisa fazer antes de contratar um empréstimo é como esse dinheiro vai gerar receita suficiente para pagar essa própria dívida. Se não existe uma resposta clara, é preciso ter muita cautela”, disse.
Ao abordar os erros mais frequentes cometidos por empresários em dificuldades financeiras, Eliseu apontou a demora para agir como um dos fatores mais prejudiciais. “O erro mais comum é esperar demais. Muitas vezes, o empresário acredita que o próximo mês será melhor e que conseguirá resolver a situação sozinho. Então ele renova dívidas, oferece garantias pessoais, vende patrimônio às pressas e vai adiando a busca por ajuda”, apontou.
Segundo o advogado, a postergação costuma reduzir significativamente as possibilidades de recuperação. “Quando procura orientação, em alguns casos, o caixa já acabou e as alternativas ficaram muito menores. Quanto mais cedo o problema é identificado, maiores são as possibilidades de negociação. Esperar a situação chegar ao limite pode fazer com que a empresa precise adotar uma medida muito mais drástica do que seria necessária se tivesse agido antes”, afirmou.
A ampliação do uso da Recuperação Judicial por pequenas empresas também está relacionada a mudanças legislativas e ao amadurecimento do próprio instituto nos últimos anos.
“Houve algumas mudanças importantes nos últimos anos. A reforma da Lei 11.101, em 2020, trouxe mais segurança ao processo, criou novas possibilidades de financiamento durante a recuperação e também ampliou caminhos para o produtor rural”, disse.
Na avaliação do especialista, a mudança não ocorreu apenas no campo jurídico. “Além disso, a própria jurisprudência amadureceu, o que trouxe mais previsibilidade. Mas acredito que existe também uma mudança cultural importante. Aos poucos, a Recuperação Judicial deixou de carregar aquele estigma de que a empresa está necessariamente quebrando”, afirmou.
Eliseu ressaltou que a Recuperação Judicial tem sido compreendida cada vez mais como uma ferramenta de preservação da atividade econômica. “Hoje existe uma compreensão maior de que ela pode ser utilizada justamente para tentar preservar a atividade, os empregos e permitir a reorganização das dívidas. Recuperar uma empresa é diferente de encerrar uma empresa”, apontou.
Para empresários que ainda mantêm suas operações em funcionamento, apesar do aumento das dívidas, a recomendação do advogado é agir antes que a situação se torne insustentável. “O principal conselho é não esperar a situação piorar. Se a empresa ainda está funcionando e existe algum fôlego financeiro, esse é justamente o momento de fazer um diagnóstico completo das dívidas e entender o tamanho real do problema”, disse.
O especialista defende que a análise precisa diferenciar os tipos de compromissos financeiros assumidos pela empresa e priorizar o diálogo com os credores. “É importante separar o que é dívida da própria operação do que é dívida financeira e tentar conversar com os credores antes que a inadimplência se torne generalizada”, afirmou.
Segundo Eliseu, existem alternativas que podem ser adotadas antes da Recuperação Judicial, dependendo da situação enfrentada pela empresa. “Existem alternativas antes de uma Recuperação Judicial, como uma renegociação estruturada, a mediação e a Recuperação Extrajudicial”, disse.
Essas medidas costumam apresentar melhores resultados quando a empresa ainda preserva sua capacidade operacional e financeira. “Essas soluções, porém, tendem a funcionar melhor enquanto a empresa ainda possui operação, crédito e capacidade de negociação. Quanto mais cedo o empresário enfrenta o problema, mais alternativas ele tem”, apontou.
Ao final, o advogado reforçou que a adoção antecipada de estratégias de reorganização pode ampliar as chances de superação da crise. “Recuperação é estratégia, e estratégia precisa ser pensada antes de a situação chegar ao limite”, finalizou.
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Fonte: Jornal Opção