Por Luiz Gonzaga Belluzzo — Carta Capital

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Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

As políticas públicas e sociais dos três mandatos do presidente foram impulsionadas por um ambiente democrático

É atribuída a Mahatma Gandhi uma resposta irônica ao jornalista que o questionou sobre a Civilização Ocidental. Gandhi disparou: “Teria sido uma boa ideia”.

Na esteira do Iluminismo e da Revolução Francesa, a dita Civilização, entre dores e contradições, busca sobreviver às muitas agressões dos que proclamam sua defesa. O século XX testemunhou a dura peregrinação da “boa ideia”, sempre atormentada pela tensão permanente entre desejos despóticos dos poderosos e os anseios dos mais frágeis pela autonomia do indivíduo. Autonomia que reivindica a convivência entre singularidade e diferença, ancoradas nas solidariedades da pertinência cívica e republicana.

Diante da admiração internacional e do sucesso doméstico alcançados pelo presidente Lula, corre-se o risco de desconsiderar seu compromisso inarredável com a democracia.

As políticas públicas e sociais dos três mandatos do presidente foram, sim, impulsionadas por um ambiente democrático. Isto ocorreu na contramão do ethos neoliberal imperante no mundo nos últimos anos, que tratou de promover a ética intolerante dos vencedores, aquela que não deixa ao desamparado, ao inferiorizado, senão a alternativa de massacrar a própria autoestima.

“A individualização” do fracasso, inscrita nos pórticos da concorrência desaçaimada, não permite ao derrotado compartilhar com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social. O reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não monetária. E essa retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio a uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo.

Não cuidamos aqui apenas da desigualdade econômica, mas das carências educacionais e culturais que assolam o País. O velho desenvolvimentismo criou uma resistência nos dirigentes brasileiros a cuidar da produção de bens culturais como um fator de progresso econômico e social. Se a memória não me atraiçoa, arrisco dizer que Adorno afirmava que “sem compreensão não há liberdade”.

Cada vez que falam em populismo eu tenho arrepios. Populismo é uma palavra sem conceito. Ela pretende dizer que os “esclarecidos” − entre aspas − votam de maneira racional, não por interesse próprio. Dizem que os desvalidos e os mais pobres estão atacando o orçamento na defesa de seus interesses. Já os especialistas, esses não, eles encarnam a racionalidade. Eliminam a contraposição de interesses e vão jogar Lego com a racionalidade dos bem-nascidos e a irracionalidade do povão .

Desde os anos 70, testemunhei a intensa convivência entre Lula e Democracia. A seu modo exercitava a política como vocação e mediação. Mediação entre os dois sistemas de vida que regulam o equilíbrio das sociedades capitalistas: as necessidades e aspirações dos cidadãos e os interesses que se realizam através do mercado. Nesse jogo de mediação, crucial para a vida moderna e civilizada, deve-se reconhecer a legitimidade dos interesses contrapostos, um exercício permanente dos governos comprometidos com a soberania popular.

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Luiz Inácio e Mahatma Gandhi’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Luiz Gonzaga Belluzzo

Economista e professor, consultor editorial de CartaCapital.

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Fonte: Carta Capital

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