As metamorfoses do malufismo: da promessa de obras à retórica da extrema direita

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Por Alexandre Machado Rosa — Brasil 247

Durante a ditadura militar e nos anos de Nova República, Paulo Salim Maluf se notabilizou por campanhas em que prometia obras, obras e mais obras. Viadutos, avenidas e grandes intervenções urbanas eram apresentados como prova suficiente da capacidade de governar. O eleitor deveria olhar para o concreto e deixar em segundo plano as perguntas sobre prioridades, custos e interesses atendidos. O velho “rouba, mas faz”, embora tenha surgido na política de Adhemar de Barros, encontrou no malufismo uma de suas expressões mais conhecidas.

Hoje, essa lógica parece assumir uma nova forma. Tarcísio de Freitas cultiva a imagem do gestor que resolve tudo com uma carteira de projetos: rodovias, trens, túneis, moradias e concessões. A lista cresce a cada anúncio. Se todas as promessas forem colocadas lado a lado, a impressão é de que seriam necessárias décadas de governo para concluí-las. Enquanto isso, a propaganda transforma projetos, contratos, obras iniciadas e entregas efetivas numa mesma narrativa de realização. Anúncios são fantasiados de conquistas, enquanto o financiamento público fica em segundo plano. Em obras como o Rodoanel Norte, a expansão da Linha 2 do Metrô e o Trem Intercidades, o BNDES participa com bilhões de reais, mas raramente ocupa o centro da fotografia política.

Há uma diferença decisiva nessa versão do malufismo. O capital privado ocupa o centro do discurso. Concessões e parcerias são apresentadas como soluções quase automáticas, como se a entrada de investidores dispensasse perguntas sobre tarifas, benefícios fiscais, fiscalização e custos futuros para a população. São justamente perguntas que exigem transparência. Ao examinar as contas de 2025 do governo paulista, o Tribunal de Contas do Estado as aprovou com ressalvas e apontou a necessidade de fortalecer os controles diante do avanço das concessões e parcerias.

A metamorfose do malufismo aparece, sobretudo, na relação entre o governo e a Faria Lima. Tarcísio anuncia obras em nome do interesse público, mas organiza parte expressiva de sua agenda em torno de concessões e negócios para investidores privados. Na maioria das vezes, com financiamento público. Tarcísio habita esse encontro entre o poder político e o poder financeiro. A transparência nas contas se torna indispensável.
Em 2022, a campanha de Tarcísio recebeu uma doação eleitoral declarada de R$ 2 milhões de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Anos depois, Vorcaro afirmou, numa proposta de delação rejeitada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, que doações às campanhas de Tarcísio e Bolsonaro teriam sido contrapartidas de um acordo indevido. Tarcísio nega a acusação e afirma que sua campanha seguiu a lei. A alegação precisa ser comprovada. Ainda assim, o episódio torna mais urgente uma pergunta que a propaganda das obras procura afastar: quem financia a campanha de Tarcísio, quem recebe as oportunidades de negócio e quem paga a conta?

Fonte: Brasil 247

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