Sobre a “destruição”, a greve geral e os desafios estratégicos após o 17 de outubro

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Por Anasse Kazib — Esquerda Diário

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Enquanto o poder e a mídia instrumentalizam os saques para tentar dividir o movimento e criminalizar a mobilização de 17 de outubro, Anasse Kazib retoma as raízes sociais da revolta e as contradições do movimento. Como superar os limites da espontaneidade, fortalecer a auto-organização e fazer convergir a raiva da juventude e dos trabalhadores para construir uma greve geral?

Eu queria dar a minha opinião sobre a questão da “depredação e dos saques” durante o 17 de outubro, pois é algo que de fato polariza os debates, e penso que não podemos passar por cima dessa discussão.

Há uma verdadeira instrumentalização das imagens de depredação de pequenos comércios por parte do regime, da extrema-direita e das mídias de notícias 24 horas, que conseguiram desviar a atenção da grande crise social e política aberta pelo 17 de outubro, concentrando o debate em torno do quebra-quebra. Lecornu chegou até a tentar usar esses acontecimentos para impor uma retórica reacionária: ou se está com os “depredadores” (casseurs), ou se está com o governo.

Voltarei à questão da depredação do ponto de vista político e estratégico, mas me parece importante entender que estamos lidando aqui com uma tática de comunicação do regime para quebrar a mobilização.

A realidade é que o governo, fora do 17 de outubro, mal se importa com os pequenos comerciantes. Ele defende principalmente os interesses da grande burguesia, e não os dos pequenos comerciantes e artesãos, que também estão sufocados pela inflação, pelos bancos, pelos empréstimos, pelo custo da energia, etc. Eles têm que pagar por tudo, enquanto a grande burguesia capta a maior parte das riquezas e escapa dos impostos.

Se, hoje, o governo faz um grande alarde sobre os pequenos comerciantes, graças às mídias pertencentes aos bilionários Saadé, Bolloré e Arnault, é porque as imagens de comerciantes chorando servem para golpear o movimento e tentar enfraquecê-lo. É uma dinâmica que também existe nas greves, com os “malditos grevistas privilegiados” que impedem a pobre faxineira de meio período de pegar seu ônibus ou RER (trem urbano). Tivemos a mesma coisa com os Coletes Amarelos, acusados de impedir a abertura dos comércios sábado após sábado por causa da mobilização.

O pequeno comerciante atacado é, na realidade, a árvore que serve para esconder a floresta capitalista, que gera as desigualdades sociais, a exploração e a miséria.

Primeiro, é preciso dizer que os 1.500 comércios atacados em toda a França representam 0,5% dos comércios do país, e que a maioria dos estabelecimentos alvejados pertence a grandes grupos de luxo, marcenaria/artigos de couro ou artigos esportivos. Mas, para esconder a Céline, a Guerlain e a Louis Vuitton, usam o comerciante da Lyca Mobile e a farmácia da esquina…

Depois, é preciso lembrar a todos aqueles que se chocam com o fato de objetos que não são de “primeira necessidade” serem roubados, que essas são marcas que fazem muitos jovens sonharem — jovens que as vêm diariamente sendo usadas por seus jogadores, cantores ou influenciadores favoritos, mas às quais não têm acesso. Alain Bertho fala sobre esse tipo de ação como “revolta da vida cara”.

Desde ontem, venho conversando com meus colegas de trabalho e entendo que alguns possam se sentir incomodados ou chocados com as imagens de pequenos comércios e tentados a seguir a mídia na dissociação entre essas ações e o movimento de 17 de outubro ou o movimento estudantil. Podemos até discutir que determinado ato, por exemplo contra pequenas lojas, pode ser contraproducente simbolicamente e explorado pela mídia. Mas penso que devemos recusar totalmente cair na armadilha armada pela imprensa.

Essas cenas são a expressão de uma raiva contra um sistema; elas são profundamente políticas. Setores inteiros da juventude vêm se mobilizando há três semanas e já eram tratados como “delinquentes” quando bloqueavam seus colégios. No 17 de outubro, houve saques para pegar coisas nas lojas dos ricos, mas os confrontos foram também, e antes de tudo, orientados pela recusa em ser reprimidos e sufocados pelo aparato policial, como na Praça da República, ou pela vontade de “ir ao Palácio do Eliseu”, como no momento do movimento dos Coletes Amarelos.

A radicalidade que se expressa está à altura da dor vivida por uma grande parte da juventude, a quem se promete um futuro de precarização, racismo e guerras. Quando essa raiva explode, ela toma múltiplas formas. E quando essas formas expõem a violência do sistema capitalista, a mídia e o governo querem que olhemos apenas para a destruição. Devemos recusar isso.

Para mim, o 17 de outubro deveria deixar otimistas todos aqueles e aquelas que lutam por uma outra sociedade, porque esse dia histórico mostrou a força do nosso lado. A questão agora é qual estratégia adotar para avançar na relação de forças. Como marxista, conheço os limites da espontaneidade e da radicalidade. Se elas não buscarem se estruturar e arrastar atrás de si o conjunto da nossa classe, podem acabar se esgotando por si mesmas, ser esmagadas pela repressão ou até mesmo afastar uma parte daqueles que poderiam apoiar o movimento.

O governo estava em dificuldade com o movimento estudantil, no qual a repressão tinha servido para solidarizar três quartos da população contra ele. Agora, ele tentará explorar a situação para virar a relação de forças e tomar a iniciativa por meio de um endurecimento autoritário. Para enfrentar essa situação, é preciso que toda a raiva que explodiu no 17 de outubro se organize e se dote de uma estratégia. E estou convencido de que os métodos do movimento operário, por meio da greve geral e da auto-organização do proletariado, continuam sendo decisivos hoje.

A atração pela revolta/motim hoje é fruto das fraquezas do movimento operário, que não consegue convencer sobre a eficácia da greve como método para vencer há 10 anos, notadamente por causa das derrotas nas últimas mobilizações e das estratégias de jornadas isoladas. Não devemos esconder isso. O problema é que a lógica da ação direta subestima a importância política da greve geral, sua capacidade de golpear o sistema no seu coração, mas também de fazer emergir um poder independente do Estado, pela organização dos trabalhadores e dos jovens em assembleias e pela retomada do controle sobre suas ferramentas de trabalho ou seus estabelecimentos de ensino.

Vemos, nas primeiras audiências de custódia e julgamentos sumários, que entre os que foram presos, a esmagadora maioria é composta por jovens estudantes, manifestantes que saem às ruas pela primeira vez, ou jovens trabalhadores do setor privado. Há uma verdadeira politização contra o sistema nessa juventude e uma revolta imensa. É preciso oferecer a eles saídas estratégicas à altura de sua radicalidade, mas que permitam vencer e derrubar esse sistema.

A situação é contraditória. Por um lado, o governo foi enormemente fragilizado pelo 17 de outubro, como mostra a proposta de renúncia de Nuñez. Por outro lado, sem uma perspectiva imediata para os próximos dias, o Estado buscará avançar na repressão policial e judicial, nos toques de recolher, e a extrema-direita se aproveitará para se reposicionar. É preciso, portanto, recusar o jogo de “condenações” imposto pelo sistema — que acabará ajudando o poder a retomar o controle —, mas também preparar os próximos passos, pois Macron está em grandes dificuldades.

É preciso tirar uma lição do 17 de outubro: não se voltar contra uma parte do movimento, mas fortalecer os elementos de organização pela base, de preparação dos próximos passos, de extensão da revolta ao movimento operário para construir uma greve geral no país. O Maio de 68 foi muito violento, especialmente na noite das barricadas de 10 para 11 de maio. Foi três dias após essa noite de confrontos no Quartier Latin que a greve geral começou no país, em 13 de maio, engajando mais de sete milhões de trabalhadores no rastro da luta estudantil.

Há uma oportunidade enorme para o movimento operário. Ele pode oferecer uma saída estrutural para esse problema de privações, de escassez e do custo de vida que sentimos. Produzimos, transformamos e transportamos todas essas mercadorias com o suor do nosso rosto para, no final das contas, faltar de tudo no fim do mês.

É preciso dar um fim a essa aberração e assumirmos nós mesmos o controle sobre a produção; produzimos mais do que o suficiente para satisfazer as necessidades de todos e para que os jovens das classes populares não tenham que arriscar a prisão para finalmente ter em mãos os objetos que lhes são exibidos o dia todo. O primeiro passo para isso é criar uma relação de forças no coração da produção, apoiando-nos na raiva que se expressa atualmente para construir uma greve em todo o país.

É preciso verdadeiramente se inspirar no Maio de 68: é uma escola histórica para mudar o jogo hoje.

Fonte: Esquerda Diário

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