Cuba, a ameaça que nunca existiu: a quem beneficia a narrativa da intimidação

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Por Raúl Antonio Capote — Brasil de Fato

Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

Mestre em Relações Internacionais e História Contemporânea, escritor e jornalista do Granma Internacional. Também é professor de História de Cuba da Universidade de Ciências Pedagógicas de Havana, foi durante anos o agente Daniel dos serviços de inteligência cubana. O jornalista é autor de vários artigos e dos livros “El caballero ilustrado” (novela), “Juego de Iluminaciones” (contos), “El adversario” (novela) e “Enemigo” (testemunho), também publicado no Brasil com o título “Inimigo: A guerra da CIA contra a juventude cubana”.

Quando um alto funcionário do governo dos Estados Unidos redige um documento, faz uma declaração em sites oficiais, publica uma mensagem em suas redes sociais ou se apresenta perante o Congresso e afirma que Cuba representa uma ameaça à Segurança Nacional de seu país, ele está distorcendo a verdade.

Porque a história não mente: o registro das ações da nação do norte existe, está desclassificado e disponível para quem quiser consultá-lo, e esses arquivos mostram, com a precisão de um bisturi, o rosto do culpado.

Os fatos são incontestáveis: foi o governo de Washington que nunca reconheceu a República em Armas; foram eles que perseguiram as expedições patriotas com armas e suprimentos indispensáveis para a guerra de libertação contra a Espanha; depois, interveio e ocupou a ilha, manu militari, roubando a vitória dos cubanos.

Foi a Casa Branca que impôs a Emenda Platt à ponta da baioneta em 1898, transformando Cuba em um protetorado; foi o Exército dos EUA que interveio várias vezes e impôs, por meio da política das canhoneiras, sua vontade e domínio até a vitória revolucionária de 1959.

Lembremos como apoiaram os ditadores Gerardo Machado e Fulgêncio Batista, responsáveis por milhares de mortes, para preservar seus interesses na Maior das Antilhas; assessoraram as forças de segurança e criaram órgãos repressivos como o Departamento para a Repressão das Atividades Comunistas (BRAC) na década de 1950 do século passado.

Também não se pode esquecer que, em 1960, Eisenhower aprovou um plano secreto da CIA para derrubar a Revolução nascente e que, em 1961, mercenários treinados pela Agência invadiram Cuba e foram derrotados em Playa Girón em apenas 72 horas pelas milícias populares.

Quem organizou, financiou e treinou, durante a década de 1960, os grupos de rebeldes no Escambray e em outras regiões da ilha, responsáveis por semear o terror e cometer crimes atrozes?

Nunca cessaram em sua tentativa de derrotar a Revolução e tomar posse da ilha, desde a Operação Mangosta — que incluiu sabotagens econômicas e atentados — até as mais de 600 tentativas de assassinato documentadas contra o Comandante-Chefe Fidel Castro Ruz, o que totaliza quase um atentado a cada duas semanas durante três décadas.

A escalada atingiu seus extremos mais perversos em 1962 com a Operação Northwoods, quando o Estado-Maior Conjunto dos EUA propôs atacar civis norte-americanos e culpar Cuba para justificar uma invasão.

O padrão se repete década após década: o abate do avião da Cubana de Aviação em 1976, que custou vidas inocentes, enquanto seu mentor, Luis Posada Carriles, morria anos depois em liberdade e sob proteção em Miami. As bombas em hotéis de Havana, em 1997, que assassinaram o turista italiano Fabio Di Celmo, apenas para citar dois exemplos, pois mais de 3.000 vítimas clamam por justiça.

A aprovação da Lei Helms-Burton, que codificou um bloqueio que já dura mais de 60 anos, e as sucessivas ampliações, intensificações e aperfeiçoamentos dos mecanismos de cerco econômico, comercial e financeiro.
O financiamento contínuo a meios de comunicação subversivos por meio da NED, da USAID, da FUPAD e de outras ONGs e OSCs a serviço da política de mudança de regime contra a Ilha.

Fica além da compreensão humana a guerra bacteriológica que afetou as culturas, os processos produtivos e, diretamente, a vida humana; casos como a introdução da peste suína africana, em 1971, que exterminou 40% do rebanho suíno do país, ou a epidemia de dengue hemorrágica, que afetou 350 mil pessoas e causou 158 mortes, sendo 101 delas crianças, em 1981.

Quem é, então, a ameaça? Quem armou as armadilhas no caminho?

O que aconteceu em 2026 ilustra melhor do que qualquer discurso a situação; agora, a estratégia de cerco se intensificou com um bloqueio energético total.

Como se não bastasse, relembrando a época do “Grande Garrote”, eles adornam as ameaças e pressões com a possível presença de um “porta-aviões a 100 jardas” da costa; no entanto, as declarações do governo dos Estados Unidos invertem perigosamente a realidade: o agressor histórico se disfarça de vítima.

Devemos nos perguntar: a quem beneficia essa narrativa? A resposta é clara. A construção artificial de Cuba como uma “ameaça” não é um erro de percepção, mas sim um pretexto funcional.

Em primeiro lugar, ela justifica o bloqueio; em segundo lugar, prepara o terreno para uma possível escalada militar, desgastando psicologicamente a opinião pública norte-americana e mundial; em terceiro lugar, desvia o foco do fracasso retumbante de 60 anos de política de mudança de regime; e, finalmente, serve como um mecanismo eficaz para influenciar o voto no sul da Flórida, onde uma minoria recalcitrante sequestra a política externa.

Agora, em um mundo convulso, marcado por guerras assimétricas e pelo domínio de estratégias que semeiam a discórdia, a clareza conceitual é o primeiro passo para a vitória; e a vitória, como demonstramos ao longo de mais de seis décadas, será novamente do povo que prefere morrer de pé a viver de joelhos.

1959-1960: Primeiros ataques a partir do território dos Estados Unidos

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

*Fontes: Granma, La Jiribilla, Razones de Cuba, Cubadebate, Revista Cubana de Tecnologia da Saúde, Journal of NBC Protection Corps, Relatório final do Comitê Church ao Senado dos EUA sobre supostas conspirações de assassinato (1975), GlobalSecurity.org (Compilação de ações terroristas 1990-2000)

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Fonte: Brasil de Fato

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