Percepção de vitória no palanque, prejuízo e retrocesso no campo
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Promessas e consequências
A promessa de eliminar restrições ambientais pode soar como uma vitória para quem produz. Mas deveria ser uma expectativa do setor que um candidato à Presidência anuncie liberdade para proprietários fazerem o que quiserem em suas terras? Uma declaração nesse sentido, feita em 19 de outubro, no Pará, merece ser examinada por suas consequências econômicas. O benefício sugerido no palanque pode se transformar em prejuízo para o próprio agro.
Lidero uma equipe de mais de 50 especialistas em soluções para a natureza e sistemas agroalimentares, com atuação em dez países e cinco regiões, grande parte baseada na Europa. Esse trabalho me mantém em contato frequente com grandes investidores, organizações filantrópicas e investidores governamentais, sobretudo europeus.
Nessas conversas, percebo que muitas vezes falta compreensão sobre a agricultura tropical brasileira, seus sistemas de produção de alimentos e o potencial da bioenergia. Há espaço para explicar melhor nossas particularidades e enfrentar exigências que desconsiderem essa realidade. Ao mesmo tempo, oportunidades dependem da confiança na continuidade das políticas públicas, no cumprimento de contratos e em compromissos que ultrapassem uma gestão.
Investidores e compradores buscam padrões ambientais compatíveis com suas exigências de conformidade, governança e prestação de contas, além de princípios éticos e científicos. Adaptação climática e resiliência integram essa avaliação. Em determinados mercados, qualidade e rastreabilidade podem justificar um prêmio. Capturá-lo exige projetos duradouros e acesso a mercados atrativos.
O acordo entre Mercosul e União Europeia ilustra essa construção. Após o entendimento comercial de 2019, negociações adicionais só foram concluídas politicamente em dezembro de 2024. A desconfiança sobre a política ambiental brasileira e as cadeias agropecuárias foi um obstáculo importante, ao lado das resistências comerciais e políticas europeias. Novos compromissos ajudaram a recuperar a credibilidade e avançar numa negociação iniciada em 1999.
O valor dos mercados conquistados
Em 2025, a União Europeia comprou US$ 25,2 bilhões do agronegócio brasileiro, equivalentes a 14,9% das exportações do setor. Segundo a CNA, 39% das linhas tarifárias agropecuárias terão liberalização imediata no primeiro ano do acordo.
A aplicação provisória começou em 1º de maio de 2026. Entre maio e setembro, já após seu início, as exportações brasileiras totais para o bloco cresceram cerca de 30% ante o mesmo período de 2025, segundo o ministro do Desenvolvimento.
Em julho, as vendas somaram US$ 4,78 bilhões, alta anual de 3,9%; em agosto, US$ 5,824 bilhões, avanço de 46,4%; em setembro, US$ 6,95 bilhões, crescimento de 60,1%. Os números abrangem todos os setores e não isolam o efeito do acordo ou da confiança. Mostram, porém, a importância dessa relação comercial.
O agro ganha com redução de tarifas e acesso preferencial, conforme cotas e cronogramas específicos:
Cotas e Cronogramas
Reversões abruptas de regras, inclusive as ambientais, podem adiar investimentos, deslocar compradores e reforçar resistências às exportações brasileiras. O produtor que cumpre as regras também paga pelo desgaste da reputação nacional. É preciso reduzir a burocracia com critérios claros, capacidade técnica e prazos previsíveis. Prometer eliminar restrições em nome do setor pode enfraquecer a segurança de que ele precisa.
Uma agenda para a prosperidade do agro
Defendo uma estratégia para sustentar crescimento de pelo menos 3% ao ano e aspirar a taxas entre 5% e 5,5% a partir de 2030. Essa ambição depende de produtividade, investimento e estabilidade macroeconômica e institucional; não resulta automaticamente do acordo.
As oportunidades incluem biocombustíveis, combustíveis marítimos de baixo carbono, combustível sustentável de aviação, sistemas agroalimentares regenerativos, bioeconomia e biotecnologia. Agregar conhecimento e processamento à produção, diversificando mercados entre Europa, China e Estados Unidos, pode ampliar o valor capturado pelo Brasil.
Também precisamos reduzir vulnerabilidades: importamos cerca de 85% dos fertilizantes utilizados, segundo o Ministério da Agricultura. Produção nacional competitiva, bioinsumos e eficiência no uso de nutrientes merecem prioridade para diminuir a exposição a conflitos e interrupções de abastecimento.
Num mundo que busca segurança alimentar, energética e climática, defender o agro exige preservar a confiança e ampliar suas oportunidades. Promessas eleitoreiras podem até oferecer uma sensação de vitória imediata, mas deixam perdas duradouras. A prosperidade de quem produz depende de regras estáveis e compromissos que sobrevivam às eleições.
Sobre a autora
Patricia Ellen é presidente da Systemiq na América Latina e ex-Secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo; especialista em transformação de sistemas agroalimentares, energéticos e tecnológicos em cadeias produtivas e economias emergentes
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Fonte: umsoplaneta