Presidência indiana do BRICS impulsiona o apelo do Sul Global pelo “fim das guerras sem fim”
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – A Índia conduzirá neste fim de semana, em Nova Déli, a 18ª Cúpula do BRICS com a proposta de transformar os efeitos das guerras sobre o Sul Global em pressão coordenada por diálogo, cessação das hostilidades e soluções econômicas comuns. O encontro reunirá dirigentes de países envolvidos diretamente nos conflitos e governos que procuram preservar relações tanto com o Ocidente quanto com Rússia, China e Irã.
Uma análise publicada pelo portal Economic Times, com base em reportagem da agência ANI, aponta que a presidência indiana terá de conciliar posições divergentes sobre Ucrânia, Irã, Gaza e segurança das rotas marítimas. O resultado das negociações será medido pela capacidade do bloco de aprovar a Declaração de Déli por consenso.
A cúpula será realizada sob o tema “Construindo para resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”. A formulação pretende direcionar os debates para as consequências concretas dos conflitos, especialmente a insegurança energética e alimentar, as dificuldades no fornecimento de fertilizantes, a inflação e o aumento da dívida soberana.
O vice-presidente de Estudos e Política Externa da Observer Research Foundation, Harsh V. Pant, afirmou à ANI que as economias em desenvolvimento estão entre as mais atingidas pelas guerras, embora continuem com influência limitada sobre as decisões internacionais.
“Os conflitos em curso na Ásia Ocidental e na Ucrânia afetaram o mundo em desenvolvimento de forma muito grave”, declarou Pant. Para ele, o BRICS pode ampliar a presença política de países que não encontram espaço suficiente nas estruturas tradicionais da governança global.
O desafio será transformar essa insatisfação compartilhada em uma posição comum. O BRICS reúne dez integrantes com interesses econômicos, alianças diplomáticas e percepções de segurança distintas. Essas diferenças se tornam mais evidentes quando o grupo tenta se posicionar sobre guerras que envolvem alguns de seus próprios membros.
Das guerras intermináveis ao fim das guerras
A Índia pretende apresentar a defesa da paz como eixo político de sua presidência. O primeiro-ministro Narendra Modi já declarou ao presidente da Rússia Vladimir Putin que “este não é o momento para a guerra”. Mais recentemente, sustentou que o mundo precisa passar “das guerras intermináveis ao fim das guerras”.
A formulação busca associar a posição diplomática indiana às prioridades do Sul Global. Para Nova Déli, as guerras não constituem apenas crises de segurança: elas interrompem rotas comerciais, elevam os preços da energia e dos alimentos, comprometem o fornecimento de insumos agrícolas e pressionam as contas públicas dos países mais vulneráveis.
“A Índia sempre sustentou que sua posição permanece favorável à paz”, afirmou Pant. “A Índia reconhece o desafio que esses conflitos trazem para o mundo em desenvolvimento e, por isso, mantém que o diálogo é a única maneira de resolvê-los.”
O ministro das Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, visitou Rússia e Ucrânia e reiterou a disposição de Nova Déli para contribuir com propostas destinadas a interromper as hostilidades. O governo indiano mantém canais de comunicação com Moscou e Kiev, além de relações políticas com Washington, Bruxelas, Teerã e países árabes.
Modi também se reuniu com Putin e com o presidente do Irã Masoud Pezeshkian durante a cúpula da Organização para Cooperação de Xangai, realizada em Bishkek. Na conversa com Pezeshkian, o primeiro-ministro indiano manifestou preocupação com a escalada na Ásia Ocidental e defendeu diálogo imediato, proteção aos civis e segurança para navios comerciais e trabalhadores marítimos.
No encontro com Putin, Modi discutiu as relações bilaterais e os caminhos para uma solução do conflito na região do Mar Negro. O governo indiano voltou a defender negociações diplomáticas como alternativa para a interrupção dos confrontos.
A presença de Putin e Pezeshkian em Nova Déli amplia o peso político da cúpula. Ambos comandam países diretamente relacionados às principais zonas de conflito e submetidos a sanções ocidentais. A participação dos dois poderá abrir espaço para conversas bilaterais sobre cessar-fogo, segurança das rotas comerciais e estabilidade regional.
Divisões desafiam a presidência indiana
A tentativa de construir uma mensagem conjunta enfrenta diferenças internas relevantes. Rússia e Irã estão diretamente envolvidos em conflitos e rejeitam as sanções impostas pelo Ocidente. Emirados Árabes Unidos e Egito, por outro lado, preservam amplas parcerias financeiras, militares e diplomáticas com governos ocidentais.
A Arábia Saudita mantém uma participação cautelosa, orientada pela tentativa de equilibrar suas alianças com Estados Unidos, China, Rússia e países da região. Índia, Brasil, África do Sul e Indonésia também procuram preservar autonomia estratégica, sem aderir automaticamente às posições de nenhum dos polos.
As divergências ficaram expostas na reunião dos ministros das Relações Exteriores do Brics realizada em Nova Déli, em maio. O documento do encontro reconheceu que havia “opiniões divergentes entre alguns membros” sobre a situação na Ásia Ocidental e registrou que os países apresentaram suas respectivas posições nacionais.
As tensões entre Irã e Emirados Árabes Unidos contribuíram para impedir a aprovação de uma declaração conjunta pelos chanceleres, segundo Pant. “Há preocupações de que isso possa afetar novamente uma declaração conjunta. Isso testará a capacidade diplomática da Índia”, afirmou.
Os representantes dos integrantes do bloco, conhecidos como sherpas, passaram os últimos meses negociando uma formulação equilibrada para a Declaração de Déli. A Índia tenta evitar que os desacordos transformem a reunião em um confronto diplomático entre posições nacionais incompatíveis.
Ucrânia, Irã e Gaza
As declarações anteriores do BRICS reafirmaram os princípios da Carta das Nações Unidas e manifestaram apoio a iniciativas diplomáticas voltadas para o fim da guerra na Ucrânia.
O bloco reconheceu a Iniciativa Africana de Paz, lançada em 2023 por dirigentes do continente que mantiveram contatos diretos com Moscou e Kiev. A proposta apresentou medidas para criar confiança entre as partes e preparar possíveis negociações.
O BRICS também apoiou o Grupo de Amigos pela Paz, criado nas Nações Unidas em setembro de 2024. A iniciativa defende o respeito à Carta da ONU, a contenção das hostilidades, a redução dos efeitos das sanções unilaterais sobre os países em desenvolvimento e a ampliação de esforços de mediação conduzidos por nações não ocidentais.
As divergências sobre o Irã são mais profundas. Em 2025, o BRICS condenou ataques militares contra o país e manifestou preocupação com ações contra instalações nucleares pacíficas submetidas às salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica.
Em 2026, Brasil, China e Rússia condenaram os ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o território iraniano. Índia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, por sua vez, criticaram os mísseis disparados pelo Irã contra bases no Golfo. As posições impediram uma resposta uniforme do grupo.
Sobre Gaza, os chanceleres condenaram as operações militares, as mortes de civis, o deslocamento forçado da população e o uso da fome como método de guerra. O bloco defendeu um cessar-fogo imediato, permanente e incondicional, a libertação de reféns e detidos ilegalmente e o acesso irrestrito à ajuda humanitária.
Os integrantes reiteraram o apoio à entrada plena da Palestina na ONU e à criação de um Estado palestino soberano nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Oriental como capital. A posição considera a solução de dois Estados o caminho para israelenses e palestinos viverem em paz e segurança.
Em relação ao Líbano, o BRICS cobrou o cumprimento da Resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, a retirada de Israel do sul do país e a proteção dos integrantes da Força Interina das Nações Unidas no Líbano.
O grupo também defende a liberdade de navegação e a segurança do transporte comercial no Mar Vermelho, no estreito de Bab el-Mandeb, no estreito de Ormuz e no Mar Negro.
Agenda econômica do Sul Global
As consequências econômicas das guerras atingem os integrantes do BRICS de maneiras diferentes. Os importadores de energia enfrentam inflação e aumento dos custos de transporte. Os exportadores de petróleo e gás experimentam efeitos fiscais distintos, enquanto interrupções marítimas e restrições ao comércio de grãos afetam a segurança alimentar.
A presidência indiana tentará concentrar parte das negociações em medidas capazes de proteger os países dessas oscilações. A agenda inclui pagamentos em moedas locais, diversificação das cadeias de suprimento, infraestrutura pública digital, desenvolvimento centrado nas pessoas e reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Documentos anteriores indicam que o bloco consegue alcançar consenso quando prioriza princípios mais amplos. A Declaração de Kazan, aprovada em 2024, defendeu a reforma da governança internacional e a resolução pacífica dos conflitos por meio do diálogo e da diplomacia.
A Declaração do Rio de Janeiro, de 2025, reafirmou o compromisso dos integrantes com a Carta da ONU e a cooperação multilateral. O documento dos chanceleres aprovado em maio de 2026 também reconheceu a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar como referência para os direitos de navegação no Mar Vermelho e no estreito de Ormuz.
Para Pant, o BRICS poderá apresentar uma alternativa em um momento de paralisia das instituições multilaterais tradicionais. “Muitos países sentem que suas vozes não são ouvidas em outras plataformas multilaterais, e o BRICS pode amplificar suas preocupações e suas vozes”, declarou.
A Declaração de Déli mostrará se a presidência indiana conseguiu converter o apelo pelo fim das guerras em uma posição coletiva. O documento também indicará se o Brics ampliado pode conciliar seus interesses nacionais e oferecer respostas comuns aos efeitos econômicos e humanitários dos conflitos sobre o Sul Global.
Fonte: Brasil 247