Nos sonhos de Davi Kopenawa, visões da alma e das lutas do ‘tio Raoni’
Por Flavia Coimbra — SUMAÚMA
Uma pausa para desesquecer que esquece do milagre
Qual o remédio para quem tem febre de exploração?
Qual o médico que trata a dor de desmatamento?
Quem pega urbanização sente o quê?
Depois de ‘mandar à merda esta vida de merda’, o autor de ‘Macunaíma’ navegou os rios Amazonas e Madeira ‘até dizer chega’. No diário de viagem transformado em livro, o sentimento transborda e a Natureza arrebata
Davi Kopenawa: ‘Então eu sonhei [com] esse grande guerreiro Raoni. Ele é uma bandeira, é estaca’. Junho de 2026. Foto: Bruno Kelly/SUMAÚMA
Xamã do povo Yanomami relembra convívio com cacique Kayapó e diz que batalhas em defesa da Floresta continuam
Eu vou falar sobre tio Raoni, eu chamo tio, porque ele é pata [grande liderança].
Eu comecei a lutar aqui junto com os Macuxi e os Wapichana, em Roraima. Eu aprendi muito com eles. Depois aconteceu a luta pela Terra Yanomami, e eu conheci a Claudia Andujar [fotógrafa; cofundadora da Comissão Pró-Yanomami]. Naquele tempo estava muito, muito ruim o lado do meu povo Yanomami. Do meu povo Yanomami e de todos os povos, Kayapó, Xavante e outros.
Eu sou Yanomami da Amazônia, Yanomami do Brasil. Eu conheci o tio Raoni, eu não sabia o que ele estava aventando. Ele já tinha lutado contra os fazendeiros, contra os invasores da sua terra. Então eu fui [para Brasília, durante a Constituinte]. Conheci o Marcos Terena e também encontrei o senhor Ailton Krenak, muitos parentes que vieram para defender o nosso direito. Eu conheci Mário Juruna, que naquele tempo era deputado, que os brancos inventaram para ser deputado federal. Ele também não entendia tudo, mas os brancos tentaram para [ele] aprender a fala do político, o português.
Então eu encontrei o tio Raoni em 1988. Nós estávamos com muito problema, muita gente que estava derrubando a floresta, tocando fogo, matando milhares e milhares de árvores. Raoni era um guerreiro. Guerreiro de verdade. Não é mentira. Ele nasceu como guerreiro para defender o nosso direito. Ele nunca defendeu o direito do político. Nós somos políticos também, fazemos a política do povo originário, em nossa língua própria.
Aí eu perguntei ao Ailton: “Esse parente que está com cocar, tem esse negócio de botoque na boca. Será que é tabaco?”. “Não, isso não é tabaco, não. Isso aí é costume, a cultura tradicional dele. É uma bandeira dele, bandeira de falar, de brigar, lutar contra invasores, contra políticos, os deputados, senadores e outros que estão querendo estragar a nossa Floresta Amazônica.”
Aí eu fiquei olhando para ele, eu conheci a alma dele. Aí eu lembrei que quando era pequeno eu sonhava com outros parentes. Então eu sonhei [com] esse grande guerreiro Raoni. Ele é uma bandeira, é estaca. Nós somos guerreiros. Então eu fui aproximando, ele não falava muito, ele conhecia de mim também, mas ele estava assim, olhando para mim, eu olhando para ele também, e outras lideranças, os guerreiros que eu conhecia, amigo dele, irmão dele, e outras na Câmara dos Deputados.
Eu voltei para casa pensando nele, um dia eu vou conversar com ele, se ele estiver assim, em folga, tranquilo, mas eu não vou atrapalhar. Mas ele vai me ensinar como ele aprendeu a defender o direito à nossa cultura, cultura da terra, cultura da floresta, cultura do espiritual, cultura da montanha, cultura da água.
Raoni (no centro), Kopenawa (segundo da dir. para a esq.) e outras lideranças que atenderam ao chamado do cacique na Terra Indígena Capoto/Jarina. Julho de 2023. Foto: Kamikia Kisedje/Amazônia Real
Ele é reconhecido aqui no Brasil e também fora. Fiquei muito, muito contente. Que bom, nós temos Indígena originalmente, que fala a própria língua, que tem a raiz, que nunca abandonou a nossa língua própria, língua própria do Kayapó. Então, Omama [o criador dos Yanomami] deixou a força para ele, força para ele e força para mim. E assim eu fui participando.
Eu estava com vontade de aprender com ele. Eu não estava preparado, mas ele me preparou. Ele não me deu aula, mas ele deu aula assim mostrando como fala com o homem branco.
Então eu fui convidado para ir à própria terra dele, em Altamira. Muita gente que estava junto, escutando, interessando, gostando da luta. E realmente nós, Indígenas do Brasil, é que amamos a nossa terra, que cuidamos. A terra cuida de nós, a floresta cuida de nós, dá comida, fruta, banana, açaí, buriti, castanha, peixe, água limpa.
Então Raoni está certo, um papel da liderança muito bom, muito forte. Então eu queria ser assim. Eu fui a Altamira, fiquei lá e encontrei muita gente. Paulinho Paiakan estava lá. Os guerreiros estavam lá também. Estavam juntos. E eu encontrei uma mulher Kayapó chamada Tuire. Tuire era muito revoltada com a hidrelétrica, a barragem. Estavam querendo fazer uma barragem, mas ninguém deixou. Aí ela se pintou, todo mundo pintado, ela pegou um terçado [um tipo de facão] e ficou olhando para ele [José Antonio Muniz Lopes, coordenador-geral da presidência da Eletronorte em 1989, que na época construiria a hidrelétrica de Kararaô, que anos depois virou Belo Monte]. Kayapó são valentes. Aí ela fez assim, bateu [faz o gesto]: esta aqui é lâmina que mata, que corta e sai sangue. E é assim que eu queria mostrar, essa é a coragem da mulher Kayapó.
Então, para concluir, tio Raoni continua. Ele já trabalhou muito. Eles deixaram o neto crescer. Eles ensinaram o neto para ficar no lugar dele. Ele também defendeu o direito do povo Yanomami. Ele nunca chegou [na Terra Yanomami], mas o pessoal dele chegou para ajudar a expulsar os garimpeiros ilegais.
Ele não só defendeu o lugar dele não, ele também ajudou a defender o meu povo Yanomami e Ye’kwana. Lutamos sobre a demarcação. Naquele tempo era muito difícil, muita gente não queria a homologação da Terra Yanomami, nem [a da] dele também. Eles só queriam dar um pedacinho, só queriam dar ilha, como se [fosse] casa de boi, ou casa de porco, ou de frango, como se cria. Assim que eles queriam. Mas nós não queríamos, não aceitamos.
Então ele lutou de longe, falou o nome do povo Yanomami. O governo brasileiro tem que entender e sonhar e tirar garimpeiro, depois homologar a Terra Yanomami. A luta continua. Eu vou continuar também. Se eles [brancos] acabarem com a nossa floresta, ele [branco] vai acabar. O que eles estão querendo? Tirar o subsolo. O índio não vai morrer sozinho. Quem maltratou, quem deixou a doença… a Natureza, ela vai se vingar com os nossos inimigos.
Davi Kopenawa Yanomami, xamã e sonhador, é a mais conhecida liderança do povo Yanomami. Presidente e fundador da Hutukara Associação Yanomami, foi um dos principais responsáveis pela demarcação da Terra Indígena Yanomami, em 1992. Tradutor de mundos, leva ao universo dos não Indígenas o que ouve dos xapiri (espíritos auxiliares dos xamãs). Recebeu o prêmio ambiental Global 500 da ONU (1988), foi condecorado com a Ordem do Mérito do Ministério da Cultura (2009) e com o Right Livelihood, conhecido como o “Nobel Alternativo” (2019). É coautor, com o antropólogo francês Bruce Albert, de A Queda do Céu – Palavras de um Xamã Yanomami e O Espírito da Floresta, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras.
Reportagem e texto: Davi Kopenawa Yanomami em depoimento à jornalista Claudia Antunes
Edição: Fernanda da Escóssia
Edição de arte: Cacao Sousa
Edição de fotografia: Lela Beltrão
Checagem: Plínio Lopes
Revisão ortográfica (português): Valquíria Della Pozza
Tradução para o castelhano: Julieta Sueldo Boedo
Tradução para o inglês: Diane Whitty
Edição em inglês: Jonathan Watts
Montagem de página e acabamento: Flávia Coimbra
Coordenação de fluxo editorial: Viviane Zandonadi
Editora-chefa: Talita Bedinelli
Diretora de redação: Eliane Brum
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Fonte: SUMAÚMA
