João Campos confia em Lula e na tradição familiar para superar seu maior desafio eleitoral
Por Maria Eduarda Portela — JOTA
João Campos (PSB) deixou a Prefeitura do Recife em maio deste ano e se apresentou para a disputa ao governo de Pernambuco como um dos principais nomes da nova geração da centro-esquerda, um provável sucessor do presidente Lula (PT) em um futuro não muito distante. Líder isolado nas pesquisas naquela altura, o projeto estava traçado: se tornar governador e, assim, se cacifar para a sucessão do petista em 2030. No meio do caminho, porém, havia uma pedra chamada Raquel Lyra (PSD).
Em alguns dos mais recentes levantamentos, Campos foi superado por Raquel, que concorre à reeleição. Segundo a Genial/Quaest divulgada na última terça-feira (8/9), ela tem 43% contra 37% do ex-prefeito. Já conforme a pesquisa Datafolha de sexta-feira (12/9), a governadora tem 47%, enquanto ele pontua com 42%. A disputa muito acirrada impregnou a campanha de acusações vindas de ambos os lados.
Assim, após uma série de eleições relativamente tranquilas para o Legislativo e o Executivo municipal, o desafio que agora se coloca para o herdeiro político de um dos mais importantes clãs do Nordeste é grande. Aos 32 anos, João Henrique Campos terá de resgatar toda sua tradição familiar e confiar na força de Lula para vencer Raquel Lira.
Família
“Eu vou fazer o que o meu pai não pôde. O que ele não teve a oportunidade. Chegar onde ele não conseguiu”, disse João Campos ao oficializar candidatura ao governo de Pernambuco.
O ex-prefeito do Recife é filho de Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco, e Renata Campos. Eduardo morreu em 2014 durante a campanha presidencial. João é neto de Ana Arraes, ex-deputada federal e ex-ministra do Tribunal de Contas da União (TCU).
Ele é bisneto de Miguel Arraes (191-2005), que foi governador de Pernambuco por três mandatos, além de prefeito do Recife, deputado estadual e federal. Seu bisavô é tido como um dos principais nomes na história da esquerda brasileira.
Entrada na política
João Campos se formou em engenharia civil pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mas entrou na política antes mesmo de concluir a graduação. Em 2014, participou da militância do PSB e, dois anos depois, assumiu a chefia de gabinete do então governador Paulo Câmara (PSB), seguindo a trajetória do pai, que foi chefe de gabinete no segundo governo Miguel Arraes.
“Foi na chefia de gabinete de doutor Arraes que Eduardo teve sua primeira função pública de destaque. Ser filho de Eduardo e bisneto de Arraes não é algo que me acomoda, mas me inquieta, me faz querer ir além, ser incansável na luta por igualdade e justiça para o povo”, relembrou João Campos quando assumiu o cargo.
Seguindo os passos da família, o objetivo seguinte de João Campos era chegar até Brasília, mais especificamente, à Câmara dos Deputados. O iniciante na vida política tentava alçar novos voos e contou com a ajuda da tradição familiar para isso.
Em 2018, aos 24 anos, foi eleito deputado federal com mais de 460 mil votos, sendo o candidato mais votado de Pernambuco naquele ano. Mas foi a partir da eleição para a Prefeitura do Recife, em 2020, que João Campos começou a construir a própria marca.
Antes de chegar ao Palácio Capibaribe, no entanto, enfrentou uma disputa acirrada, porém com vitória folgada, na eleição municipal contra Marília Arraes (PT), sua prima de segundo grau e também neta de Miguel Arraes.
Aos 27 anos, João Campos acabou eleito com 56,27% dos votos válidos, enquanto Marília Arraes conquistou 43,73%. Mais uma vez, o socialista relembrou o pai: “Não tem como vir aqui hoje, celebrar essa vitória, e não falar daquele que é referência na minha vida, Eduardo Campos”, disse ele em coletiva.
Já em 2024, João Campos foi reeleito prefeito do Recife com 725 mil votos, ou 78,12% dos votos válidos, um recorde para a cidade. O segundo colocado, Gilson Machado, ministro do Turismo no governo Jair Bolsonaro (PL), teve 129 mil votos.
João Campos escolheu Victor Marques (PCdoB), amigo do prefeito desde a época da UFPE e seu ex-chefe de gabinete.
Gestão de Recife
Na Prefeitura do Recife, capital de Pernambuco, João Campos conseguiu se destacar e estabelecer a sua própria identidade dentro da nova geração da política. A gestão foi marcada pelo uso intenso das redes sociais, como uma estratégia de aproximar a população da gestão municipal.
No TikTok, por exemplo, o político acumula mais de 900 mil seguidores e passou a ser chamado de “prefeito tiktoker”. Além de divulgar entregas da prefeitura, Campos aderiu a tendências da plataforma. Em 2024, durante o Carnaval, platinou o cabelo após um desafio lançado pelo cantor MC Anderson Neiff, em uma ação que viralizou nas redes.
Ernani Carvalho, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), avalia que João Campos passou a utilizar as redes sociais como um facilitador de políticas públicas e cita casos de sucesso, como o aviso de vacinação.
“Como instrumento de facilitação de políticas públicas, na questão da vacinação e de avisar a população sobre produtos, usos e serviços que a prefeitura oferece, ele vinha acertando. Isso o tornou um destaque. Eu diria que ele se firmou como um político nacional, e isso tem sido reconhecido por lideranças do próprio PT. O próprio presidente Lula já reconheceu a força da liderança dele”, ressalta o professor.
Candidatura ao governo
João Campos renunciou à Prefeitura do Recife em abril para se candidatar ao governo de Pernambuco. Ele compôs chapa com Marília Arraes (PT) e o senador Humberto Costa (PT) como candidatos ao Senado e tem como vice o economista Carlos Costa (Republicanos).
Nas pesquisas do primeiro semestre, João Campos aparecia à frente de Raquel Lyra. No levantamento da Real Time Big Data, divulgado em junho, o ex-prefeito do Recife obtinha 45% das intenções de voto, seguido pela atual governadora, com 40%. Nos levantamentos recentes, o candidato do PSB tem aparecido atrás dela, o que acendeu um alerta na campanha socialista.
A percepção do núcleo próximo do ex-prefeito do Recife é de que ele é bastante conhecido na região metropolitana da capital, mas precisa angariar votos nos municípios do interior.
Outra estratégia adotada é a aproximação com o presidente Lula. Raquel Lyra tem se mantido neutra na disputa eleitoral, apesar do PSD ter Ronaldo Caiado como candidato ao Palácio do Planalto. Com o lulismo muito forte em Pernambuco, o foco é tentar obter votos com a chapa completa.
Com um cenário apertado nas pesquisas, a campanha nas redes sociais e também nas ruas virou uma disputa de narrativas e tem se intensificado com o passar dos dias. João Campos, por meio de aliados, tenta associar Raquel Lyra ao ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto reforça proximidade com Lula. O presidente, no entanto, declarou apoio ao ex-prefeito do Recife, mas não colocou a governadora de Pernambuco como adversária direta.
Segundo o Painel, da Folha de São Paulo, a disputa pelo governo de Pernambuco ganhou novos rumos. A Polícia Federal (PF) investiga a existência de um “gabinete do ódio” ligado a Raquel Lyra.
Em meio a escalada da disputa, surgiram cartazes difamatórios em pontos do centro do Recife que associavam Raquel Lyra a figuras como Flor de Lis e Elize Matsunaga. Vale lembrar que o marido da governadora, Fernando Lucena, morreu em outubro de 2022. Raquel Lyra informou que registrou um boletim de ocorrência e João Campos pediu que o caso fosse investigado.
João Campos tem um eleitorado consolidado tanto no Recife como na região metropolitana, onde a sua gestão ganhou maior visibilidade. O ex-prefeito encontra mais apoio também na Zona da Mata, onde tenta se ligar à memória de Arraes, em especial pelo programa de renda básica “Chapéu de Palha”, embora Raquel Lyra tenha concentrado parte dos prefeitos da região.
Nas redes sociais, a chapa de João Campos se apresenta como: “time de Lula”. No Instagram, o ex-prefeito não esconde as referências ao presidente, que nasceu em Pernambuco, mas deixou o estado ainda criança ao lado da mãe e dos irmãos para tentar a vida em São Paulo.
O ex-prefeito do Recife, inclusive, chegou a publicar uma foto onde tenta se aproximar de uma imagem emblemática do petista e gerou uma repercussão negativa para João Campos nas redes sociais.
O professor Ernani Carvalho acredita que o início da pré-campanha de João Campos se concentrou no ambiente virtual e deixou de lado a política tradicional, o que acabou fragilizando a relação com lideranças locais.
“Na minha avaliação, por parte de João Campos, apostando muito em uma espécie de campanha midiática voltada basicamente para a internet e deixando de lado a política tradicional, que ainda é muito forte. É preciso percorrer o estado, apertar as mãos dos políticos, fazer acordos e se mostrar presente”, destaca o professor.
Adriane Buarque, coordenadora do Esfera Lab, laboratório de comunicação política, da ESPM, explica que João Campos viralizou nas redes sociais ao adotar uma estratégia de “político influenciador”, destinada a geração Z, mas a viralização tem limites e indica que a campanha precisa equilibrar táticas para transformar curtidas em votos efetivos.
“Quando a gente fala de cargo, a gente também tem que olhar que não é mais só a prefeitura, não é mais só Recife, é olhar para Pernambuco como um todo. Interior nem sempre você tem as redes sociais como um canal importante de fala”, afirma Adriana Buarque.
“Você tem outras gerações ali que o contato, que caminhadas, que comícios, você tem que ter uma representação mais ativa dentro dessas localidades”, complementa a coordenadora do Esfera Lab.
Atuante no PSB desde muito novo, João Campos assumiu a presidência da legenda em junho de 2025 e atuou na articulação política para manutenção do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) na chapa do presidente Lula (PT) à reeleição.
Plano B?
Com um cenário apertado em Pernambuco, a base do governo Lula ainda não enxerga a vitória de Raquel Lyra como certa e acredita que ainda tem possibilidade de vitória de João Campos em um eventual segundo turno.
Por ora, a principal estratégia do PSB é ligar João Campos ao presidente Lula (PT) para tentar alavancar o nome dele ao interior do estado, onde Raquel tem boa penetração e conta com o apoio de importantes prefeitos.
Caso Campos saia derrotado da disputa ao Palácio do Campo das Princesas, a base do governo Lula acredita que ele possa assumir uma cadeira na Esplanada dos Ministérios, mas o assunto ainda não foi discutido.
Em relação a uma substituição ao presidente Lula, o PT tem sido claro: o PT é o substituto de Lula. Durante a convenção nacional do PT, o chefe do Planalto indicou que Fernando Haddad (PT), candidato ao governo paulista, será o seu sucessor em 2030.
“Agora que nós estamos com o básico garantido, é hora de dar um salto de qualidade. Agora é hora de pensar nesse país. Qual é o país do futuro que eu vou entregar, quando você, Haddad, depois de governar São Paulo por oito anos, estiver sendo presidente da República”, disse o presidente.
Fonte: JOTA