Na casa do adversário
Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital
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Antropóloga, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Santa Catarina. Autora de ‘O Mundo do Avesso: Verdade e Política na Era Digital’
Nesta reta final, Lula luta para vencer um jogo jogado em território inimigo
A medida que o primeiro turno eleitoral se aproxima, ocorre o esperado: um acirramento das movimentações táticas por parte das campanhas e apoiadores para angariar os últimos eleitores indecisos. Isto é especialmente verdadeiro para a família Bolsonaro, que se vê numa encruzilhada existencial. Considerando que Flávio perderá o mandato de senador, Carlos tem chance real de não se eleger para o mesmo cargo por Santa Catarina e Eduardo não é mais deputado federal, caso Lula vença, os três podem ver-se sem foro privilegiado a partir de 2027, o que abre a possibilidade de, eventualmente, se unirem ao pai na prisão por processos em andamento em instâncias diversas.
A sorte dos Bolsonaro é que eles não são os únicos que se encontram em tal situação de tudo ou nada. Políticos que sabem o que fizeram com relação ao Banco Master e outros escândalos de corrupção, ministros do Supremo Tribunal Federal na mesma situação, além do próprio Daniel Vorcaro e seus comparsas podem ter costurado acordos de proteção e anistia com o candidato que também é investigado por envolvimento com essas mesmas organizações criminosas.
Mas estes tampouco são os únicos dispostos a fazer o que for preciso para Flávio vencer esta eleição. Muito se tem falado do presidente Donald Trump, cuja radicalização neste segundo mandato também advém de uma encruzilhada existencial: está em jogo a sobrevivência do próprio império estadunidense. Garantir a subserviência da América Latina é parte crucial desse desenlace, seja para alavancar uma sobrevida diante da ascendente potência tecnológica e comercial chinesa, seja para que os EUA se acomodem em uma nova posição de império regional voltado ao seu “quintal”, a América Latina. Em todos os cenários, o Brasil aparece como peça central no tabuleiro. Se Flávio se eleger, a dominação neocolonial do subcontinente estará garantida.
As pretensões trumpistas de salvar um império em franca decadência envolvem, ainda, um conjunto de aliados que detêm a maior arma que se pode ter hoje, o controle indireto sobre bilhões de seres humanos no mundo todo, além da maior parte dos eleitores brasileiros. Refiro-me, é claro, às big techs, cujos dispositivos cibernéticos – as redes sociais, WhatsApp, smartphones – se encontram, há alguns anos, acoplados às nossas mentes. Também essas empresas e seus donos bilionários se encontram hoje em uma encruzilhada existencial. Pela primeira vez na história dessa indústria eles se veem diante de um concorrente à altura na sua derradeira fronteira, as Inteligências Artificiais. Novamente, a China. Não há por que excluir a hipótese de eles fazerem o que for preciso para defender seus interesses.
Numa entrevista em junho deste ano, afirmei que o que mais me preocupava com relação às plataformas nas eleições vindouras não eram nem as IAs, nem o X de Elon Musk, mas o Instagram. O recado foi dado pelo dono da Meta, Mark Zuckerberg, ainda em janeiro de 2025, quando ele escancarou seu alinhamento com o trumpismo, anunciando mudanças nos algoritmos e nas políticas de moderação nas plataformas da empresa. Uma semana depois, um vídeo desinformativo e alarmista do deputado federal Nikolas Ferreira sobre o Pix excedeu a improvável marca de 300 milhões de visualizações em apenas 48 horas. Era um ensaio do que estava por vir.
Na reta final para o primeiro turno, a Meta começou a botar as asinhas de fora derrubando perfis de conteúdos virais com denúncias sobre Flávio Bolsonaro, como o documentário Grandes Igrejas, Master Negócios, suspendendo os anúncios pagos pela campanha do presidente Lula, reduzindo o alcance de grandes contas de esquerda, segundo múltiplos relatos de seus administradores. A hipótese de uma manipulação obscura por algoritmos acontecer é grave o suficiente. Mais grave ainda é sabermos que, se isso de fato está ocorrendo, não dispomos de meios para saber, visto que estas e as demais plataformas são, na prática, espaços de soberania paralela privada estrangeira atuando em território brasileiro.
Nadando contra a correnteza de um rio caudaloso que tenta o tempo todo afogar a campanha do presidente Lula, enquanto essas mesmas águas propelem gentilmente seus opositores, uma vitória será nada menos que um milagre. Para tentar manter-se à tona nesse jogo cujas regras favorecem um dos lados, o campo da esquerda faz o certo: arriscar mais alto, nesta reta final, em pautas com potencial de grande impacto atencional e afetivo, como a proibição das bets e a ameaça à padroeira do Brasil. •
Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Na casa do adversário’
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Fonte: Carta Capital