Por Luiz FafauJornal Opção

Madalena, a Barbarella Berranteira

Pense bem. Se eu, ou você, com oito anos de idade, vivendo no Arraial de Sant’Anna — depois conhecido como Goiás Velho — em 1727 e, do nada, visse baixando um disco voador? Seria uma balbúrdia, não é mesmo? Provocaria estouro nas boiadas se, àquela época, criação de gado houvesse em grande escala por aquelas plagas. Imaginar então que alguém tivesse três mil cabeças de gado para vender e um boiadeiro, com seu capataz e mais cinco peões, comprasse e as fizesse vir do rico estado de Minas Gerais para ser vista da janela do Palácio Conde dos Arcos seria um equívoco histórico, não é mesmo? Um anacronismo, como diria a professora Maria Lenke e todo mundo. Anacrônico como existir o estado de Minas Gerais em 1727. Mas a história que quero contar é outra. Não, sem antes revelar outro anacronismo que você, na sua sapiência, percebeu, mas não me falou, pela gentileza que lhe é peculiar. O Palácio Conde dos Arcos só foi construído em 1751 pelo Marquinhos Noronha.

Pois então. O garoto de calça curta surrada e camisa branca idem, pobre, mas limpinho — que, no caso, sou eu — viu baixando o disco voador numa manhã de 1966. Bem distante daquele 1727 de que falávamos há pouco. Mas 1966 foi um grande ano para ele. Tinha ouvido no rádio que astronautas americanos haviam dado umas voltas no espaço. Treinando para ir à Lua. Ele não sabia se iam conseguir, mas até que gostaria de ir junto. Na Lua, imagine!

Tinha outras coisas acontecendo naquele ano, mesmo que ele nem tomasse conhecimento. De que iria adiantar saber que David Jones, com medo de ser confundido com Davy Jones, dos The Monkees, tinha mudado seu nome para David Bowie? Ou que o marechal Castelo Branco tinha fechado o Congresso Nacional? Picas! Suas prioridades eram outras, muito mais, digamos, rocambolescas. A Copa do Mundo na Inglaterra, por exemplo. Muito mais importante. Gérson, Brito, Tostão, Jairzinho, Pelé e… Garrincha. Os filmes de Tarzan nas matinês de domingo e, claro, o espaço sideral, a Lua, os astronautas e seus macacões que eram uma brasa, mora?

Acho que exagerei. Você não tem idade para entender o “Uma brasa, mora?”. As gírias eram de outro planeta. Pode acreditar em mim. O disco voador que tinha chegado à Terra ele viu — ou melhor dizendo, ouviu — no programa Nossa Fazenda, apresentado por Morais “Coloooosso” César, na Rádio Anhanguera AM. Primeiro ouviu o som de um berrante e, em seguida, Silveira e Silveirinha começaram a cantar a história de uma boiada brava que uns boiadeiros vinham tocando pelo sertão de Goiás. Mas não foi isso que lhe chamou a atenção. A rua onde morava, ali no Largo do Moreira, em Vila Boa de Goyaz, ou Goiás Velho, era rota constante de grandes e pequenas boiadas. Algumas ficavam horas passando debaixo de sua janela, entre aboios e gritos dos vaqueiros. Depois do cortejo, ficavam as pedras da rua, todas cobertas daquela esmeralda pastosa que os animais cagavam.

Nem mesmo o estouro da boiada na história do compositor Faísca lhe chamou tanta atenção. A morte dos cinco companheiros do herói da canção, na tentativa de reagrupar os animais, era triste, mas a visão da moça boiadeira descendo do céu num misterioso disco voador, com um berrante alienígena que mudava de cor enquanto era tocado… ah! Isso sim era digno de atenção. E ela tinha vindo numa missão especial (e espacial), cumprindo ordens do “Nosso Senhor”, uma espécie de chefe lá dela. Um chefe intergaláctico que devia ser amigo do Flash Gordon. E o poder daquela Barbarella berranteira, então? Com o repique do seu berrante, ela reuniu a boiada, ressuscitou os cinco que tinham morrido e levitou para o céu. De volta para o disco voador, imagino.

Nunca mais o menino foi o mesmo. Foi crescendo entre os pés de cajazinho, as procissões, os banhos no Bagagem, no poço Chapéu de Padre e as aulas no Colégio Estadual Professor Constâncio Gomes. Outras coisas lhe chamaram a atenção nos anos que se passaram, muitas outras lhe surpreenderam nas décadas seguintes, mas ele nunca mais se recuperou. Perdera-se em um mundo para além das boiadas. A lembrança de Madalena, com seu lindo sorriso, dizendo “tenha juízo, ó meu grande amor”, ainda dá voltas em sua imaginação. Foi seu primeiro desvario, sua primeira paixão. Ele não sabia que um dia teria 70 anos. Que o disco voador pousaria em uma terra plana. Que o gado que estourou ocuparia todo o Cerrado e outros biomas. Que Deus o tenha e que sua alma se sinta amparada.

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Fonte: Jornal Opção

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