Estudo internacional aponta ‘falhas’ da Meta que favorecem Flávio Bolsonaro nas eleições
Por gutoalves — Fundação Perseu Abramo
Quando alguém deixa de votar no segundo turno, a escolha de quem governará o país fica nas mãos de quem comparece às urnas. A ausência pode ter diferentes motivos, mas também é um objetivo de campanhas de desinformação que procuram gerar desconfiança, desânimo e descrença na política.
Na disputa atual, entender como essas estratégias funcionam é importante para preservar a liberdade de escolha. O voto e a opinião dos cidadãos se tornaram alvos de empresas e organizações capazes de reunir dados pessoais, identificar interesses e direcionar mensagens para influenciar comportamentos.
Para compreender como esse mercado se desenvolveu, vale voltar a março de 2018, quando veio a público o escândalo da Cambridge Analytica. Revelado por reportagens dos jornais The New York Times e The Guardian, o caso expôs o uso indevido de dados de cerca de 87 milhões de usuários do Facebook.
A coleta ocorreu por meio de um teste psicológico na rede social. Além das informações de quem respondeu ao questionário, o aplicativo permitiu obter dados de pessoas conectadas a esses usuários, sem que elas tivessem autorizado esse uso.
Com essas informações, a empresa buscava identificar características de personalidade, interesses e preocupações de milhões de pessoas. Os perfis eram usados para direcionar anúncios e mensagens a públicos específicos, técnica conhecida como microdirecionamento, ou microtargeting.
O objetivo era adaptar a comunicação às características de cada grupo. Pessoas preocupadas com a violência, por exemplo, poderiam receber conteúdos que explorassem esse medo. Eleitores indecisos ou desiludidos poderiam ser alvo de mensagens destinadas a reforçar o desânimo e desestimular o comparecimento às urnas.
A Cambridge Analytica trabalhou na campanha de Donald Trump nos Estados Unidos em 2016. O escândalo tornou o uso de dados pessoais em campanhas eleitorais um tema de debate internacional, embora não seja possível atribuir a essas técnicas, isoladamente, o resultado de uma eleição.
A empresa fechou, mas o uso político dos dados continuou
Depois da revelação do caso, a Cambridge Analytica encerrou suas atividades. O Facebook, por sua vez, recebeu uma multa de US$ 5 bilhões da Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos (FTC), em um acordo sobre violações à privacidade dos usuários.
No Brasil, o Ministério da Justiça aplicou uma multa de R$ 6,6 milhões por falhas na informação sobre o compartilhamento de dados. O caso envolveu a possível exposição de informações de mais de 440 mil brasileiros.
Denunciantes da própria Cambridge Analytica, como Christopher Wylie e Brittany Kaiser, ajudaram a revelar o funcionamento dessas operações. O encerramento da empresa, porém, não eliminou o mercado de dados e serviços de influência política.
Para Clarissa Maia, professora e integrante da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), a velocidade das mudanças impõe dificuldades à legislação. “O Direito Eleitoral vai estar sempre um passo atrás dessas inovações tecnológicas. E aquilo que não foi inicialmente previsto, não pode ser regulado.”
As campanhas de desinformação também passaram a combinar publicações em redes abertas, como o Facebook, com a circulação de conteúdos em aplicativos de mensagens. Essa distribuição dificulta o acompanhamento público das mensagens e de quem as financia ou organiza.
Na Índia, um estudo sobre grupos políticos públicos de WhatsApp, realizado no período que antecedeu as eleições nacionais de 2019, identificou desinformação em cerca de 13% das imagens compartilhadas nos grupos analisados. Entre os conteúdos estavam fotografias fora de contexto, montagens e citações falsas.
Nas Filipinas, campanhas digitais disseminaram versões que minimizaram os abusos da ditadura de Ferdinand Marcos e favoreceram a recuperação da imagem política de sua família.
Como observa Clarissa, “muitas táticas importadas de fora focam em minar a confiança nas instituições para gerar desânimo e abstenção do eleitor”.
Apelo emocional aumenta a adesão a conteúdos falsos
No Brasil, a exploração de medos, indignação e frustrações também aparece nas estratégias de desinformação eleitoral. As mensagens podem atacar candidaturas, desacreditar instituições ou reforçar a sensação de que participar da eleição não fará diferença.
Uma pesquisa do Pew Research Center aponta que 78% dos brasileiros consideram que o acesso à internet e às redes sociais tornou mais fácil manipular as pessoas com informações falsas e rumores.
Outro levantamento, do Laboratório de Inteligência sobre Narrativas e Algoritmos (LINA), do Instituto Oyá, ouviu 2 mil pessoas. Em um teste de credibilidade, uma notícia falsa construída com forte apelo emocional e dados inventados convenceu 78% dos entrevistados.
O resultado mostra como a preocupação com a desinformação pode coexistir com a dificuldade de reconhecer uma mensagem falsa, especialmente quando ela confirma uma crença ou mobiliza uma emoção.
Anúncios falsos passam pelos sistemas de moderação
Testes com publicidade política revelam falhas no controle das plataformas. Em um levantamento da organização internacional Ekō, 13 dos 15 anúncios submetidos à Meta foram aprovados, cerca de 87% do total.
As peças continham desinformação eleitoral, imagens produzidas com inteligência artificial e, em alguns casos, incitação à violência. Os pesquisadores retiraram os anúncios depois da avaliação, antes que fossem publicados ou exibidos aos usuários.
“A pesquisa mostra o quão gravemente os sistemas da Meta estão falhando. A Meta recuou nas medidas de segurança no momento exato em que as ferramentas de IA tornaram mais fácil do que nunca gerar deepfakes hiper-realistas em questão de minutos”, afirma Vicky Wyatt, diretora de campanhas da Ekō.
“Este é o modelo de negócios da desinformação e do ódio. A Meta lucra com a publicidade política, seja ela verdadeira ou não”, acrescenta.
Um experimento da Anistia Internacional Brasil encontrou um problema semelhante. Dos 15 anúncios com desinformação eleitoral enviados ao Facebook, oito foram aprovados. Os outros sete foram sinalizados para verificação de identidade, sem que o conteúdo falso fosse apontado como motivo da restrição. Nesse teste, os anúncios também não chegaram a ser publicados.
Wyatt afirma que as falhas se repetem em diferentes países. “Repetidas vezes em eleições pelo mundo, a Meta se tornou a plataforma de preferência para agentes mal-intencionados, na Índia, nos EUA, no Quênia e, agora, no Brasil.”
Para ela, as respostas da empresa não enfrentam o problema de forma suficiente. “A cada vez, a empresa nega a responsabilidade ou oferece soluções superficiais, mas esse problema se torna a característica principal de um modelo de negócios tóxico que prioriza a receita publicitária acima de tudo.”
Conteúdos manipulados na disputa brasileira
Na campanha brasileira, a circulação de vídeos editados e mensagens descontextualizadas já motivou decisões da Justiça Eleitoral.
Em 13/10, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) retirassem um vídeo em que crianças atribuíam ao presidente Lula e a seu filho problemas como furtos, insegurança e alta dos preços. A decisão atendeu parcialmente a um pedido da coligação que apoia a reeleição do presidente.
A circulação desses conteúdos se combina com a capacidade de distribuição de canais de WhatsApp, perfis de influenciadores e redes de compartilhamento. Uma mesma mensagem pode ser reproduzida em diferentes formatos e alcançar públicos que não terão contato com sua correção.
A inteligência artificial amplia essas possibilidades. Vídeos e áudios falsos, conhecidos como deepfakes, podem simular falas de candidatos. A clonagem de vozes e a multiplicação de perfis falsos também podem criar a impressão de apoio popular ou dar credibilidade a uma acusação inventada.
“A Meta oferece ferramentas e tecnologias para amplificar a desinformação e teorias da conspiração para milhões de pessoas, e ferramentas de IA, como geração de texto e imagem, potencializaram a capacidade deles de fazer isso”, afirma Wyatt.
“A desinformação em grande escala semeia a desconfiança nas eleições e, em última análise, enfraquece e até ameaça destruir a democracia.”
Regulação e proteção de dados
O enfrentamento dessas práticas exige medidas de proteção de dados, fiscalização da publicidade e responsabilização de quem produz, financia e distribui conteúdos ilegais.
No governo Lula, a criação da Secretaria de Políticas Digitais, vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), estabeleceu uma estrutura dedicada à formulação de políticas de integridade da informação e enfrentamento à desinformação. A educação midiática também passou a integrar essa atuação.
Na esfera eleitoral, cabe à Justiça Eleitoral aplicar as regras da campanha e determinar providências diante de conteúdos irregulares, enquanto os órgãos de investigação apuram possíveis crimes. A discussão sobre a regulação das grandes plataformas inclui a transparência dos anúncios e dos sistemas de distribuição de conteúdo.
Para Wyatt, os resultados dos testes reforçam a necessidade de cobrar medidas efetivas das empresas. “Governos nacionais e autoridades eleitorais devem aprovar e fazer cumprir leis rigorosas que forcem essas empresas a respeitar as regulamentações nacionais.”
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) estabelece regras para o tratamento das informações pessoais. A fiscalização das plataformas e o cumprimento da legislação eleitoral também são necessários para reduzir o alcance de operações que buscam manipular a escolha dos cidadãos.
O comparecimento às urnas tem importância nesse contexto, sobretudo quando a desinformação procura transformar a desconfiança em desistência de votar. Isso não significa atribuir toda abstenção à manipulação digital, mas reconhecer que desestimular a participação pode ser uma estratégia política.
Clarissa chama atenção para a gravidade dos ataques dirigidos à própria realização das eleições: “Quando ela é contrária ao sistema eleitoral de votação, contrária à governança eleitoral é contrária ao voto ou à confiança no resultado das eleições, ela é muito mais grave e ela deve ser combatida com rigor”.
Fonte: Fundação Perseu Abramo