Vorcaro envolveu Campos Neto em operação com Metrópoles para garantir venda do Master ao BRB
Por Redação Brasil 247 — Brasil 247
247 – O banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, participou de uma articulação com a direção do Metrópoles para utilizar uma entrevista com Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central (BC), como instrumento de comunicação durante a tentativa de venda de parte da instituição ao Banco de Brasília (BRB). Mensagens de WhatsApp revelam que o empresário sugeriu perguntas ao ex-chefe da autoridade monetária, interferiu em reportagens sobre dirigentes do BC e discutiu o momento mais conveniente para publicar notícias relacionadas à transação.
Segundo reportagem publicada pelo UOL nesta quinta-feira (15), Vorcaro manteve conversas frequentes com Lilian Tahan, CEO do Metrópoles, principalmente entre agosto e setembro de 2025. Os diálogos mostram que o banqueiro procurou influenciar a cobertura sobre o Banco Central, especialmente em relação a Renato Gomes, então diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, responsável pela análise técnica da operação Master-BRB.
A articulação ocorreu enquanto o Banco Master mantinha um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal. As mensagens mostram que Vorcaro examinava antecipadamente reportagens, sugeria alterações no conteúdo, recomendava a retirada de informações desfavoráveis à instituição e participava de decisões sobre o calendário de publicação.
Em uma das conversas, Lilian chegou a apresentar a entrevista com Campos Neto como um recurso para enfrentar notícias negativas sobre o Master. “O que acha do Roberto Campos? É um bom trunfo!”, escreveu a executiva.
Vorcaro sugeriu perguntas para entrevista com Campos Neto
Em 13 de agosto de 2025, Daniel Vorcaro encaminhou a Lilian Tahan três perguntas destinadas a Roberto Campos Neto, que havia presidido o Banco Central entre 2019 e dezembro de 2024.
As questões abordavam a influência dos grandes bancos sobre decisões da autoridade monetária, os obstáculos à desconcentração do sistema financeiro e a autonomia do BC. Uma delas tratava especificamente da atuação das maiores instituições financeiras no processo de análise da aquisição de parte do Master pelo BRB.
A escolha dos assuntos estava relacionada à estratégia de Vorcaro de apresentar possíveis resistências à operação como resultado da pressão de concorrentes sobre o Banco Central.
Naquela noite, Lilian encaminhou ao banqueiro uma versão da reportagem com declarações de Campos Neto. Vorcaro aprovou o conteúdo, mas recomendou diminuir o espaço dedicado a Renato Gomes, preservando informações sobre o diretor para outra publicação.
“Acho que o texto ta otimo. Mas eu nao falaria tanto do renato, concentraria essa materia no roberto. Senao perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o renato pra materia dele!”, escreveu.
O empresário também pediu que fossem retiradas referências à possibilidade de falência do Banco Master. A executiva respondeu: “Deixa comigo!”
As interferências não ficaram restritas ao conteúdo. Vorcaro também discutiu com Lilian quando a entrevista deveria ser publicada. Inicialmente prevista para a manhã seguinte, a reportagem foi adiada após sugestões do banqueiro.
Em 14 de agosto, ele voltou a recomendar que a divulgação fosse postergada.
“Vamos segurar roberto que tive umas ideias pra fazermos mais tarde”, escreveu.
Lilian concordou.
Campos Neto foi apresentado como trunfo contra notícias negativas
A utilização da entrevista ganhou importância em 19 de agosto, quando Vorcaro procurou a CEO do Metrópoles para discutir uma reação a informações desfavoráveis ao Master que poderiam ser divulgadas no dia seguinte.
O banqueiro afirmou que precisava de um “remedio contra noticias ruins que vao soltar”.
“Vamos! Pronta”, respondeu Lilian.
Na sequência, a executiva sugeriu utilizar as declarações do ex-presidente do Banco Central.
“O que acha do Roberto Campos? É um bom trunfo!”, perguntou.
Vorcaro concordou com a avaliação e considerou que aquele poderia ser um momento oportuno para divulgar a entrevista. Também sugeriu a possibilidade de um editorial favorável à aprovação da operação pelo Banco Central após o avanço de uma medida legislativa.
As mensagens mostram que a entrevista era discutida pelos interlocutores como uma ferramenta de comunicação para enfrentar notícias negativas sobre o Master, em um momento no qual a instituição dependia da autorização do BC para concretizar o negócio com o BRB.
Campos Neto falou sobre banco que estaria “sangrando”
A entrevista com Roberto Campos Neto foi publicada pelo Metrópoles em 22 de agosto de 2025, às 18h51, na coluna Dinheiro e Negócios, em reportagem assinada pela jornalista Gabriella Furquim.
Ao comentar a análise da operação Master-BRB, o ex-presidente do Banco Central destacou a importância do prazo de avaliação de transações envolvendo instituições financeiras.
“Tempo no sistema bancário é importante”, afirmou Campos Neto.
Na sequência, o ex-presidente da autoridade monetária mencionou as consequências da demora para uma instituição financeira em dificuldades, mas ressaltou que não tinha conhecimento suficiente para avaliar se essa era a situação específica do Master.
“Ainda mais quando uma instituição está sangrando, apesar de [eu] não saber se é ou não o caso específico. Mas tenho muita confiança de que vai levar o tempo necessário para o embasamento técnico”, declarou.
Campos Neto também manifestou confiança no processo de avaliação conduzido pelo Banco Central e afirmou que a decisão deveria ser respeitada, independentemente de seu resultado.
“Independentemente de qual seja a decisão, tenho certeza que ela será bem embasada. Será o melhor para o Brasil”, destacou.
As declarações foram divulgadas quando a transação já havia superado etapas importantes, mas ainda dependia da autorização da autoridade monetária.
A entrevista também ganhou relevância pela relação profissional entre Campos Neto e Renato Gomes. O ex-presidente do BC havia indicado Gomes para a diretoria da instituição e era apontado como seu padrinho político e profissional.
Embora as mensagens mostrem que Vorcaro e Lilian discutiram a utilização da entrevista como parte da estratégia de cobertura, não há comprovação de que Campos Neto tenha participado dessa articulação ou atuado para influenciar a decisão do Banco Central.
Desde julho de 2025, Campos Neto ocupa os cargos de vice-presidente executivo e chefe global de políticas públicas do Nubank, além de integrar o conselho de administração da controladora do banco digital. Portanto, já estava no setor privado quando ocorreram as conversas.
Operação avançava após aprovação de lei e aval do Cade
Quando a entrevista foi publicada, a negociação entre Master e BRB já havia recebido autorização do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
Dois dias antes, em 20 de agosto de 2025, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), havia sancionado uma lei que permitia o avanço da operação.
Restava, entretanto, a aprovação do Banco Central, cuja análise envolvia a diretoria de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução, comandada por Renato Gomes.
Na mesma sexta-feira, 22 de agosto, o BRB divulgou um fato relevante informando mudanças substanciais na estrutura da aquisição. Segundo o comunicado, aproximadamente R$ 51,2 bilhões em ativos e passivos haviam sido retirados do perímetro da operação.
Entre os ativos excluídos estavam R$ 9,43 bilhões em precatórios, R$ 7,59 bilhões em operações de crédito concentradas ou sem garantias reais, R$ 19,48 bilhões em determinados fundos de investimento em direitos creditórios e ações, além de R$ 2,47 bilhões em certificados de recebíveis imobiliários.
O comunicado também mencionava a exclusão de R$ 12,28 bilhões em outros créditos, incluindo recebíveis de ativos judiciais e posições cujas contrapartes não haviam sido avaliadas.
No lado dos passivos, o BRB informou a retirada de aproximadamente R$ 33 bilhões em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), distribuídos por plataformas de investimento e com custo de captação próximo de 120% da taxa do Certificado de Depósito Interbancário (CDI).
As alterações evidenciavam a complexidade financeira da negociação e a importância da avaliação técnica do Banco Central sobre os ativos e passivos que seriam transferidos ao banco público do Distrito Federal.
Vorcaro interferiu em reportagem sobre diretor do Banco Central
A participação do banqueiro nas decisões editoriais do Metrópoles voltou a aparecer em 1º de setembro de 2025, dois dias antes da rejeição da operação.
Na ocasião, Lilian Tahan encaminhou a Vorcaro uma reportagem intitulada “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes, diretor do BC que vai decidir futuro do Master”.
O controlador do Master sugeriu mudanças que atingiam diretamente a imagem do diretor responsável pela análise regulatória da transação.
Uma das orientações foi retirar, novamente, referências à possibilidade de falência da instituição financeira. Vorcaro também recomendou acrescentar a informação de que haveria uma divisão interna no Banco Central, com Renato Gomes contrário à aprovação do negócio.
Outra intervenção envolveu especulações sobre o futuro profissional do diretor.
A versão inicial mencionava o BTG Pactual como possível destino de Gomes após sua saída da autoridade monetária. Vorcaro sugeriu substituir a referência nominal por uma menção genérica a um dos grandes bancos, apresentados como opositores da aquisição do Master pelo BRB.
A mudança associava o diretor a instituições financeiras supostamente interessadas em impedir a transação, sem identificar diretamente uma delas.
“Boa!” e “Combinado!”, respondeu Lilian às sugestões.
A reportagem publicada incorporou as alterações discutidas, incluindo especulações sobre uma possível contratação de Gomes por uma grande instituição financeira, sem apresentar comprovação de que ele tivesse recebido proposta de emprego.
Pressão sobre Renato Gomes chegou a discussão sobre projeto no Congresso
Em 2 de setembro, Vorcaro voltou a conversar com Lilian sobre uma reportagem relacionada a um projeto legislativo que permitiria ao Congresso Nacional demitir integrantes da diretoria do Banco Central.
O banqueiro sugeriu que a manchete vinculasse diretamente a proposta a Renato Gomes, ampliando a exposição do dirigente às vésperas da decisão sobre o Master.
Lilian considerou a abordagem “ostensiva”, mas avaliou que ela poderia ser justificada caso o projeto tivesse sido motivado pela atuação do diretor.
Outra reportagem sobre Gomes também foi submetida previamente à avaliação do empresário.
Os episódios revelam uma sequência de intervenções de Vorcaro em conteúdos relacionados ao integrante do Banco Central que desempenhava papel central na avaliação da operação.
A estratégia discutida nas mensagens combinava a utilização de declarações de um ex-presidente da autoridade monetária com a divulgação de informações capazes de questionar a atuação de um diretor da instituição.
Em 3 de setembro de 2025, o Banco Central rejeitou por unanimidade a proposta de aquisição de parte do Banco Master pelo BRB, encerrando a negociação iniciada em março.
A decisão contrariou o interesse de Vorcaro e demonstrou que a articulação editorial documentada nas conversas não foi suficiente para garantir a autorização regulatória.
Master mantinha contrato publicitário de R$ 20 milhões com o Metrópoles
As conversas entre Daniel Vorcaro e Lilian Tahan ocorreram durante um período em que o Banco Master mantinha uma relação comercial milionária com o portal.
Segundo o UOL, a instituição financeira havia fechado um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o Metrópoles em 2024, cujo pagamento foi realizado em 2025.
A existência do contrato é relevante diante das mensagens que mostram o controlador do banco participando de discussões sobre conteúdo, títulos e calendário de publicação de reportagens relacionadas diretamente aos interesses econômicos da instituição.
A operação com o BRB era estratégica para o Master, que enfrentava dificuldades financeiras. A aprovação pelo Banco Central constituía uma condição indispensável para a concretização da transação.
Nesse contexto, a cobertura sobre a autonomia da autoridade monetária, a influência dos grandes bancos e a atuação de Renato Gomes tinha potencial para afetar o debate público em torno do negócio.
Os diálogos indicam que Vorcaro procurou interferir tanto no enquadramento das notícias quanto na sequência de sua divulgação, buscando utilizar determinadas publicações para reagir a informações desfavoráveis ao banco.
Lilian Tahan nega influência de contrato publicitário na cobertura
Procurada pelo UOL, Lilian Tahan afirmou que a consulta prévia a fontes para verificar informações e contextualizar reportagens faz parte de sua prática jornalística.
A CEO do Metrópoles negou que a cobertura sobre o Banco Master tivesse relação com os contratos publicitários mantidos entre o portal e a instituição financeira.
A executiva também destacou que o veículo publicou reportagens críticas sobre empresas ligadas a Daniel Vorcaro, argumento apresentado para contestar a existência de favorecimento sistemático ao banqueiro.
As mensagens, entretanto, documentam situações em que Vorcaro ultrapassou a condição de fonte consultada. Ele sugeriu perguntas destinadas a Campos Neto, avaliou versões de reportagens antes da publicação, recomendou a retirada de informações negativas e participou de discussões sobre o momento mais conveniente para divulgar notícias.

Fonte: Brasil 247