“Até aqui tudo bem”: quando a arte d’O Ódio (1995) conflui com as revoltas estudantis nas ruas
Por Djennifer Queiroz — Esquerda Diário

“É a história de um homem que cai de um prédio de cinquenta andares. O cara, à medida que vai caindo, repete sem parar para se tranquilizar: ‘Até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui tudo bem.’ Mas o que importa não é a queda, e sim a aterrissagem.”
“É a história de um homem que cai de um prédio de cinquenta andares. O cara, à medida que vai caindo, repete sem parar para se tranquilizar: ‘Até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui tudo bem.’ Mas o que importa não é a queda, e sim a aterrissagem.”
Em “O Ódio” (1995), filme dirigido por Mathieu Kassovitz, acompanhamos um dia na vida de três jovens moradores da periferia francesa: Vinz, que é judeu; Hubert, sendo negro; e Saïd, descendente norte-africano. A produção permeia entre os conjuntos habitacionais da banlieue – subúrbio francês – e as ruas de Paris, retratando uma sociedade marcada pela segregação, pelo racismo e pela violência policial. O estopim se dá com a morte de um jovem após uma abordagem policial, que desencadeia uma onda de revoltas no bairro, constituindo o pano de fundo de uma narrativa na qual a tensão entre os moradores periféricos e as instituições do Estado atravessam a vida cotidiana. Para além de representar a violência, o longa expõe as contradições de uma sociedade que promete oportunidades e que, na realidade, reservam a determinados grupos sociais a marginalização e a ausência de perspectivas concretas de futuro.
A metáfora da queda que abre o filme sintetiza essa contradição. A repetição de “até aqui tudo bem”, expressa a complexidade de uma sociedade refém de um colapso iminente, atravessados pela opressão e desigualdade brutal, que é maquiado em um país de primeiro mundo e de referência turística, dando uma falsa sensação de segurança, ao passo que a passagem temporal é tida como um barril de pólvoras: a qualquer momento tudo pode explodir. À luz disso, uma sociedade pode insistir na normalidade de suas instituições e na promessa de progresso enquanto aprofunda as contradições que ameaçam sua própria estabilidade. O problema não está apenas na queda, mas nas condições que a produzem e naquilo que aguarda quem cai.
Para a juventude, essa queda assume formas concretas: a segregação de bairros, a violência estatal, o racismo e a xenofobia destinados aos imigrantes e seus descendentes, a precarização da vida e o estreitamento das possibilidades de um futuro melhor. A promessa capitalista meritocrática da combinação do esforço individual somado à educação, que garantiriam ascensão social é desmascarado pelas condições materiais e contradições que esse sistema oferece à juventude e à classe trabalhadora. Para quem cresce às margens, ou, como diria o grupo de rap Racionais Mc’s, “para quem vive na guerra, a paz nunca existiu”, a expectativa de futuro de jovens e trabalhadores passa a ser norteada pela exploração, opressão e frustração.
É nesse sentido que “O Ódio” ultrapassa o contexto de sua produção fílmica e se torna uma referência para pensar as contradições da sociedade francesa e internacional. Isso não acontece porque o longa antecipa os acontecimentos atuais, mas sim porque expõe lutas de classes de um sistema degradado que está fadado à quedas, em que a resposta dessa maioria explorada se encontra nas ruas, sem arranjar desculpas para o terror.
Trinta e um anos após seu lançamento, a juventude volta a ocupar as ruas em mais um momento de queda. Desde o final de setembro, o ponto de partida da forte mobilização que está ocorrendo na França se deu nos liceus, denunciando a precarização da educação, com superlotação de salas de aula, péssimas condições de infraestrutura, falta de professores, além da jornada extenuante de ensino que dura das 8h às 18h. É nessa lógica de contestação e indignação que transborda uma luta política que nasce da base, com adolescentes de 14 a 16 anos, imigrantes, mascarados de super-heróis, bradando a bandeira da Palestina inundando as ruas parisienses, da margem ao centro. A massa de estudantes percebe que a escola concentra as contradições prometidas pelo sistema capitalista: a preparação dos jovens, por meio dos estudos, para o futuro. Tudo isso é esbarrado pela disparidade na distribuição de recursos, na qualidade do ensino, e na permanência estudantil que assegura melhores condições para prosseguir na formação. Consequentemente, essa discrepância se atenua na transição do ensino superior para o mercado de trabalho. A seleção no acesso à universidade, as incertezas quanto à continuidade e permanência da formação, e a perspectiva de empregos precarizados colocam em xeque a ideia de que o esforço individual seria suficiente para garantir a ascensão social. É uma expressão da crise do capitalismo e imperialismo que é incapaz, debilitado e se recusa a garantir o bem-estar social, como era prometido anteriormente, e que hoje se encontra uma geração que enxerga os limites desse horizonte de perspectivas, concomitantemente, é cada vez mais difícil para esses governos conterem a revolta operária-estudantil.
A composição social dessa mobilização também é fundamental para compreender o seu peso político. Que “liberdade, igualdade, fraternidade” podem ser proclamadas em um mundo no qual o acesso à educação, ao trabalho e à moradia permanecem enraizadamente desiguais? Que “liberdade, igualdade, fraternidade” podem ser proclamadas num Estado que, em nome da (des)ordem, utiliza de suas instituições “democráticas” e burguesas para reprimir e criminalizar a classe trabalhadora e imigrante que contestam as condições precárias que vivem? É justamente nesse cenário que a fraternidade entre estudantes e trabalhadores ultrapassa o significado equivocado que proclama a República. Quando os trabalhadores se unem aos estudantes, inclusive fazendo barreiras humanas para protegê-los da repressão, a solidariedade deixa de ter um sentido apenas moral e assume uma estratégia política. Ao reconhecer que uma mesma classe é explorada e oprimida, e que atravessa as relações sociais, tomar isso como luta política comum que reivindica a independência de classe, a aliança operária-estudantil mostra o caminho para enfrentar o imperialismo.
Todos esses paradoxos também se expressam no âmbito cultural. Em “O Ódio”, a vivência dos jovens periféricos é intrinsecamente ligada às suas formas de expressão, de seus vínculos territoriais e de uma identidade construída a partir de uma sociedade que frequentemente os trata como estrangeiros. A personalidades de Vinz, Hubert e Saïd, com suas particularidades culturais e de origem, se mesclam numa incessante resistência de se sentirem pertencentes à uma França marcada pela imigração e que, no entanto, dá essa ilusão de integração através da cultura, a exemplo da seleção francesa majoritariamente imigrante, mas que na realidade, são tidos como estranhos. É uma denúncia entre a imagem que a França constrói e projeta de si mesma, e a realidade vivida por setores da juventude. Nos protestos atuais, a ocupação das escolas e das ruas constitui uma maneira de apropriação coletiva de ocupar seus espaços, ter a autonomia de definir o seu futuro e mudar as condições que são impostas às suas vidas, subvertendo e radicalizando à esquerda a subjetividade desses jovens que levam às ruas as bandeiras de seus países, como Argélia e Marrocos. Dessa forma, se faz necessário resgatar o ideário revolucionário do Maio de 1968 que estabeleceu uma greve geral com milhões de estudantes e trabalhadores, que contestavam esse mesmo sistema nefasto que investiu demasiadamente na militarização, na Guerra do Vietnã e no racismo, que ocuparam fábricas e dispunham de uma forte disposição de luta para combater as grandes repressões.
Desse modo, vale compreender como a repressão estatal foi lapidada historicamente. Em 1968, diante das manifestações estudantis e operárias, e com a radicalização da greve geral, o Estado recorreu a técnicas coercitivas de repressão e controle das massas numa conjuntura anti-imperialista. Décadas depois, com a produção do filme, percebe-se como a violência policial contra os moradores das periferias faz parte de uma experiência cotidiana marcada pela hostilidade, segregação urbana, pelo racismo, pela xenofobia e pela desconfiança com essas instituições. Em 2026, a polícia se mostra cada vez mais repressiva e a mando do capitalismo para matar setores oprimidos. No dia 8 de outubro, com a ocupação da Bastilha pelos estudantes, houve o uso de canhões de água, gás lacrimogêneo e granadas para a dispersão, bem como a detenção de milhares de jovens. Tudo isso em meio ao processo de investida militar não só na França – que apoiou sistematicamente o Estado genocida de Israel – mas em toda a Europa, com mobilizações em diversos países, especialmente na Alemanha, contra a militarização e o alistamento obrigatório.
Mais uma vez, o sistema capitalista escancara as suas contradições. Frente à uma geração descrente do discurso meritocrático, que exige permanência estudantil, maiores contratações docentes, melhores condições de ensino e de trabalho, aumento salarial de professores e contra a militarização, o Estado mobiliza seus aparatos de coerção para tentar conter as manifestações. Fica nítido o real interesse e prioridade do Estado, que diz que não há verbas para o ensino, deixando cada vez mais precário a educação e o trabalho e que, paralelamente, dá as respostas nas ruas com o investimento em instituições contra a classe trabalhadora, a serviço de reprimi-los.
Para que essa força continue se radicalizando, é necessário que as centrais sindicais e as entidades estudantis assumam a tarefa de impulsionar e fortalecer organismos de auto-organização desde a base, realizando assembleias, comitês e espaços de deliberação nas escolas, universidades e locais de trabalho, instrumentalizando a classe trabalhadora a decidir os rumos da luta, de maneira independente ao governo e que sirva de multiplicador estratégico de força militante. Essa articulação deve ser parte de um programa que supere a conciliação de classes, que abre mão dos direitos e demandas dos trabalhadores, e que combata o imperialismo e à extrema-direita, apostando na força operária-estudantil.
É no espírito do mote “até aqui tudo bem” que vemos a tentativa de naturalizar um desfecho que segue imprevisível, mas que parte por representar que a repressão pode dispersar uma manifestação, desocupar, ou prender, mas que jamais irá enterrar a revolta que levou as massas às ruas. A fortaleza indomável da aliança operária-estudantil que está revirando a Europa e a América Latina de cabeça para baixo serve de exemplo e inspiração para seguir lutando, num momento em que o Estado quer o rearmamento enquanto desarma o futuro de jovens e trabalhadores, que mostra que não está condenado a ser administrado por aqueles que exploram e oprimem. Como Saïd escreve no muro de Paris: “o mundo é nosso”.
Fonte: Esquerda Diário