Doação de medula óssea: quando a ciência vence, mas o cadastro não
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Artigo de Opinião
Publicado em 19 de Setembro de 2026 às 11:00
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O dia 19 de setembro marca o Dia Mundial do Doador de Medula Óssea. Para quem está do lado de fora dos hospitais, a data pode soar apenas como mais uma lembrança no calendário da saúde.
Mas, para milhares de pacientes diagnosticados com leucemias, linfomas, aplasia severa de medula ou imunodeficiências graves, essa data guarda o peso exato de uma palavra: sobrevivência. O transplante de medula óssea, para muitos desses pacientes, é a única chance real de cura.
Do ponto de vista da infraestrutura, o Brasil tem motivos para se orgulhar. O Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) é o terceiro maior banco de doadores voluntários do mundo, reunindo milhões de brasileiros dispostos a salvar vidas.
No entanto, por trás desse número expressivo, esconde-se um paradoxo clínico profundo e desafiador: ter milhões de cadastrados não garante, por si só, que encontraremos o doador ideal para quem precisa hoje.
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A explicação para isso reside na própria essência cultural e biológica do povo brasileiro: a fantástica miscigenação. A compatibilidade para o transplante de medula óssea depende do sistema HLA (Human Leukocyte Antigen), um complexo conjunto de genes.
Enquanto em países geneticamente mais homogêneos a busca por um doador compatível pode ser mais direta, no Brasil a mistura intensa de origens indígenas, africanas, europeias e asiáticas gerou uma enorme diversidade genética.
A chance de encontrar um doador 100% compatível fora da família pode chegar a uma em cada cem mil.
Encontrar essa agulha no palheiro é um triunfo da ciência e da logística médica. Contudo, é justamente no momento em que a ciência vence que nos deparamos com um gargalo silencioso e dramático: o cadastro desatualizado.
Infelizmente, não é incomum, nos hemocentros, vivenciar a angústia de localizar um doador geneticamente compatível no sistema, emitir o alerta de urgência e descobrir que o número de telefone mudou, o e-mail não existe mais ou o endereço cadastrado ficou no passado.
O cidadão que, tomado por uma onda de solidariedade, colheu uma pequena amostra de sangue anos atrás para entrar no banco, muitas vezes se esquece de que aquela assinatura foi um compromisso vivo.
Um cadastro no Redome deve ser entendido como a assinatura de uma espécie de pacto de prontidão. Quem cadastra precisa ter o compromisso de manter seus dados de contato atualizados. Uma vida pode depender de um número de telefone.
Desmistificar o processo de doação também é urgente. Cadastrar-se é extremamente simples: basta uma coleta de sangue de poucos mililitros para a análise do perfil genético. E, se você for convocado no futuro, a doação em si é um procedimento seguro, moderno, frequentemente realizado por aférese (coleta semelhante à doação de sangue convencional, na qual apenas as células-tronco são filtradas) e cuja medula se regenera completamente em poucas semanas.
A compatibilidade genética é um verdadeiro milagre da biologia, mas manter a ponte entre doador e receptor é um ato contínuo de cidadania. Não podemos deixar que a oportunidade de salvar uma vida se perca por pequenos descuidos.
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