Que se faça justiça a Alexandre de Moraes

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Por Hora do PovoHora do Povo

DAVI MOLINARI

A nação foi levada a colocar uma lupa sobre o contrato milionário da esposa de Alexandre de Moraes, a advogada Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master. Mas antes de entrar no mérito, me permita sua excelência um aparte (para ficar no espírito processual): ninguém parou para perguntar se ela tem as qualificações profissionais necessárias para um contrato desse tamanho. O patriarcado preferiu se antecipar e julgar que a advogada seria apenas um acessório do sistema, uma ponte para que o próprio Moraes pudesse advogar nas sombras para Daniel Vorcaro.

É desnecessário detalhar o quão escandaloso é um ministro da Suprema Corte tomar partido com uma parte suspeita. Mesmo que seus colegas tenham também empenhado os escritórios de advocacia dos filhos e os próprios institutos de ensino em serviços prestados ao Master, dado o foco no contrato do escritório da esposa de Moraes, só posso concluir que se trata ou de um fetiche machista ou de uma pura retaliação pela prisão de Jair Bolsonaro.

A imprensa brasileira é curiosa. Não no sentido positivo de trabalhar pesado na apuração de grandes reportagens, mas na estranha habilidade de usar pesos e medidas bem diferentes para crimes iguais (ou simplesmente de não se interessar em revelar os escândalos piores e centrais). Não, fiquem tranquilos, não me refiro à Faixa de Gaza.

Entremos no mérito doméstico. Os criminosos estão na engrenagem do Banco Master. Daniel Vorcaro e João Carlos Mansur montaram uma operação em que fabricaram (sim, se você souber a receita, também pode fabricar) bilhões de reais em dinheiro de mentira. Pela lógica da sobrevivência, a quadrilha, sabendo dos limites curtos da fraude, correu para usar esse dinheiro fictício e comprar proteção, distribuir favores, agradar e satisfazer os fetiches de uma classe média alta (e de ricos de berço, também) com constrangedores costumes coloniais, sem identidade própria e que tenta se proteger da abismal diferença social do país acumulando saldo e taxa de juros. O dinheiro funciona como ração para alimentar esses senhores tão carentes de princípios.

A pergunta que a jornalista Malu Gaspar não faz (seja por falta de interesse ou por falta de fontes) é a seguinte: quem garante que outras fábricas de dinheiro não estão operando soltas, neste momento, nas brechas da CVM e do mercado de capitais? Mansur chegou a controlar 320 bilhões de reais (o equivalente a quatro bancos Master) oferecendo justamente o serviço que nossa elite mais busca: o esconde-esconde patrimonial. Mansur era o Mágico dos Negócios para fazer o patrimônio de qualquer origem desaparecer do radar da Receita Federal, do sócio passado para trás ou do “Conje” (para citar outro juiz com sérios problemas de gramática e de ética).

Esse esquema só veio à tona com a Operação Compliance Zero da Polícia Federal, chefiada pelo delegado Andrei Rodrigues (o mesmo que André Mendonça dispensou e que Flávio Dino tratou de recolocar no cargo). É leviano, no momento, acusar que o delegado Andrei fumou do charuto ou se o Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, bebeu do uísque de Vorcaro. O que sabemos com certeza é que a própria TV Globo foi patrocinada pelo Master. Sendo assim, onde é que nós vamos parar?

Eu farei (por motivos opostos) como a Globo, o Estadão e a Folha de S.Paulo e me absterei de tomar o tempo do leitor em descrever os truques de outras fábricas de dinheiro que conhecemos na história recente: Lojas Americanas, Banco Panamericano, Casas Bahia, Carrefour, Assaí e tantas outras. Fica para a próxima.

Mas deixo aqui uma pulga atrás da orelha: quem nunca conheceu a história de um juiz com um parente ou um compadre advogando exatamente em causas sob sua jurisdição? Um amigo advogado costumava dar risada ao dizer que o bom profissional conhece as leis, mas o profissional brilhante conhece os juízes.

E aí voltamos à pergunta: onde vamos parar? A reforma do Judiciário seria o caminho, mas a nossa elite estaria disposta a abrir mão dos atalhos do jeitinho processual que livra os motoristas de porsches e prende os pobres? Temo que, sem uma força política real a favor do povo, qualquer tentativa atual de reforma só piore a casa inteira. Que o digam os 300 mil presos que mofam na cadeia no Brasil à espera de um simples julgamento.

Sejamos justos com Xandão. Ele se tornou o grande símbolo do esquema judiciário não exatamente pelo contrato da esposa, mas por ter feito a coisa certa quando as instituições precisaram dele. Ele deveria saber que pagaria um preço por isso, mas talvez tenha acreditado que a elite nunca chegaria a tanto. Esqueceu-se de que lida com uma elite colonial que não guarda lealdade a ninguém e que exige sempre o sacrifício de um bezerro para expiar os próprios pecados (incluindo a busca por uma anistia de prêmio).

Se a intenção é mudar essa engrenagem, o povo precisará estar infinitamente mais organizado e forte do que está hoje. Como não estamos lá, sigamos o rito nacional: muita indignação no X e a tranquila certeza de que, na semana que vem, outro especialista incensado pela imprensa surgirá fabricando dinheiro para ocupar a nossa doce hipocrisia.

Publicado originalmente em Meedito. Enviado pelo autor.

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Fonte: Hora do Povo

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