Direito à cidade: por que ouvir os movimentos sociais é essencial nas eleições

0

Por RedaçãoJornal Opção

Direito à cidade: por que ouvir os movimentos sociais é essencial nas eleições

Pertencer a uma cidade é uma experiência diversa: passa por momentos prazerosos, mas também por tensões. A cidade é um espaço político onde se expressam vontades coletivas e, ao mesmo tempo, um espaço de solidariedade, apropriação e lutas cotidianas. Diante daquilo que reconhecemos como injusto (a retirada de árvores, a precarização do transporte publico ou a descaracterização cultural de um edifício), a população se organiza, resiste e cria diferentes formas de participar da construção e da gestão da cidade. Todos nós, querendo ou não, somos agentes urbanos e políticos, movidos pelo desejo de construir e habitar um espaço melhor.

Viver na cidade implica ressignificar lugares constantemente. Resistir às ameaças que impedem que habitemos plenamente nossos espaços vai além da luta pela distribuição equitativa de recursos. Defender nossos modos de habitar é exercer o direito à cidade; é reivindicar o direito de participar das decisões que definem seus caminhos e suas transformações. Antigos e novos movimentos sociais constroem e reimaginam as formas pelas quais compreendemos a cidade, reivindicando direitos a partir do local, por meio de processos e experiências singulares de luta. Questionar as formas hegemônicas de produção da cidade significa reconhecer e defender diferentes formas de habitá-la e dela se apropriar, não para que uma prevaleça sobre a outra, mas para que possam coexistir e construir, coletivamente, outros modos de viver a cidade.

A inclusão nunca foi tão necessária quanto agora. Vivemos tempos em que determinados discursos tendem a se apresentar como universais, reduzindo a cidade a um objeto aparentemente imutável, orientado sobretudo pelo consumo. Nesse contexto, as resistências urbanas também podem ser compreendidas como práticas voltadas à construção de um futuro no qual diferentes ideias possam ser ouvidas e que cada utopia possa encontrar espaço para se alimentar por meio das ações realizadas no presente.

As instituições responsáveis pela gestão urbana precisam abrir espaço para esses chamados de resistência. Os movimentos sociais constituem um contrapeso necessário a um planejamento urbano cada vez mais atravessado pelo individualismo e pela mercantilização da cidade. Afinal, a verdadeira valorização dos nossos espaços vai muito além do preço que podem alcançar no mercado. Construir consensos exige escutar todas as partes interessadas e reconhecer que diferentes perspectivas devem ter lugar nos processos de tomada de decisão. Divergências e sinergias são necessárias para a construção democrática da cidade. O que não pode ser naturalizado é a anulação da voz de grupos organizados da população, pois isso significa produzir cidades meramente consumíveis, e não cidades verdadeiramente habitáveis.

Cabe-nos, portanto, perguntar: nestas eleições, nossos candidatos não apenas escutam os movimentos sociais, mas também atribuem peso às suas demandas? Suas propostas reconhecem que a cidade não é apenas um espaço a ser administrado, mas um território construído cotidianamente por aqueles que a vivem, a transformam e dela se apropriam? 

Mais do que incluir vozes nos processos decisórios, é preciso reconhecer que essas vozes já fazem parte da cidade e que, sem elas, qualquer projeto de futuro urbano permanecerá incompleto.

Aura Luz Fernandez Abarca

Doutoranda em Geografia pelo IESA-UFG. Mestre em Desenvolvimento e Planejamento Territorial pela PUC-GO. Engenheira Ambiental e pesquisadora no Núcleo Goiânia do Observatório das Metrópoles. Artesã e imigrante.

Aura Luz Fernandez Abarca | Foto:Arquivo

Leia também: O mito do desenvolvimento de Goiânia

O post Direito à cidade: por que ouvir os movimentos sociais é essencial nas eleições apareceu primeiro em Jornal Opção.

Fonte: Jornal Opção

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *