STJ afasta demolição de edifício em área de proteção ambiental: o que a decisão representa para a construção civil?
Por Vinicius Abrantes — Consultor Jurídico
O Superior Tribunal de Justiça disponibilizou, em 17 de agosto de 2026, acórdão que traz uma importante reflexão para o setor da construção civil: diante de uma edificação considerada ambientalmente irregular, a demolição deve ser sempre a consequência necessária?
MagnificAo julgar caso envolvendo edifício residencial construído em área considerada de preservação permanente (APP) de restinga, a 2ª Turma do STJ entendeu, por maioria, que a demolição integral seria desproporcional diante das circunstâncias concretas. Em seu lugar, determinou a conversão da obrigação de demolir em perdas e danos adicionais.
O julgamento merece atenção de incorporadores, construtores, investidores e proprietários porque enfrenta situação especialmente sensível no desenvolvimento imobiliário: empreendimentos implantados com respaldo do poder público e do próprio Judiciário que, anos depois, têm sua regularidade ambiental questionada.
Empreendimento que não nasceu à margem da lei
O edifício não foi construído clandestinamente, nem em descumprimento deliberado de ordem administrativa ou judicial. Segundo o voto vencedor, a obra foi executada com base em norma municipal de 2014, que autorizava edificações de seis pavimentos no local, e sua continuidade contou com respaldo judicial.
O imóvel estava ainda separado da praia e da vegetação remanescente por uma avenida existente desde a década de 1970, em área cercada por condomínios de estrutura semelhante. As 24 unidades residenciais haviam sido regularmente comercializadas a terceiros de boa-fé.
SpaccaUm aspecto recebeu particular destaque no voto do ministro Afrânio Vilela: o próprio STJ havia, em três oportunidades anteriores, permitido a continuidade das obras. Para o ministro, essas decisões influenciaram a conduta dos envolvidos e contribuíram para a percepção de legalidade do empreendimento, inclusive perante os compradores.
O dado é relevante porque empreendimentos imobiliários são planejados, licenciados, financiados, construídos e comercializados ao longo de anos. Empresas, bancos, investidores e compradores tomam decisões econômicas importantes confiando em normas, autorizações administrativas e decisões judiciais. Quando, ao final dessa trajetória, o próprio Estado passa a questionar aquilo que anteriormente admitiu, surge uma tensão inevitável entre proteção ambiental e segurança jurídica.
STJ não aplicou teoria do fato consumado
A decisão não significa que uma construção ambientalmente irregular possa permanecer simplesmente porque foi concluída. O STJ afastou expressamente a discussão sobre a chamada teoria do fato consumado, cuja aplicação em matéria ambiental é vedada pela Súmula 613. O simples decurso do tempo, portanto, não transforma uma situação ilícita em regular. A questão enfrentada pelo tribunal foi outra: a proporcionalidade e a efetividade da ordem de demolição diante das circunstâncias concretas do empreendimento.
Para o ministro Afrânio Vilela, os principais atingidos pela demolição seriam os terceiros adquirentes de boa-fé, que provavelmente recorreriam ao Judiciário para impedir a desocupação de seus imóveis. O resultado poderia ser a multiplicação de novas disputas judiciais e, paradoxalmente, o retardamento da própria reparação ambiental.
Nesse contexto, a corte considerou relevante a inexistência de descumprimento deliberado pelo empreendedor, a atuação anterior do Poder Público e do Judiciário e a situação jurídica dos atuais proprietários.
Por que a demolição foi convertida em indenização?
O voto vencedor acrescenta um fundamento importante ao debate: a conversão da obrigação não decorreu apenas de uma ponderação abstrata de interesses.
O ministro considerou existir, naquele caso, inviabilidade material e normativa da tutela específica, diante da conclusão e da comercialização regular do empreendimento a terceiros de boa-fé. A solução encontra fundamento no artigo 499 do Código de Processo Civil, que permite a conversão da obrigação de fazer em perdas e danos quando a tutela específica ou a obtenção de resultado prático equivalente se tornam inviáveis. O voto cita, inclusive, precedentes do próprio STJ admitindo essa conversão, inclusive em matéria ambiental. Isso não significou afastar a responsabilidade ambiental da incorporadora.
O tribunal determinou que seja apurado, em liquidação de sentença, o custo integral de um projeto de demolição — desde o planejamento técnico até a limpeza da área e a destinação ambientalmente adequada dos resíduos. Esse montante deverá ser acrescido à indenização anteriormente fixada, correspondente a um terço do lucro obtido com o empreendimento. Há ainda um detalhe importante: a parcela adicional não deverá ser simplesmente destinada a um fundo ambiental genérico. O voto determinou sua aplicação em projetos vinculados especificamente ao ecossistema local da Praia de Palmas, buscando aproximar a compensação financeira, tanto quanto possível, da recuperação in loco e in natura do ambiente afetado. Não houve, portanto, um “perdão” ambiental. Houve uma alteração na forma de reparação.
Precedente relevante para a construção civil
A decisão não autoriza genericamente a substituição de demolições por indenizações. O próprio voto enfatiza o caráter excepcional da solução e as peculiaridades daquele caso.
Ainda assim, o julgamento traz uma sinalização importante: mesmo em matéria ambiental, a definição da medida reparatória pode exigir a consideração da proporcionalidade, da efetividade da tutela, da conduta do empreendedor, da atuação do poder público e da situação de terceiros de boa-fé.Para o setor imobiliário, o acórdão r eforça ainda outra lição: a segurança de um empreendimento começa muito antes da obra.
Licenciamento ambiental e urbanístico, análise de APPs, restrições de ocupação, legislação municipal e autorizações dos órgãos competentes precisam ser tratados como elementos estruturantes do projeto. Igualmente importante é preservar a rastreabilidade de sua trajetória regulatória. Pareceres técnicos, licenças, manifestações dos órgãos públicos, estudos ambientais e decisões judiciais podem, anos depois, ser fundamentais para demonstrar a boa-fé do empreendedor e a confiança depositada nos atos estatais.
No caso analisado, justamente a ausência de descumprimento deliberado, o respaldo administrativo, legal e judicial e a existência de adquirentes de boa-fé foram determinantes para afastar a solução mais extrema. O acórdão foi proferido pela 2ª Turma do STJ no AgInt no AREsp nº 2.110.631/SC, com julgamento concluído em 4 de agosto de 2026 e disponibilização em 17 de agosto. O voto vencedor foi apresentado pelo ministro Afrânio Vilela.
Ainda é cedo para saber qual será a extensão desse entendimento em outros processos. Mas o precedente acrescenta um elemento relevante à jurisprudência ambiental: a obrigação de reparar permanece, porém a definição de como essa reparação deve ocorrer não pode ser dissociada, no caso concreto, da proporcionalidade, da efetividade e da segurança jurídica criada pela própria atuação estatal.
O post STJ afasta demolição de edifício em área de proteção ambiental: o que a decisão representa para a construção civil? apareceu primeiro em Consultor Jurídico.
Fonte: Consultor Jurídico