Conectados demais, juntos de menos
Por fernandaestima — Fundação Perseu Abramo
Nunca estivemos tão conectados. Talvez por isso mesmo estejamos aprendendo a falar, conviver e estar juntos de outra maneira.
Há uma questão incômoda no centro da sociedade digital sobre a hiperconectividade que está produzindo uma sociabilidade diferente, talvez mais distante. Um estudo publicado em 2026 na revista Perspectives on Psychological Science traz um dado provocador. A partir de 22 estudos com 2.197 participantes, os pesquisadores estimaram que, entre 2005 e 2019, as pessoas passaram a falar, em média, 338 palavras a menos por dia a cada ano. Entre os mais jovens, a redução estimada foi ainda maior. No período analisado, a queda chegou a aproximadamente 28%. O estudo não prova que smartphones, redes sociais ou inteligência artificial sejam responsáveis pelo fenômeno, mas registra uma tendência que merece atenção.
A questão não é contar palavras. É perguntar o que elas representam: encontros, escuta, vínculos, afeto, conflito, cooperação e pertencimento. Estamos vivendo uma mudança histórica semelhante, em dimensão, à passagem da sociedade agrária para a industrial.
Na sociedade agrária, o tempo era marcado pelos ciclos da natureza. A industrialização criou o relógio da fábrica, disciplinando a vida pelo trabalho, pelos horários e pela produtividade. Agora surge um novo relógio social, digital e algorítmico. Ele não apenas organiza o trabalho, mas também o consumo, o lazer, a informação e a atenção.
O novo relógio não apenas mede o tempo. Ele disputa o que fazemos com ele.
A sociedade de serviços hiperconectada permite realizar quase tudo sem presença física. Trabalhamos remotamente, estudamos por telas, compramos por aplicativos, recebemos comida em casa, chamamos transporte pelo celular e acessamos entretenimento a qualquer hora. A distância perdeu importância. Mas a presença pode estar perdendo espaço.
A sociedade industrial reunia fisicamente milhões de pessoas em fábricas, escritórios, escolas, lojas, praças, bares, cinemas e transportes coletivos. Nem todos os encontros eram desejados, mas a convivência fazia parte da vida cotidiana. Hoje podemos falar com alguém do outro lado do mundo sem conversar com quem está ao nosso lado. Podemos ter centenas de contatos e poucas relações próximas.
Daí nasce um paradoxo a respeito da comunicação ampliada não significar necessariamente mais sociabilidade. Uma mensagem não é uma conversa, pois requer o olhar, silêncio, improvisação, emoção e surpresa. O outro pergunta, interrompe, discorda, muda de assunto. Não controlamos inteiramente o resultado. É justamente essa imprevisibilidade que ajuda a construir relações.
A lógica algorítmica funciona de outra maneira. Ela procura prever comportamentos, selecionar conteúdos e manter nossa atenção. As plataformas aprendem nossas preferências e oferecem aquilo que provavelmente nos fará permanecer conectados. A inteligência artificial amplia essa capacidade ao produzir textos, imagens, vozes e respostas.
Isso traz enormes possibilidades, mas também uma questão nova sobre quanto delegamos às máquinas parcelas crescentes da comunicação, da escrita, da memória e da elaboração intelectual. E também sobre como preservamos as capacidades humanas desenvolvidas pela interação com outras pessoas.
A resposta não está em rejeitar a tecnologia. A inteligência artificial pode ampliar o acesso ao conhecimento, facilitar a comunicação e liberar tempo de tarefas repetitivas. O problema surge quando a ferramenta se transforma em ambiente permanente da existência.
Não estamos apenas usando sistemas digitais. Estamos vivendo dentro deles, uma vez que o trabalho, o consumo, a informação e parte da sociabilidade passam pelas plataformas. A atenção tornou-se um recurso econômico. A disputa já não ocorre apenas pelo nosso tempo de trabalho, mas por cada intervalo disponível.
Uma notificação interrompe uma conversa. Uma espera é preenchida por um vídeo. Uma dúvida recebe resposta instantânea. O silêncio parece precisar ser ocupado. Aos poucos, podemos trocar concentração por fragmentação e convivência por conexão permanente.
Algumas antigas “ineficiências”, entretanto, tinham função social. A espera permitia conversar. O deslocamento produzia encontros. A praça reunia desconhecidos. A loja exigia contato. O escritório criava relações espontâneas. Ao eliminar essas situações, a tecnologia aumenta a eficiência, mas pode também reduzir oportunidades de convivência.
Por isso, precisamos começar a olhar para indicadores que a economia digital quase não mede: o tempo dedicado às relações, densidade dos vínculos, participação comunitária, confiança, cooperação e qualidade da presença.
O dado das 338 palavras não anuncia o desaparecimento da conversa. É um sinal para investigar uma transformação maior. Talvez não estejamos apenas substituindo palavras faladas por mensagens. Talvez estejamos perdendo os espaços sociais onde conversar fazia sentido.
O desafio do futuro não é escolher entre o mundo analógico e o digital. É construir uma sociedade digital mais humana. Isso significa usar a tecnologia para liberar tempo, e não apenas capturar atenção. Também para incorporar convivência, escuta e cooperação à educação; desenhar cidades, escolas, locais de trabalho e serviços que preservem espaços de encontro e utilizar a inteligência artificial para ampliar capacidades humanas, não para substituir automaticamente relações humanas.
Uma sociedade hiperconectada precisa produzir deliberadamente lugares e momentos para as pessoas se encontrarem. O novo relógio social da sociedade de serviços hiperconectada da era digital não precisa ser apenas o tempo da aceleração. Pode ser também um instrumento para devolver tempo à vida.
Talvez o verdadeiro luxo do futuro não seja estar conectado o tempo todo, mas ter tempo para estar presente. A grande inovação da era digital poderá ser justamente a de utilizar máquinas cada vez mais inteligentes para recuperar tempo para aquilo que nenhuma máquina deveria substituir como conversar, cuidar, cooperar, criar vínculos e viver juntos.
Marcio Pochmann é presidente do IBGE, ex-presidente da Fundação Perseu Abramo
Referências bibliográficas
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.
MEHL, Matthias R. et al. Are women really more talkative than men? Science, v. 317, n. 5834, p. 82, 2007. DOI: 10.1126/science.1139940.
PFEIFER, Valeria A.; MEHL, Matthias R. Sliding into silence? We are speaking 300 daily words fewer every year. Perspectives on Psychological Science, 2026. DOI: 10.1177/17456916261425131.
SRNICEK, Nick. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2017.
TURKLE, Sherry. Reclaiming conversation: the power of talk in a digital age. New York: Penguin Press, 2015.
ZUBOFF, Shoshana. The age of surveillance capitalism. New York: PublicAffairs, 2019.
Fonte: Fundação Perseu Abramo