Pai desaparecido, filho assassinado: polícia mantém casos sem respostas em MG
Por Paulo Batistella — Ponte
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Pai desaparecido, filho assassinado: polícia mantém casos sem respostas em MG
22/09/2026 3h09 Paulo Batistella
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Câmera de segurança filmou morte de Osmar Júnior, que, dias antes, citou a policiais os nomes de pessoas que o vinham ameaçando. Pai da vítima está desaparecido desde 2019, sob suspeita de que tenha sido morto por PMs
Resumo
- A Polícia Civil de Minas Gerais ainda não esclareceu o assassinato de Osmar Fernandes Pereira de Azevedo Júnior, de 21 anos, morto a tiros há um ano e quatro meses em Juatuba, na região metropolitana de Belo Horizonte.
- O crime foi filmado por uma câmera de segurança. Dias antes, Osmar havia informado a policiais militares os nomes de dois traficantes que o ameaçavam de morte.
- A família tentava conseguir havia mais de seis meses sua internação compulsória. A Justiça autorizou o procedimento dois dias antes do assassinato, mas a prefeitura contestou a decisão e não a cumpriu.
- O pai de Osmar está desaparecido desde 2019, em outro caso que continua sem esclarecimento e no qual a família suspeita do envolvimento de policiais militares.
A Polícia Civil de Minas Gerais mantém sem esclarecimento há mais de um ano e quatro meses o assassinato de um jovem de 21 anos ocorrido em Juatuba (MG), município da região metropolitana de Belo Horizonte. A vítima do caso é Osmar Fernandes Pereira de Azevedo Júnior.
O jovem assassinado tem o mesmo nome do pai, que, cerca de seis anos antes, passou a ser dado como desaparecido em um caso mantido também sem respostas — e no qual, conforme mostrou a Ponte, há suspeita de que tenha ocorrido um assassinato cometido por policiais militares.
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Osmar Júnior foi morto na noite de 28 de abril de 2025. O assassinato foi filmado por uma câmera de segurança, conforme mostrou uma reportagem da TV Record à época: duas pessoas surgiram em uma moto, e a que estava na garupa, ao descer, passou a atirar contra a vítima em uma via pública.
O corpo de Osmar foi encontrado no bairro Cidade Satélite. Ele tinha dez perfurações causadas por tiros, sendo seis delas nas costas. Uma perícia na cena do crime ainda encontrou nove cápsulas de munição calibre 380 e um celular da vítima. Não houve prisões em flagrante.
Procurada pela Ponte, a Polícia Civil de Minas Gerais limitou-se a dizer que um inquérito policial do caso está prestes a ser concluído. Ela não esclareceu, no entanto, ainda que questionada por duas vezes, quais diligências já foram adotadas e o que falta ser realizado.
Já o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) respondeu que sequer foi oficialmente comunicado do assassinato pela Polícia Civil. “Somente após esse recebimento formal é que o Ministério Público realiza a análise jurídica dos fatos”, escreveu o órgão, ao justificar não ter tomado providências no caso.
Vítima citou nomes de suspeitos que o ameaçavam dias antes
Dias antes de ter sido morto, Osmar havia relatado à Polícia Civil que vinha sofrendo ameaças de morte. Na ocasião, ele havia sido preso em flagrante por ter furtado dois celulares de um taxista. Ao rastrear os aparelhos, os policiais chegaram ao jovem em Betim, município vizinho a Juatuba.
Osmar foi conduzido, então, à 1ª Delegacia de Polícia Civil de Juatuba, onde confessou o crime e alegou ter recebido um ultimato de traficantes do bairro em que morava para pagar uma dívida. Até o fim daquele dia, ele teria de pagar ao menos R$ 1 mil de R$ 7 mil que cobravam dele.
O jovem acabou solto já no dia seguinte, após a Justiça entender, em uma audiência de custódia, que não caberia uma prisão preventiva, por se tratar de um réu primário que havia cometido um delito sem emprego de violência.
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Osmar voltou a cometer um crime patrimonial, no entanto, poucos dias depois, na noite de 27 de abril de 2025, véspera da data em que foi assassinado. Nessa nova ocorrência, ele roubou à mão armada o celular de um motorista por aplicativo.
No registro do roubo, consta que policiais sabiam que Osmar era o autor, mas alegaram não tê-lo localizado. O jovem foi morto por volta das 19h30 do dia seguinte. No boletim de ocorrência do assassinato, consta que Osmar havia dito a policiais militares, na ocasião daquele furto do dia 17, que estava sendo ameaçado por traficantes chamados Davi e Ricardo.
Família tentou internação de jovem por mais de seis meses
As ameaças a Osmar já ocorriam desde o ano anterior, tanto por parte de traficantes quanto de comerciantes do bairro. O jovem era dependente químico desde os 14 anos, principalmente de crack e cocaína, e passou a cometer furtos para manter o vício. Em função disso, ele começou a ser espancado na vizinhança, inclusive ao ser acusado de crimes que não cometeu.
Em 9 de outubro de 2024, após sofrer um desses espancamentos, ocasião em que teve uma mão quebrada, ele precisou ser socorrido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A Polícia Militar foi ao local, mas não registrou ocorrência.
No dia seguinte, 10 de outubro, uma familiar pediu então ao Ministério Público local que reivindicasse junto à Justiça a internação compulsória de Osmar, pelo medo de que fosse morto na rua — o jovem também não aceitava tratamento, por entender não estar doente.
O MPMG só ajuizou uma ação, ainda assim, mais de seis meses depois, em 24 de abril de 2025, quatro dias antes de Osmar ter sido morto. No dia 26, a Justiça atendeu ao pedido, determinando que a prefeitura de Juatuba providenciasse a internação compulsória com urgência.
Na tarde do dia 28, no entanto, horas antes do assassinato de Osmar, o município contestou a decisão judicial, sem atendê-la, argumentando, entre outras coisas, que o pedido deveria ser repassado ao Estado de Minas Gerais, dada a repartição de competências do Sistema Único de Saúde (SUS).
Pai de jovem assassinado foi vítima de provável desaparecimento forçado
Conforme mostrou a Ponte anteriormente, a família de Osmar Júnior ainda lidou nos últimos anos com o desaparecimento do pai dele, em um caso também marcado pelo descaso do Estado.
O pai saiu de uma casa da família na periferia de Belo Horizonte ao meio-dia de 20 de março de 2019, quando ainda tinha 34 anos, dizendo que visitaria amigos em Juatuba, e não foi mais visto desde então. À época, ele estava em uma saída temporária do sistema prisional. Em maio de 2004, havia sido preso em flagrante e depois acabou condenado a mais de 20 anos de reclusão.
Dependente químico, Osmar pai havia passado a cometer furtos e roubos à época para manter o vício e já havia sido pego com uma arma de fogo irregular em 2003. No ano seguinte, em uma tentativa frustrada de assalto a um posto de combustíveis em Belo Horizonte, acabou entrando em confronto com um policial militar: um colega também assaltante foi morto a tiros, enquanto Osmar matou o agente.
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Desde então, a família dele vivia sob ameaça. A mãe do homem desaparecido, avó de Osmar Júnior, precisou buscar diversos órgãos públicos apenas para registrar a ocorrência e chegou a ouvir de uma delegada que, se um cachorro encontrasse a ossada do filho, ela a entregaria para a familiar.
A suspeita da família era de que ele tenha sido vítima de um desaparecimento forçado — ou seja, não sumiu voluntariamente ou em razão de algum acidente, mas por ter sido vítima de alguma violência, por parte de policiais neste caso. Oficialmente, no entanto, o caso segue sem esclarecimento.
Leia a íntegra do que diz a Polícia Civil de Minas Gerais
A Polícia Civil de Minas Gerais informa que foi instaurado inquérito e realizadas diligências para apuração do fato registrado no REDS 2025-019610694-001. Informa ainda que o Inquérito está em fase de conclusão para que seja encaminhado à Justiça.
Leia a íntegra do que diz o Ministério Público de Minas Gerais
Até o presente momento, o Inquérito Policial mencionado ainda não foi formalmente encaminhado a este órgão ministerial. Esclarecemos que a Comarca de Juatuba possui Promotoria de Justiça Única. Desse modo, não há uma promotoria especializada ou específica indicada para o caso; o procedimento será distribuído e acompanhado pela Promotora de Justiça titular da referida comarca tão logo os autos sejam recebidos.
Ademais, cumpre registrar que, diante da ocorrência de um crime, as forças de segurança pública — a Polícia Militar e a Polícia Judiciária (Polícia Civil) — são prontamente acionadas para o registro e início das apurações. A Autoridade Policial competente conduz as investigações criminais necessárias e, uma vez concluído o relatório correspondente, envia o respectivo Inquérito Policial ao Ministério Público.
Somente após esse recebimento formal é que o Ministério Público realiza a análise jurídica dos fatos. A partir dessa avaliação, o Promotor de Justiça poderá:
- Requerer novas diligências investigatórias à Polícia Civil, caso entenda necessário para a elucidação do fato;
- Oferecer denúncia, dando início à ação penal pública; ou
- Manifestar-se pelo arquivamento do caso, se constatada a ausência de elementos mínimos de autoria ou materialidade.
Como os autos do procedimento investigativo ainda tramitam no âmbito da Polícia Civil e não ingressaram no MPMG, as informações específicas sobre o andamento atualizado das apurações e as diligências pendentes devem ser solicitadas diretamente à assessoria daquela instituição policial.
Fonte: Ponte