Busca pelo voto da terceira via favorece Lula contra extremismo de Bolsonaro
Por Marco Damiani — Brasil 247
Um velho e nem sempre simpático personagem eleitoral voltou com força e antes da hora nesta eleição: o voto útil. E dessa vez não veio pelo lado da esquerda nem na perspectiva do segundo turno, mas com efeito imediato em nome de resolver a disputa. A 11 dias das urnas, quem já está pedindo o voto útil para si próprio, no campo da centro-direita, é o candidato do PL. “Eu faço um apelo a você que não me tem como primeira opção. Considere votar em Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Vamos resolver essa parada já no primeiro turno”, aponta. A contrapartida é o acirramento dos ataques contra ele pelos candidatos que têm as suas bases atingidas, Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema.
No quadro em que todas as principais pesquisas apontam um sólido empate técnico em primeiro e segundo turnos, a discussão precipitada do voto útil em abordagem sobre a chamada terceira via é inevitável. Vai abrir o espaço necessário para a vitória o candidato que mais colher resultados além de seus domínios tradicionais. De modo inverso, com a extrema-direita procurando atrair um público mais amplo, o debate do voto útil em nome da democracia e da soberania do País precisa também ser antecipado.
As garantias que a candidatura Lula proporciona à estabilidade institucional do País são argumentos poderosos para o convencimento de eleitores que hoje não se declaram pela reeleição. É um erro imaginar que os votos dos que buscam uma terceira via entre o presidente e seu principal adversário são todos favas contadas para a extrema-direita. Esses eleitores precisam ser impactados por mensagens que mostrem a candidatura Lula como representante de todos os brasileiros que não desejam colocar a democracia em risco nem aceitam abrir mão da sua autodeterminação. Há muito mais pontos de intersecção entre o eleitorado tradicional de Lula e o contingente que se divide no campo democrático e, portanto, não bolsonarista.
A pesquisa Quaest mais recente indica que 35% dos votos declarados para Caiado em primeiro turno podem migrar para Lula no prolongamento da eleição. Lula foi um ótimo presidente para o agronegócio, o que aumenta essa chance de migração. Há espaço também para as bandeiras nacionalistas do presidente, em contraposição ao entreguismo explícito de Bolsonaro aos Estados Unidos, sensibilizarem boa parte do eleitorado dos outros nomes da centro-direita. Quem busca em Renan Santos um voto de protesto não concorda, necessariamente, com a vassalagem de Flávio a Donald Trump, como faz o filho de Jair Bolsonaro. O eleitorado feminino de Augusto Cury é, sem dúvida, mais sensível aos programas de proteção à mulher simbolizados em Lula do que ao machismo violento reunido em torno de Flávio.
Essas e outras diferenças gritantes na qualidade das duas candidaturas dão ao presidente, bem mais do que ao outro, discursos capazes de furar bolhas de rejeição. Eles precisam ser praticados, o que é bem mais do que apenas atacar as iniquidades da candidatura bolsonarista. Os resultados da pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada hoje, com 45,8% para Lula e 43,4% de Flávio, em primeiro turno, e dramáticos 47,7% x 47,4%, respectivamente, no segundo escrutínio, mostram que buscar o voto útil, além das fronteiras da esquerda, é imperioso para a vitória da democracia.
Fonte: Brasil 247