Auditoria aponta rombo de R$ 400 milhões na Cedae Saúde e dívida de R$ 140 mil de Cláudio Castro com convênio hospitalar
Por Paulo Emilio — Brasil 247
247 – Uma investigação contratada pelo governo do Rio de Janeiro identificou indícios de irregularidades financeiras superiores a R$ 400 milhões na Caixa de Assistência dos Empregados da Cedae (Cedae Saúde). O levantamento também revelou que o ex-governador Cláudio Castro (PL) utilizou o plano médico da entidade sem possuir vínculo empregatício com a companhia e acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 141 mil.
Segundo o jornal O Globo, a auditoria apontou ainda pagamentos de R$ 95 milhões a quatro empresas relacionadas ao ex-presidente da Cedae Saúde, Eric Frederik Gualberto, por meio de uma estrutura empresarial offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. O relatório será encaminhado ao Ministério Público, que poderá aprofundar as investigações e avaliar eventuais medidas judiciais.
Cláudio Castro utilizou plano por 547 dias sem ser funcionário
De acordo com a atual administração da Cedae Saúde, Castro foi registrado como empregado da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), embora nunca tenha trabalhado na estatal.
O ex-governador permaneceu vinculado ao plano durante 547 dias, entre 1º de fevereiro de 2025 e 1º de agosto de 2026. Sua esposa e seus dois filhos também foram incluídos como dependentes, com acesso à cobertura médica oferecida pela entidade.
Durante esse período, não foram realizados descontos correspondentes ao benefício. A atual direção identificou a inadimplência e decidiu cancelar o plano em agosto, após aproximadamente um ano e meio sem pagamentos.
Posteriormente, Castro foi notificado a quitar o débito, calculado em cerca de R$ 141 mil.
A auditoria examinou registros de dez anos e, segundo a administração atual, não encontrou casos de outros governadores que tenham utilizado o serviço nas mesmas condições.
Ex-governador afirma que não solicitou adesão e promete pagar dívida
Em nota encaminhada ao jornal, Cláudio Castro negou ter solicitado sua inclusão no plano de assistência médica.
Segundo o ex-governador, a diretoria da Cedae informou, na ocasião, que ele tinha direito ao benefício e providenciou a entrega da carteirinha para utilização.
A manifestação também contesta a ausência de comunicação sobre as mensalidades devidas.
“Durante todo o período, nunca recebeu boleto, cobrança mensal ou qualquer notificação de débito”, afirma a nota divulgada por Castro.
O ex-governador declarou que somente tomou conhecimento da dívida cerca de uma semana antes da publicação da reportagem, quando recebeu pelos Correios a primeira cobrança, no valor aproximado de R$ 141 mil.
Ele informou que pagará a quantia exigida e ressaltou que jamais se recusou a cumprir suas obrigações financeiras. Também afirmou que a cobertura havia sido cancelada sem comunicação prévia.
Auditoria identifica R$ 95 milhões pagos a empresas ligadas a ex-presidente
A investigação também encontrou indícios de favorecimento empresarial durante a administração de Eric Frederik Gualberto, que comandava a Cedae Saúde antes da mudança de gestão.
Segundo os auditores, quatro empresas vinculadas ao ex-presidente do órgão receberam, juntas, R$ 95 milhões durante sua passagem pela entidade.
As companhias fariam parte de uma estrutura offshore ligada a Gualberto nas Ilhas Virgens Britânicas, território frequentemente utilizado para a constituição de empresas internacionais.
A existência de uma offshore não configura, isoladamente, irregularidade. No entanto, as relações identificadas entre as empresas beneficiadas e a antiga presidência passaram a ser examinadas diante das suspeitas sobre a destinação dos recursos.
O trabalho foi conduzido pela consultoria Grant Thornton, com acompanhamento do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e da Cedae.
A apuração identificou possíveis problemas em pagamentos por serviços e indícios de favorecimento de fornecedores ligados à administração anterior.
Os resultados serão submetidos ao Ministério Público para análise da eventual existência de ilícitos e definição das providências cabíveis.
Documentos contábeis foram apagados após período investigado
A investigação teve início depois da exoneração de Eric Frederik Gualberto, em 23 de junho de 2026.
Ao assumir o comando da entidade, a nova diretoria constatou a exclusão de arquivos com informações sobre fornecedores e registros contábeis referentes ao período de dezembro de 2023 a abril de 2026.
Os documentos eram considerados relevantes para a reconstrução das operações financeiras realizadas durante a gestão anterior.
Apesar da exclusão dos arquivos, os auditores conseguiram recuperar os dados e examinar as movimentações registradas.
A recuperação permitiu identificar operações suspeitas e relações entre fornecedores e integrantes da antiga administração, ampliando o alcance da investigação.
Repasses à Cedae Saúde caíram 70% após mudança de gestão
Outro aspecto que chamou a atenção dos responsáveis pela auditoria foi a diferença entre os recursos transferidos anteriormente à entidade e os valores atualmente necessários para seu funcionamento.
Na gestão passada, os repasses realizados pela Diretoria Financeira e de Relações com Investidores da Cedae alcançavam aproximadamente R$ 20 milhões mensais.
Com a mudança administrativa, os valores foram reduzidos para cerca de R$ 6 milhões por mês, uma queda de aproximadamente 70%.
Segundo a atual direção, os recursos anteriormente destinados ao custeio da assistência médica eram muito superiores ao montante necessário para manter as atividades.
A diferença passou a integrar os questionamentos sobre a administração financeira e a aplicação dos valores transferidos.
Embora a redução dos repasses não comprove, por si só, a existência de desvios, ela constitui um dos elementos considerados na análise das possíveis irregularidades.
Entidade atende 17 mil pessoas e terá relatório enviado ao MP
Criada em 1988, a Cedae Saúde administra a assistência médica de aproximadamente 17 mil beneficiários, entre funcionários ativos, aposentados, pensionistas e dependentes.
Além da cobertura assistencial, a instituição desenvolve atividades de saúde ocupacional e segurança do trabalho, distribui medicamentos de uso contínuo e realiza exames periódicos e admissionais.
A auditoria foi realizada no contexto do Decreto 50.254/2026, assinado pelo governador em exercício do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto.
A norma determinou a revisão de contratos celebrados por secretarias, autarquias e empresas públicas estaduais, ampliando os mecanismos de fiscalização sobre a utilização de recursos.
Com o encaminhamento do relatório ao Ministério Público, os indícios identificados poderão ser submetidos a novas diligências para esclarecer a extensão das irregularidades, apurar eventuais responsabilidades e avaliar a possibilidade de recuperação dos valores.
Fonte: Brasil 247