MPF busca acordo com mineradora para reparação socioambiental a comunidades quilombolas de Paracatu (MG)

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Por Ana Paula Cavalcanti — Combate Racismo Ambiental

Foto: José Cruz/Agência Brasil

MPF busca acordo com mineradora para reparação socioambiental a comunidades quilombolas de Paracatu (MG)

Comunidades centenárias lutam há mais de 17 anos por medidas reparadoras de danos causados por atividades de empresa multinacional

Procuradoria Regional da República da 6ª Região

O Ministério Público Federal (MPF) atua para firmar um acordo com a multinacional canadense Kinross Gold Corporation voltado à reparação de danos socioambientais, territoriais e culturais causados às comunidades quilombolas de Machadinho, Amaros e São Domingos, em Paracatu (MG), no Noroeste de Minas Gerais.

A negociação, conduzida pelo procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio em ação civil pública no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), estrutura-se em três eixos principais: reconhecimento oficial das comunidades, garantia dos direitos territoriais e definição de critérios para indenizações e reassentamentos. A iniciativa busca reparar violações registradas ao longo de décadas de exploração minerária na Mina Morro do Ouro.

Para acompanhar a realidade enfrentada pelas populações atingidas, o MPF visitou as instalações da mineradora e promoveu reuniões com representantes das três comunidades quilombolas. A presença no local permitiu verificar a dimensão dos impactos decorrentes da atividade de mineração.

Um dos encontros reuniu cerca de 300 integrantes do Quilombo do Machadinho. Durante a reunião, os moradores relembraram a trajetória de líderes e familiares que lutaram historicamente pelos direitos e pelo território quilombola, mas faleceram sem ver a reparação dos danos.

“O Ministério Público Federal está empenhado em construir uma solução que resgate a dignidade e garanta a reparação integral a essas populações que tiveram seus territórios invadidos e seus modos de vida fragmentados. A busca por um acordo não significa flexibilizar exigências, mas assegurar com celeridade o direito à terra, à justa indenização e à segurança para quem sofre os diários e graves impactos da mineração”, afirma o procurador regional da República José Adércio Sampaio, responsável pela condução da vistoria na região.

Atividade e receitas – A unidade da Kinross em Paracatu opera a maior mina de ouro a céu aberto do Brasil, sendo responsável por cerca de 22% da produção nacional do metal, com extração anual situada entre 17 e 18,6 toneladas. A operação exige o processamento de grandes volumes de rocha, já que o teor aurífero local é de 0,4 grama por tonelada extraída.

Em 2025, a empresa registrou lucro líquido global de US$ 2,39 bilhões (cerca de R$ 14,73 bilhões), dos quais quase 30% foram gerados pela unidade mineira. Ao mesmo tempo, áreas de ocupação ancestral das comunidades tradicionais foram despossuídas e incorporadas aos empreendimentos da mineradora ao longo dos anos.

Estrutura de rejeitos – Dos mais de dois mil hectares em processo de demarcação pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para o Quilombo do Machadinho, mais da metade estão ocupados pela mineradora, sendo a maior parte do território situada sob a Barragem de Eustáquio. A estrutura possui capacidade licenciada para 750 milhões de metros cúbicos (m³) de rejeitos — volume mais de 60 vezes superior ao da barragem que se rompeu em Brumadinho (MG) em 2019, que armazenava cerca de 12 milhões de m³.

Somada à Barragem Santo Antônio (483 milhões de m³), o complexo acumula 1,2 bilhão de metros cúbicos de rejeitos. A Barragem de Eustáquio já foi objeto de inquérito civil para apuração de trincas e processos erosivos em seu aterro. Além disso, análises da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) identificaram a presença de arsênio e metais pesados em cursos d’água e no lençol freático da região.

Comunidades atingidas – As três comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Cultural Palmares apresentam quadros diversos de impacto territorial:

• Quilombo do Machadinho (Procedimento Incra nº 54710.003688/2005-70): comunidade totalmente desterritorializada, que teve grande parte das terras sobreposta pela estrutura de rejeitos. A degradação ambiental, a perda de nascentes e o avanço das pilhas de estéril inviabilizaram a agricultura familiar e manifestações culturais tradicionais. A maioria das famílias deixou a área e se dispersou por municípios de Minas Gerais, Goiás e pelo Distrito Federal.

• Quilombo dos Amaros (Procedimentos Incra nº 54170.008897/2003-48 e nº 54170.007241/2009-01): comunidade totalmente desterritorializada, com mais de 500 famílias dispersas em decorrência da expansão das operações da Barragem de Santo Antônio e da atuação de outros posseiros.

• Quilombo de São Domingos (Procedimentos Incra nº 54.170.000059/2004-15, nº 54170.007247/2009 e nº 01420.001299/2010-11): abriga cerca de 186 famílias (aproximadamente mil pessoas) e está situado entre a cava da mina e a área urbana de Paracatu.

Impactos cotidianos – Moradores de São Domingos e de bairros vizinhos, como Alto da Colina e Bela Vista II, relatam transtornos diários decorrentes das atividades de mineração. As detonações com explosivos realizadas no período da tarde provocam tremores e fissuras na estrutura das residências.
A poeira gerada pelas operações atinge as moradias e causa problemas respiratórios na população local. Avaliações técnicas e perícias promovidas pelo MPF detectaram níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores e no material particulado suspenso no ar nas proximidades da mina.

Reparação e direitos – Paralelamente às negociações conduzidas pelo MPF, lideranças locais ajuizaram ações civis públicas que pleiteiam R$ 1 bilhão em reparações morais e socioambientais. Entre as reivindicações das comunidades estão a demarcação e a titulação das terras pelo Incra, a reparação por danos à saúde e ao patrimônio e o estabelecimento de um plano de fechamento de mina e descaracterização de barragens.

A Procuradoria Regional da República da 6ª Região (PRR6) é a unidade do MPF que atua na ação civil pública perante o TRF6, segunda instância da Justiça Federal com jurisdição sobre o estado de Minas Gerais.

Ação Civil Pública nº 0001628-72.2009.4.01.3806
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Fonte: Combate Racismo Ambiental

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