Artigo | Uma nova maioria que pode redefinir o poder
Por Catarina Duarte — Ponte
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A menos de um mês das eleições, quando mais de 158 milhões de brasileiras e brasileiros estarão aptos a escolher presidente, governadores, senadores e deputados, uma questão volta ao centro da disputa política: quem são os grupos capazes de formar as maiorias eleitorais no país? Os resultados das últimas décadas apontam para uma transformação importante nessa composição. Historicamente sub-representadas nos espaços institucionais, as mulheres negras têm hoje um peso central no eleitorado brasileiro e, particularmente, na base eleitoral da centro-esquerda.
Em 2022, raça e gênero estiveram entre os marcadores mais relevantes para compreender a distribuição dos votos que levaram Luiz Inácio Lula da Silva novamente à Presidência. Entre as mulheres pretas, a probabilidade prevista de voto em Lula chegou a 80% entre aquelas com ensino fundamental e a 71% entre as que tinham ensino médio ou superior. Entre as pardas, os percentuais foram de 63% e 51%, respectivamente.
No livro “O País Dividido”, o cientista político Jairo Nicolau identifica ainda as mulheres pretas como o grupo de maior coesão eleitoral entre os segmentos sociodemográficos analisados nas últimas seis eleições. Segundo ele, é o segmento “mais leal ao partido [PT], independentemente da escolaridade”. A análise revela que as mulheres negras se tornaram uma base eleitoral fundamental da centro-esquerda brasileira. Compreender a força política desse grupo será fundamental para quem quiser disputar os próximos capítulos eleitorais.
Às vésperas de uma nova eleição nacional, esses números ajudam a colocar outra questão: se as mulheres negras têm participação cada vez mais relevante na formação das maiorias eleitorais, em que medida essa força se traduz em representação e participação na formulação dos projetos políticos que disputam o país? A distância ainda é grande. As mulheres negras representam cerca de 28% da população brasileira, mas permanecem entre os grupos menos representados nos espaços institucionais de poder.
Há quase um século, quando essa presença era ainda mais restrita, Almerinda Gama* já colocava essa questão diante das urnas. Em depoimento sobre a histórica jornada ao sufrágio feminino em 1932, Almerinda lembrava da eleição que considerava a mais relevante de sua trajetória por ter aberto as portas do voto às mulheres. Seu sorriso ao depositar a cédula na urna, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte em 1933, simbolizou a confiança de que a conquista seria o passo definitivo para as mulheres ingressarem nos espaços onde os destinos da pátria eram decididos.
Nas eleições gerais de outubro de 1934, segura do novo direito alcançado, a advogada e sindicalista concorreu a uma vaga de deputada federal pelo Distrito Federal. Levou para o seu programa político os eixos centrais de sua vida pública e privada: defendeu a independência econômica da mulher, a estabilidade e a expansão de direitos do trabalhador e o ensino obrigatório e gratuito a todos os brasileiros em todos os graus.
Sentimos profunda identificação com o tom de vanguarda e com o otimismo de uma mulher trabalhadora e negra que desafiava um parlamento que ainda via as mulheres como intrusas na “República dos homens”, como descreveu a pesquisadora Cibele Tenório no livro “Almerinda Gama: A sufragista negra’’. Almerinda não se elegeu, mas a coragem dela e de outras sufragistas deu o pontapé para um percurso de transformação das estruturas de poder do Brasil.
Ao longo das décadas seguintes, a luta de Almerinda foi continuada por gerações de mulheres, sobretudo mulheres negras que fizeram da própria experiência de desigualdade uma agenda política: como na organização das trabalhadoras domésticas, nas articulações do movimento negro e na mobilização pela Constituinte de 1988. Mulheres como Benedita da Silva, Jurema Batista, Lélia Gonzalez, Marina Silva levaram essas demandas para dentro das instituições, enquanto movimentos de mulheres negras, de favelas e associações de bairro pressionavam por direitos e políticas públicas.
Essa trajetória foi criando uma compreensão sobre o lugar das mulheres negras na política: não apenas como beneficiárias de políticas públicas, mas como sujeitas capazes de formular projetos de sociedade e disputar diretamente os espaços de poder. Em novembro de 2015, 50 mil mulheres negras marcharam em Brasília marcando o início do que muitas consideram uma virada do movimento. A primeira Marcha Nacional de Mulheres Negras aconteceu no segundo mandato de Dilma Rousseff. A carta entregue à presidenta no dia 18 de novembro colocava no centro a disputa por reconhecimento, representação e reforma do sistema político.
A resposta a essa manifestação apareceu nas urnas já no ano seguinte. As eleições de 2016 trouxeram uma nova geração de mulheres negras para o centro da política institucional, com a eleição de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, Áurea Carolina, em Belo Horizonte, e Talíria Petrone, em Niterói.
Suas campanhas expressavam uma forma de fazer política que articulava raça e gênero a agendas de moradia, favela, clima, segurança pública, direitos sociais e direitos da população LGBTQIA+. Eram candidaturas construídas em diálogo com movimentos sociais e com uma nova geração de ativistas negras, muitas delas jovens, universitárias e conectadas ao ciberativismo.
Em 2018, o assassinato político de Marielle Franco interrompeu brutalmente sua trajetória e expôs os riscos enfrentados por mulheres negras que ocupam espaços de poder, mas sua morte também se tornou um marco de mobilização. A resposta à violência política de gênero e raça veio com a multiplicação de candidaturas de mulheres negras em todo o país e com uma eleição marcante no próprio Estado de Marielle: a vitória eleitoral simultânea de três mulheres negras pelo mesmo partido, oriundas de sua equipe, para cadeiras na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Mônica Francisco, Dani Monteiro e Renata Souza foram eleitas pelo PSOL em 2018 e integravam a equipe de Marielle Franco na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.
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A presença das mulheres no Congresso Nacional passou de 15% para 18% das pessoas eleitas entre 2018 e 2022. Esse crescimento também veio acompanhado de uma maior participação das mulheres negras: no mesmo período, elas passaram de 2% para 5% das pessoas eleitas para o Congresso. O avanço ainda é lento e profundamente desproporcional.
As mulheres representam 51,5% da população brasileira, enquanto as mulheres negras representam cerca de 28%, mas seguem entre os grupos menos representados. Ainda assim, o crescimento importa. Nas eleições municipais de 2024, das quase 80 mil mulheres negras que se candidataram a todos os cargos, 10,9% (4.993 entre pretas e pardas) foram eleitas, mais que o dobro dos 4,5% registrados em 2020.
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Almerinda Gama ficaria ainda mais feliz em saber que, desde 2002, as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro. Nas eleições daquele ano, que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República pela primeira vez, as mulheres já representavam 51% do eleitorado. Naquele momento, porém, essa maioria ainda não se refletia na preferência por Lula: ele era mais votado entre os homens. Vinte anos depois, o cenário havia mudado. As mulheres se tornaram sua principal base eleitoral.
Durante as últimas décadas, a centro-esquerda se organizou em torno do sujeito político trabalhador urbano masculino, figura que encontrou em Lula sua expressão mais poderosa. Se esse foi o grupo que sustentou a construção da centro-esquerda brasileira no início dos anos 2000 e a própria eleição de Lula em 2002, em torno de quem a centro-esquerda deveria construir seu próximo projeto de país?
As mulheres negras já ocupam um lugar decisivo na formação das maiorias eleitorais. Estamos diante de um grupo que articula raça, gênero, território, classe, religião e uma agenda própria de direitos, a exemplo do que foi apresentado na segunda Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em novembro de 2025, com mais de 200 mil mulheres negras marchando na Esplanada dos Ministérios, por Reparação e Bem-Viver.
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Reconhecer essa força significa colocá-la no centro do projeto político que disputará o Brasil nas próximas décadas. Há uma dívida que atravessa quase um século de política brasileira: o projeto de país que se apresenta para o futuro ainda precisa responder às demandas que Almerinda Gama colocou em jogo quando decidiu disputar o poder em 1934.
*Almerinda Farias Gama foi uma das primeiras mulheres a ocupar o debate político institucional no Brasil. Foi datilógrafa, advogada, jornalista, sindicalista, poeta e musicista, além de uma das vozes do movimento sufragista brasileiro. Mulher negra, nascida em Maceió, tornou-se uma figura central na Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, onde atuou como porta-voz, articuladora e responsável por aproximar a pauta feminista da imprensa. Fonte: “Almerinda Gama: A sufragista negra” (Todavia), de Cibele Tenório.
Roberta Eugênio foi secretária executiva do Ministério da Igualdade Racial até julho de 2025. É advogada formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Coordenou a Pós-Graduação Relações Étnico-Raciais e Gênero Perspectivas críticas e teóricas do direito, pelo CEPED-UERJ, e lecionou na pós-graduação do Instituto de Direito Público (IDP), em Brasília, nos anos de 2023 e 2024. Em sua trajetória profissional também atuou como assessora jurídica parlamentar nas esferas municipal e estadual. É membro do Conselho de Fundadoras do Instituto Alziras, organização na qual integrou a diretoria entre 2021 e 2022. Atua como consultora e desenvolve pesquisas no campo dos marcadores sociais da diferença, raça, gênero e suas interseccionalidades, com enfoque em políticas públicas que contribuam para a superação das desigualdades e violências no Brasil.
Ana Carolina Lourenço é socióloga, mestre pela UERJ, e atua há mais de uma década no setor social na América Latina e no Caribe. Esteve à frente de estratégias e projetos da Fundação Avina no Brasil e do Fondo de Acción Urgente para América Latina y el Caribe (FAU-LAC), além de ter sido Diretora Programática do ICCI, atuando na interseção entre comunicação, clima, democracia e justiça. Em 2018, cofundou o Movimento Mulheres Negras Decidem e é coorganizadora do livro A Radical Imaginação Política das Mulheres Negras Brasileiras. Atualmente, está à frente da criação da Dita Desk, uma nova infraestrutura que conecta pensamento, estratégia, cultura e comunicação para a transformação social.
Marcelle Decothé é diretora de Estratégia e Sustentabilidade da Iniciativa PIPA e cofundadora da NARRA. Mulher negra que trabalha pelo avanço dos direitos humanos, da justiça social, da comunicação política e da igualdade racial e de gênero no Brasil. Tem mais de dez anos de experiência no desenvolvimento e na gestão de projetos, campanhas, pesquisas e iniciativas de defesa de direitos sobre questões relacionadas à favela, justiça racial e políticas públicas. É mestre em Políticas Públicas e Direitos Humanos pela UFRJ.
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Fonte: Ponte