“Ampliaram o estado de exceção na Bolívia para facilitar submissão ao FMI”, afirma Salvatierra

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Por Hora do PovoHora do Povo

Ex-presidente do Senado durante o governo de Evo Morales denuncia que o regime policialesco de Rodrigo Paz atenta contra a segurança, a soberania e o patrimônio público, agravando as condições de pobreza da população

“Está claro que ampliaram o estado de exceção na Bolívia – decretado em 20 de junho – para facilitar a política de submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o que é desprezível”, afirmou Adriana Salvatierra, ex-presidente do Senado durante o governo de Evo Morales e ex-dirigente do Movimento ao Socialismo (MAS).

Em entrevista exclusiva, Salvatierra sustenta que o retrocesso adotado pelo Congresso na noite de quarta-feira (16) “guarda relação com considerações de caráter geopolítico”. “O estado de exceção é sempre um risco, tomando em conta que o governo de Rodrigo Paz dispõe de tempo para fortalecer militar e policialmente a repressão. Mas o fato é que não vai devolver ao governo algo perdido em tempo recorde: sua legitimidade. É a confissão de que não tem a legitimidade necessária para enfrentar os ajustes estruturais que se propõem como programa de governo”, assinalou.

Para a cientista política, “o estado de exceção não só vai ser ampliado por 90 dias, mas também vai ser estendido no próximo ano, porque o acordo com o FMI indica que em 2027 começará sem subvenção aos combustíveis, à energia nem aos alimentos”. Então, explicou, “isso vai gerar uma onda de protestos sociais numa temporada muito sensível que é, precisamente, a colheita dos produtos”.

Vale lembrar, ressaltou a dirigente, que “será um ano marcado por mudanças climáticas, pelo fenômeno do El Niño, pelo aumento do preço dos insumos agropecuários em nível global e pelo aumento do preço do combustível em nível local, o que provocará profundas tensões na Bolívia”. O fato, destacou, é que “não vai existir estado de exceção, por mais repressivo que seja, que possa sustentar um povo faminto e um país em crise”. “Então, é uma medida desesperada do governo para tentar sustentar com violência uma legitimidade que foi esvaziada”, acrescentou.

Segundo Salvatierra, “ao eliminar o Ministério da Planificação do Desenvolvimento e subordinar o investimento público a indicadores macroeconômicos dos acordos assinados com o FMI nos próximos quatro anos, o governo evidencia a modalidade do contrato firmado”. “O crédito é condicionado ao cumprimento de indicadores quantitativos que têm data, ano, prazo”, denunciou.

“É PREOCUPANTE A CONDICIONALIDADE DOS DESEMBOLSOS”

Para a líder social, o que mais “preocupa nisso é a condicionalidade dos desembolsos e algo que não está escrito, mas sim profundamente difundido, que abre ou fecha a possibilidade de apelar a outros fundos multilaterais”. “Entre 2006 e 2019, a Bolívia não adquiriu crédito com o FMI durante o governo de Evo Morales; até mesmo a gestão de Luis Arce (2020-2025) não adquiriu formalmente um crédito com o FMI, mas apelava a outros organismos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), Banco Mundial e Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata). Hoje, esses fundos multilaterais se alinham ao cumprimento desses indicadores macroeconômicos que exige o FMI, e isso sim é perigoso, porque, se não cumprirmos esses indicadores – como corte de investimentos e de salários –, vamos enfrentar, seja o governo que seja, um cerco financeiro”, explicou.

Eleita aos 29 anos, a mais jovem a presidir o Senado, Adriana Salvatierra resgatou a importância do investimento público, “prioridade no governo de Evo”, para o fortalecimento da infraestrutura, o desenvolvimento do país e a geração de empregos.

Neste momento de submissão à oligarquia e à especulação, protestou, “o que mais afeta é, precisamente, a falta de movimento econômico gerada pela elevação das taxas de juros dos bancos privados, que freia a construção em projetos produtivos, em créditos de moradia social e amplia essa brecha cambial, fazendo o país perder o controle dos preços do mercado interno”. Então, advertiu, “esses elementos contribuem para que a economia boliviana, que é altamente mercantilizada e muito frágil em sua natureza pela importação de produtos, entre em um colapso acelerado”. O resultado dos indicadores está escancarado, frisou: “a Fundação Jubileu aponta metade da população em condições de pobreza”. 

Na avaliação de Salvatierra, a unidade do campo popular vai acontecer na luta e na resistência às atuais medidas neoliberais. “A unidade vai vir da luta social. Quando os companheiros se encontram na estrada defendendo o mesmo, quando se encontram nas avenidas marchando pelo mesmo, a recuperação desse tecido social vai ser produto da luta. E vai se dar em torno de uma oferta de horizonte de país e isso acho que temos que terminar de delimitá-lo”, disse.

“SOBERANIA, DEMOCRATIZAÇÃO DA RIQUEZA E ANTI-IMPERIALISMO”

“Há clareza em torno de princípios básicos como a soberania, a democratização da riqueza e o anti-imperialismo, propostas que sejam construídas e legitimadas socialmente em termos eleitorais, como foi em seu momento a nacionalização dos hidrocarbonetos, a Assembleia Constituinte, a nova Constituição Política do Estado e o Estado Plurinacional. Acredito na capacidade de rearticular o movimento social na luta em torno não somente de princípios, mas de uma agenda política que motive as pessoas”, realçou.

A recente prisão do assessor argentino Fernando Cerimedo no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra quando buscava fugir do país, após mandar assassinar sua ex-companheira, Nadia Beller, grávida, “foi a demonstração mais clara de que a polarização política que viveram nossos países não obedece somente a fatores internos”, declarou.

Na compreensão de Adriana Salvatierra, “há uma articulação geopolítica atrás da busca da polarização da sociedade”. “E essa polarização política, casualmente, em nossa região, de forma articulada, produziu ou gerou governos que têm um caráter histriônico e profundamente submisso aos Estados Unidos. Isso é o principal que, em termos latino-americanos, se pode falar sobre o caso Cerimedo”, indica.

“A polarização política não era somente uma discussão interna, mas uma estratégia dos Estados Unidos para alinhar governos em termos eleitorais. É uma estratégia para dirimir, eleitoralmente, cenários políticos. O que faz com que toda essa polarização seja produto também das guerras híbridas, que guardam relação com a batalha comunicacional, psicológica, etc.”, compreende a dirigente.

Outro ponto que chama a atenção, alertou Salvatierra, “é a degeneração da estratégia geopolítica” que não vem somente para ganhar eleições e alinhar governos com Washington, mas para desmantelar a estrutura pública em conformidade com a orientação privatista e desnacionalizante. No caso boliviano, exemplificou, há uma manipulação criminosa “a partir de contratos para a compra, venda e importação de combustíveis, de mineração e, provavelmente, de narcotráfico”.

Diante deste quadro, a combatente vê que as eleições presidenciais no Brasil neste ano e em 2027 na Argentina são “elementos centrais para a economia e a política, pois são os dois maiores países da região e podem ser um divisor de águas, ajudando a quebrar a estratégia de controle geopolítico estadunidense”.

Sobre a importância da reeleição de Lula, Salvatierra acredita que o Brasil está caminhando no rumo certo, “enfrentando desafios no marco de suas possibilidades, com as ferramentas com as quais conta para fortalecer o multilateralismo e encontrar pontos comuns representando um ponto de resistência”. “O que acontece no Brasil será central também para reconfigurar o cenário regional e consolidá-lo”, concluiu.

LEONARDO WEXELL SEVERO

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Fonte: Hora do Povo

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