Alysson Mascaro: “Os que se dizem patriotas são os que vendem o Brasil”

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Por Redação Brasil 247 — Brasil 247

247 – Em uma profunda reflexão sobre a encruzilhada política e existencial do Brasil contemporâneo, o jurista, filósofo e professor Alysson Leandro Mascaro, concedeu uma contundente entrevista presencial aos estúdios da TV 247. Analisando o acirramento eleitoral e a paralisia do Ocidente, Mascaro apontou que a retórica ufanista da extrema-direita serve de biombo ideológico para encobrir a subordinação total do país aos interesses estrangeiros. “Aqueles que se chamam patriotas, no caso do Brasil, são exatamente os que vendem a pátria”, sentenciou.

Para Mascaro, o fenômeno que sustenta a sobrevida da extrema-direita e o empate nas disputas eleitorais não pode ser lido apenas por métricas econômicas ou indicadores estatísticos de curto prazo. Trata-se de uma dinâmica organizada pelos “afetos de ressentimento” gerados pelo próprio capitalismo neoliberal em crise.

“A economia capitalista ocidental estagnou e certas classes médias não avançam mais. As pessoas nascem, vivem, morrem e sentem que não exercem sua plenitude. Esta forma de morrer aos poucos vai gerando inconformidade, um afeto de que o mundo anda errado. E todo aquele que tenta buscar uma alteração social positiva passa a gerar ressentimento”, explicou.

Nesse contexto, segundo o jurista, qualquer ascensão dos mais pobres — como o acesso a viagens de avião ou a entrada dos filhos de trabalhadores na universidade — é percebida pela classe média decadente não como progresso coletivo, mas como perda de distinção e de privilégio. “No ressentimento, os piores seres humanos são os que fazem gozar o ressentido. Coloca-se o pior no poder porque o cidadão médio pensa: ‘se ele é presidente, eu sou melhor do que ele’.”

O patriotismo de fancaria e a entrega do país

Ao aprofundar a contradição entre o discurso ufanista e a prática econômica, Mascaro foi taxativo ao apontar a alienação dos setores que vestem verde e amarelo enquanto promovem o desmonte da soberania.

“Como é que uma pessoa que dá o país para o exterior explorar, que beija a bandeira dos Estados Unidos, vive em paz consigo mesma? Ela precisa fazer um autoengano de que é patriota. Então ela beija a bandeira do Brasil, veste a camisa da CBF e assume uma postura moralista”, afirmou. Ele citou exemplos concretos de desmonte nacional, como a tentativa de entrega da Embraer à norte-americana Boeing e o estrangulamento de projetos industriais e tecnológicos autóctones. “É um patriotismo de fancaria. O moralismo e esse falso patriotismo são formas de tentar compensar a completa paralisia e a incapacidade de construir um projeto nacional soberano.”

A ilusão com o Judiciário e a armadilha institucional

Outro ponto nevrálgico abordado por Mascaro foi a relação de setores progressistas com o Supremo Tribunal Federal (STF). Para o filósofo — autor de Crise e Golpe —, a crise de legitimidade da Suprema Corte não começou nos embates recentes contra o bolsonarismo, mas se arrasta há décadas, passando pelo Mensalão, pela conivência com a Operação Lava Jato e pelo golpe parlamentar contra Dilma Rousseff em 2016.

“Quem é de uma leitura concreta, materialista e marxista, nunca alimentou ilusões com o Judiciário. O Judiciário é um elemento do Estado, e o Estado é uma forma do capital. Não tem como o Judiciário ser emancipador e libertar uma sociedade se ele é, em sua essência, a manutenção das condições do capitalismo”, advertiu.

Mascaro alertou que a esquerda caiu em uma armadilha ao assumir o papel de mera defensora das instituições vigentes: “O mais confortável para a esquerda foi achar que, no momento em que o relógio parado marca a hora que lhe favorece — como ao prender Bolsonaro —, deve-se deixar tudo a cargo da Justiça, em vez de fazer o trabalho de convencimento, de luta social e de consciência política. Quando a esquerda se organiza exclusivamente em termos de defesa das instituições, ela perde a capacidade de insurgir-se contra a própria ordem que perpetua a miséria. É aí que a direita passa por ‘antissistema’ e a esquerda passa por defensora do sistema.”

A disputa moral e a segurança pública

Ao projetar os caminhos para romper a paralisia política, Mascaro rechaçou a tese de que a resposta reside em convergir para um “centro desidratado” — fórmula que combina corte de direitos sociais com o moralismo de conveniência da Avenida Faria Lima. Para ele, é preciso “dobrar a aposta” tanto na economia popular quanto na disputa ética.

O jurista ilustrou sua tese abordando o debate sobre a segurança pública e criticando a abordagem tradicional dos setores liberais: “O policial foi formado sob a fantasia de ser o herói, o corajoso. A esquerda liberal diz que ele não deve matar o pobre, e com razão, mas faz isso de forma abstrata, fazendo com que a corporação se afaste e ache que a esquerda ‘defende bandido’. Eu digo o oposto: bater em pobre na favela é a maior covardia que existe. Coragem de verdade é enfrentar os donos do poder: o banqueiro, o latifundiário, o grande sonegador que lava bilhões, o imperialismo. Quer ser herói? Seja herói enfrentando quem realmente esmaga o povo brasileiro.”

Fonte: Brasil 247

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