Jogo, apostas e religião entram na disputa presidencial para acompanhar o eleitor até as urnas
Por Marco Damiani — Brasil 247
Pelas vias do jogo e da religião, a eleição presidencial ganha em acirramento na reta final da disputa. Sem medo de ser criticado por quebra de contratos, o presidente Lula baixou uma carta ousada ao assinar, ontem, a medida provisória que dá fim completo e imediato às bets no Brasil. O segmento reúne interesses calculados em 100 bilhões de reais anuais pela entidade das operadoras de apostas online, gera cerca de 15 mil empregos diretos e está imbricado com os grandes clubes de futebol do País. Estima-se em 30 milhões de pessoas o público em torno das apostas e jogos a dinheiro.
A justificativa para o fim das bets é a de tapar um buraco por onde tem escorrido boa parte da economia popular, gerando aumento no endividamento das famílias. O movimento do governo está sendo correspondido pela grita das empresas prejudicadas, que se defendem como vítimas de quebra de contratos. Os efeitos eleitorais tendem a ser mistos, mas já está claro que o assunto tem peso relevante para a definição do voto.
Como elemento de impacto ainda mais forte na escolha a ser feita em 4 de outubro, a questão religiosa entrou na reta final da campanha para acompanhar o eleitor até a urna. A partir de posicionamentos nas redes sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em defesa da Igreja Católica, o debate retroagiu para a lembrança de um projeto de lei bolsonarista de cassação do status de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. E escalou para uma nova etapa de reflexão sobre a divisão e o ódio religioso no País.
Por sua altíssima representatividade entre os católicos, o ícone de Nossa Senhora Aparecida é um alvo antigo das correntes mais retrógradas das religiões pentecostais, chamadas genericamente de evangélicas. O bolsonarismo tem nesses núcleos de exploração financeira e propagação de ódio religioso uma de suas bases mais sólidas de apoio. Não apenas os católicos, mas os democratas em geral temem o poder destrutivo dos bolsonaristas contra os grandes símbolos da cultura brasileira. A campanha de ódio contra a imagem de Nossa Senhora, que já começava a ser formulada nas alas mais perigosas do bolsonarismo, se dá neste contexto.
No caldeirão da disputa presidencial, que tinha a corrupção patrocinada pelo banco Master e a crise do STF como ingredientes principais até aqui, jogo e religião entram agora para aumentar a fervura e a tensão sobre o pleito mais dramático desde a redemocratização do País.
Fonte: Brasil 247