Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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O partido extremista de Marine Le Pen cresce no Senado e lidera pesquisas presidenciais

A sete meses da eleição presidencial, marcada para abril próximo, a extrema-direita francesa liderada por Marine Le Pen aumentou a presença no Senado ao amea­lhar 15 assentos na eleição de domingo 27. Em termos absolutos, o número pode não parecer grande coisa, pois estavam em jogo 178 das 248 cadeiras. Proporcionalmente, é, no entanto, um salto gigantesco para o Reunião Nacional, que em 2014 tinha apenas dois senadores e, em 2023, um total de três.

O crescimento de 650% no Senado é acompanhado por outros números espantosos, que demonstram o poder da extrema-direita na França. O partido de Le Pen lidera atualmente as pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial, em um cenário no qual o atual incumbente, o presidente ­Emmanuel Macron, não pode candidatar-se a um terceiro mandato seguido. O Renovação Nacional tem 33% das intenções de voto. O rival mais próximo é Jean-Luc Mélenchon, da legenda de esquerda França Insubmissa, que vem bem atrás, com apenas 15%, na pesquisa BVA-Cesi divulgada na última semana de setembro.

O avanço do Renovação Nacional corresponde a um apelo popular crescente não apenas na França, mas em boa parte de uma Europa na qual os eleitores depositam cada vez mais as esperanças em legendas e líderes radicais, pertencentes a uma extrema-direita que agita as bandeiras do ultranacionalismo e do combate à imigração, combinadas com a promessa difusa de regresso a um passado idealizado, no qual vicejam ideias de família tradicional e repulsa ao ecumenismo religioso.

Além da França, a Alemanha caminha em direção semelhante. Há menos de um mês, o partido de extrema-direita AfD recebeu 43,8% dos votos do 1,7 milhão de eleitores da região da Saxônia-Anhalt. A votação deu à legenda 39 dos 83 assentos no Parlamento regional, o que é suficiente para assegurar maioria confortável, muito próxima das 42 cadeiras requeridas para se ter maioria absoluta.

Esse crescimento se escora no ressentimento de um eleitorado europeu que se tornou paranoico em relação ao risco de perda de identidade, provocada pela mescla racial e religiosa associada à imigração. Para esses, o receituário extremista cai como luva, ao falar em fechamento de fronteiras e deportações. Mas não só. Há também um descontentamento generalizado em relação à situação econômica de uma Europa que sofre com o envelhecimento populacional, o alto custo das políticas de bem-estar social e o baixo crescimento, associado à falta de inovação e competitividade.

A mesma pesquisa BVA-Cesi que mostra Le Pen à frente nas intenções de voto para a Presidência francesa em 2027 revela que o eleitor se diz mais preocupado com a economia (30%) do que com a transição ecológica (13%) ou com questões identitárias (16%). Em todo o país, 71% dizem esperar “uma grande mudança social e política”. Desses, 89% pensam em votar no Reunião Nacional, enquanto 82% preferem a França Insubmissa, o que demonstra a prevalência dos polos mais distantes entre si no espectro ideológico local. Os números mostram ainda um descompasso entre os desejos do eleitor e o discurso dos candidatos mais à esquerda. A dívida pública francesa alcançou 119% do PIB, algo inédito desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Candidatos como Mélenchon terão de encontrar um jeito de enfrentar essa questão sem depor contra a tradição de defesa das políticas sociais e trabalhistas que caracterizam historicamente a social-democracia francesa, e tudo o que se situa à esquerda dela. Para piorar, o país discute há anos uma reforma das aposentadorias, enquanto a população, especialmente a mais jovem, se debate com o preço exorbitante dos aluguéis, sobretudo na capital, Paris, e em grandes centros urbanos. Não é que a extrema-direita tenha respostas satisfatórias para tudo, mas ela parece conseguir catalisar melhor o sentimento generalizado de insatisfação, ressentimento e medo do eleitorado. Em parte, por gozar do privilégio de ser sempre oposição, em parte por se apoiar em algoritmos que privilegiam essa lógica, aumentando exponencialmente o alcance de suas mensagens.

Com o resultado recente, o Reunião Nacional terá 131 representantes nas duas casas parlamentares

Agora, o campo da extrema-direita, liderado por Le Pen, tem um total de 131 parlamentares, entre deputados e senadores. A legenda emplacou ainda 30 deputados no Parlamento Europeu para o mandato de 2024 a 2029, crescimento de 31%. Como ela mesma disse, ao celebrar o resultado da eleição para o Senado, o resultado é histórico e “o avanço é generalizado”.

No caso da eleição senatorial, há ainda um detalhe a considerar: na França, essa escolha não se dá por voto popular em uma eleição direta. Os integrantes do Senado são escolhidos por uma espécie de colégio eleitoral, formado pelos chamados “grandes eleitores”, formado por conselheiros regionais, delegados de conselhos municipais e parlamentares. Muitos analistas consideram, portanto, que o resultado obtido pelo Reunião Nacional nessa disputa revela um enraizamento de seu poder nas estruturas que vai além do mero apoio popular.

No Senado, o Reunião Nacional não estará sozinho, mas coligado com a radicalmente conservadora União da Direita pela República, que curiosamente tem a mesma sigla (UDR) da União Democrática Ruralista, que tanto apoio deu à ditadura no Brasil. A senadora Gironde Edwige Diaz, de 38 anos, vai liderar o bloco.

Em termos nacionais, a extrema-direita teve 34% dos votos no segundo turno da eleição presidencial de 2017 e 41% em 2022. Agora, aparece com 33%, mesmo em um quadro de indefinição sobre quem seria o candidato – Le Pen está às voltas com a Justiça por causa de uma condenação sofrida em um caso que trata de desvio de verba de seu gabinete no Parlamento Europeu. Se ela não concorrer, o mais provável é o jovem Jordan Bardella assumir essa função. Em resposta, a esquerda tenta construir uma candidatura única, que não disperse os votos do setor. A dificuldade é criar convergência em relação a temas complexos, como a questão israelo-palestina e o antissemitismo, que fez essa aliança naufragar internamente nas legislativas de 2024.

No campo macronista, o herdeiro natural seria Gabriel Attal, do partido Renascimento, mas corre por fora o ex-premier Edouard Philippe, hoje no partido Horizontes. Todos esses setores terão apenas sete meses para descobrir como conter a cavalgada de Le Pen e companhia. •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A galope’


João Paulo Charleaux

Jornalista, escritor e analista político. Autor de “As Regras da Guerra” (Zahar). Escreve sobre direito internacional dos conflitos armados e questões humanitárias.

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Fonte: Carta Capital

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