Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Reflexões sobre a pobreza do debate fiscal nos meios de comunicação

O escândalo do Banco Master e de Daniel Vorcaro escancarou a necessidade de investigar a atuação do poder financeiro nas instituições da República e na formação do debate público. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada em março de 2026, a PF investigava possíveis vínculos societários e pagamentos do banqueiro a grupos de mídia para obter conteúdos favoráveis e ataques a concorrentes. As suspeitas, ainda sob apuração naquele momento, evidenciam o risco de converter recursos privados em influência sobre a informação.

Nesse contexto, o fiscalismo precisa ser examinado. Fiscalismo significa colocar a dívida acima dos objetivos de um país, fazendo de sua gestão o critério dominante das decisões de governo. Estratégias de desenvolvimento ficam subordinadas ao espaço fiscal previamente delimitado. Governar exige, porém, estabelecer rumos, coordenar investimentos e construir capacidades. A sustentabilidade das contas integra essa tarefa e depende da economia que essas decisões ajudam a construir.

O fiscalismo restringe investimentos essenciais ao tratar seu impacto imediato nas contas como obstáculo à sua realização. Infraestrutura, ciência, tecnologia e formação profissional exigem recursos e continuidade. Adiá-los ou abandoná-los mantém gargalos e dependências, comprometendo a produção e a geração de renda. Esses custos também precisam entrar na avaliação das escolhas fiscais.

O caso Master evidencia a necessidade de investigar quem financia a informação e como esses interesses influenciam a definição das prioridades nacionais

O efeito distributivo dessas escolhas aparece na própria dívida: obrigação do Estado, ela é patrimônio dos credores e fonte de renda por meio dos juros. Em fevereiro de 2025, instituições financeiras, entidades de previdência e fundos de investimento detinham 76,19% dos 7,18 trilhões de reais da dívida mobiliária federal interna em mercado, segundo o Tesouro Nacional. Essas categorias reúnem beneficiários com patrimônios distintos. A concentração das aplicações financeiras, contudo, favorece os mais ricos: em 2025, alta renda e private reuniam 67,1% dos investimentos de pessoas físicas acompanhados pela Anbima. Esse porcentual abrange diferentes ativos e não mede especificamente a propriedade da dívida pública.

Ao restringir investimentos e serviços enquanto preserva a remuneração financeira, o ajuste tende a proteger quem possui mais patrimônio e a punir quem depende da ação estatal. Cortar políticas sociais, adiar obras ou tributar grandes rendas e patrimônios distribui o esforço entre grupos diferentes. Apresentar essas decisões como exigências exclusivamente técnicas encobre a disputa sobre quem recebe os recursos públicos e quem suporta os custos do ajuste.

Essa disputa também passa pelos meios de comunicação. O Monitoramento da Propriedade da Mídia, lançado pelo ­Intervozes e pela Repórteres Sem Fronteiras em 2017, mapeou 50 veículos ou redes pertencentes a 26 grupos. Análise publicada em janeiro de 2018 identificou negócios financeiros em nove deles. Naquele período, a família proprietária da Record detinha 49% do Banco Renner, o Conglomerado ­Alfa reunia atividades bancárias e a ­Trans­a­mérica, e o Grupo Folha mantinha negócios com o PagSeguro. Globo, Bandeirantes, Record/Universal, RBS e Folha concentravam 26 dos 50 veículos pesquisados.

Outras iniciativas ampliaram esse entrelaçamento. Em 2019, o Grupo Globo criou a Globo Ventures, responsável por investimentos em novos negócios e citada pela fintech Nomad entre seus investidores. No mesmo ano, Globo e ­Stone anunciaram uma sociedade para oferecer serviços de pagamento a pequenos empreendedores, prevendo aporte da Globo equivalente a 461 milhões de reais em mídia. Em 2020, a Easynvest lançou o InvestNews, que declara pertencer ao Grupo Nubank. Estes são alguns exemplos de como negócios financeiros e capacidade de comunicação podem integrar uma mesma estratégia empresarial.

Imagem: Ricardo Stuckert/PR

Esses vínculos sugerem que o debate econômico tem interesses em jogo e pode privilegiar a perspectiva de quem se beneficia dos juros. Quando o gasto social é apresentado sobretudo como ameaça às contas e a remuneração financeira fica fora da disputa política, a visão dos credores ganha precedência. As relações empresariais não comprovam direcionamento editorial, mas justificam investigar a seleção de fontes, pautas e alternativas. O risco é apresentar a proteção da renda financeira como interesse coletivo, sem explicitar a distribuição de seus custos.

O caso Master evidencia a ­necessidade­ de investigar quem financia a informação e como esses interesses influenciam a definição das prioridades nacionais − tomando o cuidado de não generalizar a todos os grupos do setor financeiro as suspeitas em apuração.

A disseminação da informação é um desafio estratégico para o Brasil: produzir conhecimento e formular propostas tem alcance limitado quando sua circulação depende de poucas plataformas. O desafio é ainda mais crítico no contexto das redes sociais. Pensar em disseminação de informação em plataformas controladas por empresas sediadas fora do País e orientadas por critérios pouco transparentes é um debate de interesse público ainda pouco explorado. Esse desafio tende a aprofundar-se com a expansão da Inteligência Artificial. Ao selecionar fontes e formular respostas, seus sistemas podem favorecer determinadas interpretações e omitir outras, sem que o usuário perceba essas escolhas. Construir um debate público plural exige, portanto, ampliar os canais de circulação do conhecimento e exigir transparência sobre os mecanismos que organizam o acesso à informação e influenciam a compreensão dos problemas do País.

As desigualdades e as carências produtivas e sociais do Brasil exigem uma agenda e o estabelecimento de uma discussão pública que articule orçamento, crédito, compras públicas e investimentos em torno de objetivos verificáveis. Discutir a formação do debate público e os efeitos distributivos das escolhas econômicas é central para a construção de uma nação democrática.  •

*Pedro Assumpção Alves é economista e servidor federal especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, atualmente em exercício na Secretaria de Gestão de Pessoas no MGI; José Celso Cardoso Jr. é pesquisador do Ipea e atual secretário de Gestão de Pessoas do MGI.

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Informação precificada’


Pedro Assumpção Alves


José Celso Cardoso Jr.

Doutor em Economia pelo IE-Unicamp, desde 1997 é Técnico de Planejamento e Pesquisa do IPEA e desde 2019 é Presidente da Afipea-Sindical, condição na qual escreve este artigo.

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Fonte: Carta Capital

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