Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Ex-ministro da Saúde

Em programas de governo, qualquer promessa cabe. Mas, na prática, quando tiveram a oportunidade de governar, o que os atuais candidatos fizeram com o SUS?

Em períodos eleitorais, programas de governo são tratados como cartas de intenção. Verbos no futuro se multiplicam: ampliar, fortalecer, garantir, modernizar. Na saúde, entretanto, há uma pergunta indispensável que se impõe para comparar as propostas de Lula e Flávio Bolsonaro: o que cada candidato fez com o SUS quando teve oportunidade?

O programa de Flávio contém medidas que isoladamente parecem consensuais: ampliar a Saúde da Família, corrigir a Tabela SUS, manter a imunização, fortalecer hospitais universitários, expandir a telessaúde, digitalizar o sistema, utilizar Inteligência Artificial para enfrentar filas, recorrer à capacidade ociosa da rede privada e integrar informações dos setores público e privado.

Mas nenhum programa nasce sem história. E nenhuma eleição deveria exigir amnésia do eleitor. Flávio não governou o Brasil. Mas reivindica a continuidade do bolsonarismo que governou o País entre 2019 e 2022. É, portanto, legítimo confrontar suas promessas com a experiência concreta desse campo político.

E o que aconteceu naquele período? O SUS enfrentou a maior emergência sanitária, com sua capacidade de coordenação nacional fragilizada. O TCU constatou que o governo federal não estabeleceu diretrizes estratégicas ou objetivos capazes de orientar, de maneira integrada, o enfrentamento da crise. A CPI da Pandemia no Senado atribuiu responsabilidades relacionadas ao negacionismo diante do vírus e das vacinas ao estímulo a tratamentos sem respaldo científico e ao atraso na aquisição de imunizantes.

Não foi apenas uma sucessão de equívocos administrativos. Estava em disputa uma concepção de Estado e de saúde. A incompetência, a omissão e o desprezo pela vida produziram mais de 700 mil vítimas fatais, e isso não pode ser esquecido.

O SUS não funciona pela ação espontânea de municípios, estados e Distrito Federal. Precisa de cooperação federativa, planejamento, financiamento e coordenação nacional. Precisa de um Ministério da Saúde capaz de exercer autoridade sanitária. E, sobretudo, de ciência.

E nesse ponto a comparação ganha outra dimensão. O programa de Lula parte da defesa explícita do SUS universal e da responsabilidade federal por sua coordenação. Propõe fortalecer a atenção primária como ordenadora do cuidado, consolidar o Mais Médicos, investir prioritariamente na ampliação do acesso à atenção especializada, na transformação digital da saúde e enfrentar desigualdades territoriais. Assume também ciência, inovação, produção nacional de medicamentos e vacinas e soberania sanitária como elementos de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Também, aqui, promessas devem ser confrontadas com realizações. Desde 2023, o governo Lula revisou normas que contrariavam evidências científicas ou haviam sido editadas sem pactuação tripartite. Recuperou e ampliou programas exitosos e recompôs o financiamento federal, com reposição acumulada, entre 2023 e 2026, de 121 bilhões de reais em relação ao governo anterior.

Nenhum desses avanços elimina os problemas reais do SUS. Persistem filas, desigualdades, dificuldades de acesso à atenção especializada, precarização do trabalho e um subfinanciamento histórico que cobra seu preço. Defender o SUS não significa esconder problemas e insuficiências. Significa enfrentá-los sem renunciar ao seu caráter público, universal e solidário.

Por isso, a disputa eleitoral não pode ser reduzida a quem apresenta a lista mais sedutora de promessas. Está em jogo algo muito mais profundo: qual deve ser o papel do Estado diante da vida?

O SUS nasceu da democracia. Transformou saúde em direito de cidadania e dever do Estado. Não é um programa assistencial pobre para pobres ou para os que não podem comprar planos privados.

Programas e promessas importam. Mas memória também. Quando alguém promete fortalecer a vacinação, convém lembrar o que seu campo político fez quando as vacinas se tornaram questão de vida ou morte. Quando promete fortalecer o SUS, como tratou seu financiamento. Quando fala em inovação, que lugar reservou à ciência quando o País mais dela precisou.

Diante de cada promessa feita, cabe uma pergunta muito simples: quando tiveram a oportunidade de governar, o que fizeram com o SUS? A resposta está escrita não nos programas eleitorais, mas na vida e nas mortes dos brasileiros. A escolha é nossa! •

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Um voto pela saúde’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Arthur Chioro

Ex-ministro da Saúde

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Fonte: Carta Capital

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