Por Pedro Benedito Maciel Neto — Brasil 247

“Quem bebe da minha ‘caneca’ tem sede de liberdade”

A história das lutas pela soberania e pela construção da identidade nacional brasileira nunca se escreveu nos salões palacianos do Rio de Janeiro. Muito pelo contrário: assim como atualmente, essa luta não é objeto de atenção da elite financeira ou dos seus vassalos instalados no Congresso Nacional, de parte da imprensa e do STF. Precisamos olhar o passado e relembrar que, nas províncias do Norte e Nordeste, ocorreram episódios de rutilante coragem moral e sacrifício humano. Quem sabe isso inspire os indecisos a votar em Lula no domingo.

No centro de uma verdadeira epopeia ergue-se, no início do século XIX, a figura imponente de Joaquim do Amor Divino Caneca, o Frei Caneca: frade carmelita, jornalista, geômetra, filósofo e estrategista político, cuja vida e morte encarnaram o ideal máximo de autonomia e liberdade contra as investidas do arbítrio.

Nascido em Recife, no povoado artesanal de Fora-de-Portas, o jovem primogênito do tanoeiro português Domingos da Silva Rabelo e de Francisca Maria Alexandrina de Siqueira trazia das origens humildes a disciplina e a altivez.

O apelido “Caneca”, herdado do ofício paterno na confecção de vasilhames, acompanhou-o ao professar votos na Ordem do Carmo, em 1797, e ao ordenar-se sacerdote, em 1801. Longe de confinar-se às paredes do claustro, buscou no Seminário de Olinda e nas bibliotecas oratórias a vasta erudição que o tornaria professor de Retórica, Filosofia e Geometria, habilitando-o a ler o mundo sob a luz do Iluminismo e da razão crítica.

Sua conversão à causa da liberdade deu-se no ambiente fervilhante das lojas maçônicas, onde as ideias republicanas e os ventos das revoluções americana e francesa encontravam solo fértil. Nesse contexto, saúdo meus amigos Marcos Bernardelli e Sinval Dorigon, os quais mantêm vivos as ideias de liberdade e os valores republicanos nas lojas maçônicas e em suas vidas exemplares.

Na Revolução Pernambucana de 1817, primeiro grande sobressalto soberanista contra a Coroa, Caneca atuou no campo de batalha como conselheiro e capitão de guerrilhas das tropas republicanas. Sim, o frei foi guerrilheiro da liberdade.

Derrotado o movimento, amargou quatro anos de calabouço em Salvador, com pesadas correntes ao pescoço, usando o tempo de cativeiro não para o lamento, mas para a elaboração de uma gramática da língua portuguesa.

A libertação, em 1821, devolveu Frei Caneca ao debate público. Durante a Convenção do Beberibe e a gestão da primeira Junta Governativa, presidida por Gervásio Pires Ferreira, o frade despontou como o grande teórico da conciliação e da cidadania local. Em sua Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão, sustentou que a verdadeira pátria pertencia àqueles que nela trabalhavam e fincavam raízes, e não aos burocratas submissos aos mandos distantes.

Contudo, a ruptura definitiva com o centro do poder precipitou-se com a postura autoritária do imperador D. Pedro I. Diante da dissolução da Assembleia Nacional Constituinte, em 1823, e da imposição da Carta Outorgada de 1824, o frade transformou a pena em sua espada mais afiada. Editou um jornal, o Typhis Pernambucano, por meio do qual desferiu golpes certeiros contra o absolutismo disfarçado de unidade nacional, denunciando o assalto às franquias provinciais promovido pelo imperador despótico.

Em 2 de julho de 1824, o descontentamento transbordou na proclamação da Confederação do Equador. Liderado politicamente por Manuel de Carvalho Pais de Andrade e vocalizado intelectualmente por Frei Caneca, o movimento não buscava um separatismo irresponsável, mas a fundação de uma República Federativa inspirada no modelo norte-americano, capaz de resguardar a autonomia de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte frente às tentações despóticas do imperador.

A resposta da Corte foi implacável e desproporcional. D. Pedro I suspendeu as garantias constitucionais, retalhou o território pernambucano, privando-o da comarca do São Francisco, e ordenou o bloqueio naval de Recife pelas esquadras do almirante Cochrane, enquanto tropas terrestres comandadas pelo brigadeiro Francisco de Lima e Silva invadiam a província. Suplantados pela superioridade bélica e pela falta de adesão das elites rurais locais, os confederados viram a resistência ser esmagada em combates sangrentos.

Detido no interior enquanto exercia a função de secretário e guia espiritual das tropas sublevadas, Frei Caneca foi submetido a uma comissão militar sumária. Condenado à morte por enforcamento pelo crime de sedição, o frade caminhou para o cadafalso em 13 de janeiro de 1825, diante das muralhas do Forte das Cinco Pontas, em Recife.

O destino, porém, reservava um derradeiro ato de triunfo moral ao condenado: três carrascos sucessivos recusaram-se a colocar a corda no pescoço daquele homem cuja dignidade constrangia o próprio Estado. Diante da desobediência dos executores, a comissão militar viu-se forçada a alterar a pena: atado a uma das hastes da própria forca, Frei Caneca foi fuzilado por um pelotão de arcabuzes.

Seu corpo, recolhido pelos irmãos carmelitas e sepultado em local oculto, transformou-se em semente da democracia brasileira. Como imortalizado nos versos de João Cabral de Melo Neto em Auto do Frade e na historiografia de Evaldo Cabral de Mello, o martírio imposto pelo despotismo imperial não apagou a luz de Frei Caneca; antes, elevou sua memória ao panteão dos heróis da pátria. Sua trajetória permanece como um farol inestimável da soberania popular, lembrando ao Brasil que a verdadeira liberdade exige coragem inegociável diante da tirania.

Que sejamos iluminados pelo seu exemplo.

Fonte: Brasil 247

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