Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais. Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação

O que as pesquisas mostram e não mostram sobre a escolha das mulheres

Por Leonardo Avritzer e Carmen Leitão*

Em eleições fortemente polarizadas, alguns segmentos do eleitorado podem ser decisivos. A poucos dias da votação, a disputa pelo voto das mulheres, 52,8% dos aptos a votar, ganhou destaque diante das mudanças registradas nas pesquisas. As mulheres, contudo, são sujeitos políticos. Podem reconhecer realizações, questionar resultados, mudar de preferência e formular projetos próprios. Por isso, a análise deve considerar tanto suas escolhas eleitorais quanto as demandas que levam ao debate público.

A série semanal da Quaest de setembro inclui um alerta que deve ser lido com cuidado. No voto estimulado de primeiro turno entre as mulheres, Lula registrou 39% em 2 de setembro, 36% no dia 7 e 37% nos dias 14 e 21, e alcançou 40% na pesquisa publicada em 28 de setembro. Flávio Bolsonaro avançou de 25% para 26%, 29% e 32%, e caiu para 29% na pesquisa mais recente. A diferença, portanto, diminuiu de 14 para 5 pontos em quatro rodadas, enquanto Lula permaneceu em faixa relativamente estável e Flávio cresceu de forma consistente e voltou na última semana para 11 pontos porcentuais a favor de Lula.

Os demais indicadores mostram que não se trata apenas de uma coluna de intenção estimulada. No voto espontâneo, Lula passou de 30% para 28% entre 2 e 21 de setembro e subiu para 31 no dia 28 de setembro, enquanto Flávio passou de 14% para 22% posição que não se alterou. A rejeição a Flávio permaneceu numericamente maior, e alcançou 61% na última rodada. A avaliação positiva do governo entre as mulheres se deteriorou entre 7 e 21 de setembro e se recuperou, de 44% para 48% em 28 de setembro, enquanto a negativa caiu de 48% para 39%. Primeiro e segundo turnos apresentam situações de escolha distintas: enquanto a aproximação prosseguiu no primeiro turno, ela não variou tanto no confronto direto. Assim, não é difícil afirmar que a intenção de voto das mulheres tem variado fortemente nas últimas semanas.

Há uma dimensão material por trás dessas escolhas. Segundo dados reunidos pela ONU Mulheres, as brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de outros, diante de 11,7 horas observadas entre os homens. Nas empresas com mais de cem empregados, as trabalhadoras recebem perto de 21% a menos. As negras enfrentam maior informalidade e maior carga de cuidado. Essas condições não determinam automaticamente o voto, mas indicam por que a percepção vivenciada de uma política pública pode envolver muito mais do que reconhecer um indicador macroeconômico favorável. Para quem combina trabalho remunerado, deslocamento, cuidado de crianças, doentes e/ou idosos, escola, alimentação, acesso aos medicamentos e aos serviços de saúde, a qualidade da entrega pública aparece na organização cotidiana do tempo e da renda.

Experiências compartilhadas entre as eleitoras não necessariamente produzem as mesmas interpretações políticas dos problemas em debate

Essas experiências compartilhadas não produzem necessariamente as mesmas interpretações políticas. As mulheres não chegam à eleição apenas como mulheres. Elas são jovens ou idosas, negras ou brancas, católicas, evangélicas ou sem religião, moradoras de diferentes regiões, trabalhadoras formais ou informais, mães ou não mães. Credo, geração, raça e classe não anulam as desigualdades de gênero, mas definem as linguagens pelas quais são percebidas e interpretadas. Nesse ponto, valores e pertencimentos ganham importância. A dificuldade de conciliar trabalho e cuidado pode alimentar a demanda por creches e serviços públicos, mas pode ser interpretada pela valorização da família e das redes comunitárias. A insegurança pode ser compreendida a partir da violência contra as mulheres ou de uma demanda mais ampla por ordem e proteção. A autonomia econômica pode ser associada tanto à proteção social e aos direitos do trabalho quanto ao empreendedorismo e ao crédito. Expectativas políticas diferentes para problemas semelhantes.

As pesquisas também mostram clivagens importantes por região, religião e geração, embora os dados publicados não permitam atribuir diretamente esses padrões às mulheres de cada grupo. Isso torna particularmente relevante observar as eleitoras jovens e evangélicas sem transformá-las em blocos homogêneos. Entre as jovens, o voto aparece menos cristalizado. No eleitorado evangélico, valores religiosos e redes de sociabilidade podem oferecer repertórios próprios para interpretar temas como família, segurança, sexualidade, trabalho e futuro. Em ambos os casos, raça, renda, território e experiências concretas de cuidado continuam importando.

Assim, mais da metade do eleitorado brasileiro não se reduz a uma única coluna de pesquisa. Mulheres podem compartilhar problemas produzidos por desigualdades persistentes sem compartilhar necessariamente a mesma interpretação sobre eles − ou a mesma escolha eleitoral. Talvez esteja aí uma das chaves da disputa pelo voto feminino. As candidaturas não competem apenas para oferecer respostas a problemas concretos. Competem para definir o que esses problemas significam: se cuidado é, sobretudo, um direito e uma responsabilidade pública ou uma questão organizada em torno da família. Se autonomia depende prioritariamente de serviços públicos, renda e direitos ou de oportunidades individuais. Se proteção remete à ampliação de direitos ou à reafirmação de valores, autoridade e ordem.

E o que os candidatos propõem? Os programas de Lula e Flávio Bolsonaro incluem cuidado, trabalho, saúde, autonomia econômica e enfrentamento à violência contra as mulheres. Há convergências temáticas, mas diferenças importantes nos instrumentos escolhidos para enfrentar esses problemas. Algumas agendas como a proibição das bets foram capazes de agregar mulheres conservadoras que têm a responsabilidade familiar e mulheres progressistas, explicando, em parte, a variação positiva do voto feminino no presidente.

Mais que isso, há disputas de sentidos. Pesquisas registram intenções em determinado momento. Programas estabelecem compromissos que podem ser examinados e, depois, cobrados. Aferir a intenção de voto das mulheres é indispensável para compreender uma eleição. Levá-las em conta exige algo mais: observar as diferenças entre elas, as condições concretas em que vivem e as distintas linguagens pelas quais interpretam essas experiências, sem perder de vista o que permanece comum. •

*Leonardo Avritzer é professor titular aposentado da UFMG. Carmem Leitão é professora da UFC.
O projeto Observatório das Eleições 2026 é uma iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, sob a coordenação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e do Instituto de Estudos sobre Política e Integridade Eleitoral (Iepi). O Observatório tem o objetivo de monitorar grandes questões e elementos relativos às eleições, de modo mais geral, e aos processos eleitorais especificamente. A iniciativa contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros tanto no campo do financiamento quanto no da divulgação.

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Nuances femininas’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Observatório das Eleições

Iniciativa do professor titular aposentado Leonardo Avritzer, da UFMG e do IEPI. Monitora grandes questões e elementos relativos às eleições e aos processos eleitorais. Contempla destacada produção acadêmica e jornalística desde 2018, tendo tido diversos parceiros no financiamento e na divulgação

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Fonte: Carta Capital

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