Por Murillo Ferreira Pinto — Carta Capital

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Por que resgatar Paul Johnson de um merecido esquecimento e colocá-lo de novo em circulação no Brasil de 2026?

Paul Johnson foi um historiador, jornalista e escritor britânico, nascido em Manchester, em 1928, e formado em Oxford, com mais de 50 livros publicados ao longo de sua trajetória.

Johnson, proeminente intelectual conservador, foi conselheiro de ­Margaret Thatcher e nome central de certa historiografia “popular”, ou “de divulgação”. Por trás da proposta de ser acessível ao leitor comum, o projeto de Johnson é esvaziar o senso crítico com o objetivo de oferecer respostas fáceis para problemas complexos.

Um dos livros mais representativos do método de Johnson, Os Intelectuais, de 1988, acaba de ser relançado no Brasil pela editora Nova Fronteira. A primeira edição brasileira, de 1990, tinha sido publicada pela Imago – a tradução é a mesma, de André Luiz Barros da Silva. O escritor morreu em 2023.

“Este livro”, escreve Johnson já na primeira linha, “faz uma análise das qualificações de ordem moral e capacidade de discernimento com que certos líderes intelectuais se credenciam para orientar a humanidade.” Seu foco está na “moralidade”, nos hábitos e comportamentos, e se espalha por 13 capítulos, comentando autores como Rousseau, Marx, ­Bertolt Brecht e Sartre, entre outros.

Os Intelectuais. Paul Johnson. Tradução: André Luiz Barros da Silva. Nova Fronteira (480 págs., 89,90 reais)

Henrik Ibsen, dramaturgo norueguês, era, “sem dúvida”, segundo Johnson, “vítima da embriaguez dos vikings”. Tolstoi, que queria levar educação aos camponeses, repete “um erro curioso dos intelectuais”: “Achar que podem resolver as dificuldades milenares da educação humana de um golpe” (provavelmente, é melhor não fazer nada e deixar tudo como está).

Em Brecht, constata que “não havia nenhuma afetividade em nenhum de seus relacionamentos”. O matemático e filósofo Bertrand Russell, que tinha um “ódio liberal-progressista pelos grandes países capitalistas do mundo”, parece ter considerado, “intimamente”, “que a principal função das esposas era gerar descendentes para seus maridos”. ­Rousseau teve um “comportamento monstruoso”; Sartre teve “pontos de vista” de “absoluta fatuidade”; Marx atuava com “notória desonestidade”, e assim por diante.

Johnson não debate ideias, conceitos ou sistemas de pensamento. Ele está mais interessado em anedotas depreciativas e boatos de ordem sexual, etílica e financeira, fofocas sensacionalistas típicas de tabloides.

A postura do autor está ultrapassada, bem como suas ideias e seus métodos, fundados na lógica do boato e da desinformação, na típica lógica conservadora das respostas rápidas e fáceis

O livro é feito de ataques pessoais seletivos, com uma visão política tendenciosa, que usa falhas pessoais como provas para uma invalidação total de teorias sociais, filosóficas e estéticas. Johnson reduz movimentos políticos e sociais complexos aos danos psicológicos ou ressentimentos de infância de um único fundador; escolhe pensadores de esquerda, deixando de lado reacionários com trajetórias igualmente problemáticas, sem levar em conta que a produção artística ou filosófica pode ocorrer em paralelo à disfunção comportamental.

Por que reeditar Paul Johnson? Por que resgatá-lo de um muito merecido esquecimento e colocá-lo de volta em circulação no Brasil de 2026? A postura do autor está ultrapassada, bem como suas ideias e seus métodos – fundados no boato e na desinformação, na típica lógica conservadora das respostas rápidas e fáceis, do esvaziamento do debate sério.

De forma paradoxal, talvez seja possível dizer que é nesse ponto que reside a atualidade do livro de Johnson: ­suas ideias simples dão uma falsa sensação de segurança, uma maquiagem de pensamento, criando um encadeamento histórico de inimigos fáceis, culpados de toda a “decadência” da sociedade. •

Por Ana Paula Sousa


Uma dor sem diagnóstico, sentida pela primeira vez durante uma viagem de trabalho, é o ponto de partida de Minha Clavícula e Outros Imensos Desajustes (DBA, 200 ­págs., 82,90 reais), em que a espanhola Marta Sanz, com humor ácido, usa o corpo de uma mulher madura para falar sobre envelhecimento e medos.


Paul Auster morreu em abril de 2024 em sua casa, no Brooklyn, em Nova York. Foi nessa mesma residência que Siri Hustvedt, viúva do autor, escreveu Histórias de Fantasma (Companhia das Letras, 360 págs., 89,90 reais), que reúne diários do período da doença, e-mails a amigos, cartas e textos inacabados de Auster.


A protagonista de Entre as Raças (Zain, 368 págs., 97,90 ­reais), publicado em 1907 por Heinrich Mann, irmão mais velho de Thomas, é inspirada na mãe dos dois escritores, a brasileira Júlia da Silva Bruhns, que foi levada ainda criança para um internato na Alemanha e cresceu com uma identidade partida.

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Ferocidade vazia ‘


Kelvin Falcão Klein

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Fonte: Carta Capital

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