Por Paulo Nogueira Batista Jr. — Carta Capital

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

A dimensão geopolítica da eleição presidencial

A soberania brasileira corre um risco inédito na nossa história como nação. Vivemos a eleição mais perigosa de todos os tempos, por causa da conjunção de dois fatores: a candidatura competitiva de Flávio Bolsonaro e a nova fase da política internacional dos Estados Unidos.

O primeiro fator é conhecido, não preciso me alongar a respeito. Digo apenas que, entre muitas outras deficiências e antecedentes problemáticos (ele não tem currículo, mas folha corrida), Flávio Bolsonaro faz questão de explicitar a sua subordinação a Donald Trump, seguindo nesse ponto o exemplo do pai. Só que agora há uma agravante: o império estadunidense se mostra muito mais agressivo do que na época em que Bolsonaro foi presidente. Trump 2 é uma versão piorada e mais violenta de Trump 1. Como os Bolsonaro são imitadores vulgares e assumidos de Trump, não será de surpreender que um eventual Bolsonaro 2 venha a ser pior do que o Bolsonaro 1.

Aviso prévio. Este artigo foi finalizado alguns dias antes do primeiro turno das eleições. Em caso de vitória de Lula no domingo 4, o Brasil estará, sem dúvida, mais preparado para enfrentar ameaças estrangeiras. Mesmo com a reeleição, entretanto, no primeiro ou no segundo turno, os graves problemas do entorno internacional e o desafio de lidar com uma superpotência agressiva, descritos no artigo, permanecerão conosco por muito tempo.

Não estou exagerando nem fazendo drama. É bem verdade que o imperialismo do Ocidente sempre foi brutal, sempre esteve disposto a se valer de todos os meios para submeter e até destruir outras nações e civilizações. Contudo, o Ocidente está em declínio e não aceita esse declínio de forma nenhuma. Fará o diabo para tentar conter ou reverter a sua perda de relevância no mundo. Apesar de decadentes, os EUA e o resto do Ocidente ainda têm muita força econômica, política e militar – e podem fazer grandes estragos, como estamos vendo.

Nada mais perigoso do que uma superpotência em declínio. Na segunda metade do século XX e, mais ainda, no “momento unipolar” após o colapso da União Soviética, em 1991, os Estados Unidos prevaleciam com naturalidade. Convencidos da sua superioridade, implementavam regras e tratados, criavam instituições multilaterais e propugnavam o livre-comércio urbi et orbi. Espalhavam mundo afora a ideologia dos mercados eficientes e da abertura das economias como receita para o sucesso de qualquer país.

Nas décadas iniciais do século XXI, com o surgimento de um mundo multipolar marcado principalmente pela ascensão da China e outros países do Leste da Ásia, os estadunidenses e os europeus viraram a casaca. Abandonaram o neoliberalismo e a defesa do livre-comércio e passaram a praticar, sem rodeios, as políticas de proteção e intervenção estatal que antes condenavam.

A mudança das políticas econômicas mostrou-se, porém, insuficiente para deter o enfraquecimento dos Estados Unidos e da Europa. Atrapalhou, mas não deteve o avanço da China, vista como a principal ameaça. Resultado: o Ocidente, sobretudo os EUA, resolveu dobrar a aposta. Os países entraram em modo desespero e passaram a romper regras, acordos e tratados, além de minar algumas das instituições criadas por eles após a Segunda Guerra Mundial, notadamente a ONU e a OMC. Virou um vale-tudo. Quando isso também não funcionou para preservar a hegemonia mundial, os EUA colocaram em campo seu poderio militar. Com Trump 2, tornou-se rotina recorrer, ou ameaçar recorrer, à força militar para extrair concessões e abalar países considerados pouco cooperativos ou hostis. Estabeleceu-se a lei da selva.

Outro elemento essencial do contexto internacional: o foco renovado dos EUA no Hemisfério Ocidental, considerado abertamente como parte da sua área de influência. Documentos oficiais do governo Trump deixaram esse ponto claro e cristalino, dando grande destaque à intenção de retomar o controle sobre o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagônia, e impedir a atuação e a concorrência de países rivais.

Vivemos a disputa mais perigosa de todos os tempos, por conta da interferência dos EUA

Diversas declarações do presidente Trump e seus ministros, notadamente o das Relações Exteriores, Marco Rubio, confirmaram enfaticamente essa abordagem. Sua tônica pode ser resumida em uma frase: o Hemisfério Ocidental é nosso. Os EUA anunciam que usarão de todos os meios, inclusive militares, se preciso, para eliminar resistências nacionais e reduzir ou eliminar a presença econômica e política da China, cuja influência na América Latina e em outras partes do mundo cresceu muito nas décadas recentes.

Como se sabe, não foram só documentos e declarações. Já tivemos ações imperiais concretas no Hemisfério Ocidental. Destaco a intervenção relâmpago na Venezuela, com o sequestro do presidente do país. Sem resistência, a Venezuela foi transformada em protetorado dos EUA, que passaram a controlar as riquezas do país, notadamente as suas imensas reservas de petróleo. Trump não esconde, antes proclama, que esse controle foi a finalidade e o resultado da intervenção. Ressalte-se que esse descaro é novidade: antes, a tradição imperial era encobrir os seus reais objetivos com retóricas hipócritas e discursos demagógicos, em especial sobre a sua suposta defesa da democracia e dos direitos humanos.

A subordinação da Venezuela é o episódio mais impressionante, mas tivemos ainda a intensificação do embargo criminoso a Cuba e o aumento do controle dos EUA sobre a Groenlândia, obtido na base da ameaça de intervenção militar. Note-se que as três ações têm um traço comum, a determinação de conter a influência da China e da Rússia. Os países agredidos ou ameaçados eram ou são próximos à China e à Rússia (Venezuela e Cuba) ou eram vistos como incapazes de deter a influência e ação dessas duas potências rivais (caso da Dinamarca e da Groenlândia).

A influência dos EUA no hemisfério aumentou não só com as ações mencionadas acima, mas porque as eleições em muitos países da região (com atuação estadunidense nos bastidores) levaram a governos alinhados a Washington. O modelo Javier Milei fez escola.

Hoje, temos apenas três países grandes que mantêm uma linha independente – o Canadá, o Brasil e o México. Além desses, apenas Cuba, Nicarágua, tradicionalmente anti-imperialistas, e, em menor medida, o Suriname e, talvez, a Guiana.

O que querem os EUA na eleição brasileira? Na medida do possível, eleger um vassalo, um Milei brasileiro, e submeter o nosso País à sua área de influência sem disparar um único tiro.

O Brasil vai permitir? É nas horas difíceis que os povos demonstram o seu valor. Os nossos descendentes farão inevitavelmente a pergunta: o que você fez em 2026 para defender a soberania nacional? •

*Economista, foi diretor do Fundo Monetário Internacional como representante do Brasil e mais dez países e vice-presidente do Banco dos BRICS.

Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Soberania em jogo’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.


Paulo Nogueira Batista Jr.

Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

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Fonte: Carta Capital

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