Incerteza eleitoral pode adiar até R$ 62 bilhões em consumo no varejo nacional
Por Allan Ravagnani — Carta Capital
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Levantamento do IBEVAR-FIA cruza duas décadas de dados do varejo e identifica cenário eleitoral mais incerto já registrado
A incerteza eleitoral pode adiar até R$ 62 bilhões em consumo no varejo brasileiro. É o que aponta um estudo feito pelo IBEVAR-FIA Business School para CartaCapital. O levantamento cruzou duas décadas de dados de vendas do varejo, apuradas pelo IBGE, com o ritmo geral da economia, medido pelo IBC-Br do Banco Central. A pesquisa também identifica um padrão que se repete há 20 anos, e um risco que só apareceu duas vezes. Quando a eleição chega em empate técnico, o consumidor trava a compra de maior valor.
Faltam poucas semanas para essa definição, e o pano de fundo já bate recorde. O EPU-Brasil, índice que mede a incerteza de política econômica, marca 238 pontos, o maior nível já registrado no início de um ano de eleição presidencial, ante 177 pontos em 2022 e 146 pontos em 2014.
Pesquisas mostram os dois principais candidatos separados por poucos pontos, e o estudo aponta que 2026 reúne justamente as condições que, no passado, precederam o maior recuo do varejo em ano de eleição.
Historicamente, ano de eleição favorece o varejo . No trimestre entre agosto e outubro, sob os governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer, todas as principais linhas do setor cresceram acima do padrão registrado nos demais anos. Em veículos, a vantagem chegou a 5,5 pontos percentuais.
O mesmo padrão aparece nos demais segmentos, ainda que em menor grau. O varejo ampliado cresceu 2,59% no trimestre entre agosto e outubro em anos de eleição, contra 0,48% nos demais anos. Material de construção avançou 2,08%, ante 0,17%. Móveis e eletrodomésticos subiram 2,06%, ante 1,47%. E o varejo restrito, ligado ao consumo do dia a dia, cresceu 1,49%, ante 0,69%.
Além disso, o padrão se repete independentemente do campo político no poder, o que reforça a leitura de um fenômeno ligado ao calendário eleitoral, e não a uma preferência partidária.
Elaboração: IBEVAR-FIA Business School
Ainda assim, o padrão se inverteu em duas ocasiões, justamente nas eleições decididas por menos de 5 pontos no segundo turno, em 2014 e 2022 . Nesses dois anos, o varejo ampliado rodou 2,3 e 4,8 pontos abaixo do ritmo da própria economia no trimestre da votação, contra uma vantagem de até 3,9 pontos em eleições sem disputa acirrada.
Assim, o consumo não desapareceu. Ele foi adiado para depois da definição do resultado.
Elaboração: IBEVAR-FIA Business School
O varejo ampliado brasileiro fatura cerca de R$ 4,3 trilhões por ano, o equivalente a R$ 1,08 trilhão por trimestre. Cada ponto percentual de crescimento perdido no trimestre da urna representa R$ 10,8 bilhões.
Nas duas eleições de empate técnico, o setor ficou 5,8 pontos abaixo do padrão esperado, o que resultou em um freio de até R$ 62 bilhões fora do caixa do comércio.
Para dar dimensão ao valor, o estudo compara o freio a seis vezes o faturamento de todo o comércio eletrônico brasileiro em um único Dia dos Pais.
Segmentos de maior valor concentram o maior recuo. Veículos, motos e peças recuaram 12,8 pontos percentuais em relação ao padrão nas eleições de empate técnico. Móveis e eletrodomésticos caíram 11,2 pontos, e material de construção, 7,4 pontos, com um resultado isolado de 14,3 pontos negativos em 2022.
Por outro lado, o varejo restrito, ligado ao consumo do dia a dia, recuou apenas 2,4 pontos, o que confirma que o freio se concentra nas compras que podem esperar.
Em 2026, o segmento de material de construção, o mais penalizado em 2022, já roda 2,7 pontos atrás da economia no acumulado do ano. Esse é o primeiro indicador a sair do padrão histórico.
Ao mesmo tempo, a confiança do consumidor, medida pela FGV, caiu pela quarta vez seguida, para 84,7 pontos. A queda veio concentrada nas expectativas, que recuaram 5,4 pontos, enquanto a avaliação da situação presente cedeu apenas 0,6 ponto.
No mercado financeiro, as projeções de PIB para 2027 no boletim Focus têm dispersão três vezes maior que as projeções para 2026, sinal de que o desacordo dos economistas está concentrado no dia seguinte à eleição.
Paradoxalmente, o estímulo pré-eleitoral também está em curso. Os emplacamentos de veículos cresceram 16,9% em agosto, o terceiro melhor resultado da história para o mês, segundo a Fenabrave. Os dois movimentos do ciclo eleitoral, o impulso e a cautela, acontecem ao mesmo tempo à vista de quem acompanha os indicadores.
Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, chama atenção para um agravante inédito. Um eventual segundo turno em domingo (25) cairia diretamente sobre a Black Friday, em sexta-feira (27), e o Natal, as semanas mais importantes do calendário do varejo.
Elaboração: IBEVAR-FIA Business School
Historicamente, existe alívio depois da eleição. O varejo ampliado cresce em média 1,5% no trimestre novembro-janeiro, contra 0,9% nos anos sem disputa acirrada. Nas duas eleições de empate técnico, porém, o rebote ficou abaixo do padrão, apenas 0,1% em 2014 e 0,5% em 2022, o que confirma que parte da venda adiada nunca retorna.
O estudo mede exclusivamente vendas e indicadores econômicos públicos, como PMC/IBGE, IBC-Br/BCB, EPU-Brasil, Focus/BCB, FGV e Fenabrave. Nenhum dado de opinião ou intenção de voto foi coletado, e nenhum resultado é atribuído a candidato, partido ou campo político, já que o padrão se repete sob governos de ambos os campos.
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Fonte: Carta Capital