Depois de encontrar a mesma onça bebendo num tanque a 40 metros da casa durante cinco noites de seca, agricultor passa a recolher os cães antes do anoitecer e observar o quintal pela janela, até descobrir uma manhã que o animal havia levado dois filhotes para descansar sob uma mangueira no limite da propriedade
Por Carlos Emanoel Freires dos Santos — Catraca Livre
Na primeira noite, João pensou que tivesse visto errado. Da janela da cozinha, pouco depois das 19h, percebeu um vulto grande se aproximando do tanque usado pelos animais da propriedade. Quando acendeu a luz externa, a silhueta parou. Era uma onça. Ela bebeu por alguns minutos e desapareceu no escuro. Na noite seguinte, voltou. E depois na outra. Durante cinco dias de seca forte, o agricultor passou a recolher os cães antes do anoitecer e observar o quintal em silêncio, até que uma manhã viu algo que não esperava: a mesma fêmea deitada sob uma mangueira no limite da propriedade, com dois filhotes encolhidos junto ao corpo.
A primeira aparição aconteceu no pior período de seca daquele mês
João mora havia 18 anos na mesma pequena propriedade, cercada por pastagens e uma faixa de mata mais densa ao fundo. Ele já tinha visto pegadas e ouvido relatos de onça na região, mas nunca havia encontrado uma tão perto da casa.
Naquela semana, o açude menor havia secado e até os pássaros começaram a aparecer com mais frequência perto dos bebedouros. O tanque ficava a aproximadamente 40 metros da varanda e permanecia cheio porque abastecia parte dos animais da propriedade.
“Ela não parecia estar caçando. Só bebia e ia embora”, conta João.
Depois da segunda noite, ele mudou toda a rotina da casa
João tinha três cães que costumavam circular pelo quintal até tarde. Depois de ver a onça novamente, decidiu não arriscar. Antes do pôr do sol, passou a fechar todos em um espaço coberto ao lado do galpão.
Também deixou de caminhar até o tanque à noite e pediu à família que evitasse sair para o quintal depois de escurecer.
- os cães passaram a ser recolhidos antes das 18h;
- a iluminação externa ficou acesa por menos tempo;
- ninguém se aproximava do tanque durante a noite;
- João observava apenas de dentro da casa;
- nenhuma tentativa foi feita para espantar ou alimentar a onça.
A onça voltou durante cinco noites praticamente no mesmo horário
Na terceira noite, ela apareceu pouco depois das 20h. Na quarta, chegou mais cedo. Na quinta, permaneceu por quase 15 minutos perto da água.
João percebeu que o comportamento se repetia. A onça vinha da direção da mata, bebia, olhava ao redor por alguns segundos e retornava pelo mesmo caminho.
Ele começou a reconhecer pequenas características, principalmente uma mancha mais clara perto do ombro esquerdo. Foi assim que teve certeza de que era sempre o mesmo animal.
Na sexta manhã, ele encontrou a onça durante o dia
Por volta das 6h30, João saiu pela porta dos fundos para verificar uma cerca. Antes de chegar ao terreiro, percebeu movimento perto de uma mangueira antiga que ficava na divisa entre a propriedade e a mata.
A onça estava deitada na sombra.
João parou imediatamente. Foi então que viu duas pequenas cabeças surgindo junto ao corpo da fêmea. Eram filhotes, ainda pequenos, que alternavam entre ficar deitados e brincar com folhas secas.
Ele recuou devagar e voltou para dentro de casa.
Os filhotes explicaram parte das visitas ao tanque
Até aquele momento, João achava que a onça estava apenas buscando água para si. A presença dos filhotes mudou sua percepção. A fêmea provavelmente utilizava aquela faixa de mata como parte de sua área de circulação e, com a seca, havia encontrado no tanque uma fonte de água previsível.
Durante aquela manhã, João observou apenas pela janela. A onça permaneceu sob a mangueira por quase duas horas enquanto os filhotes descansavam ao lado.
Em nenhum momento ele tentou se aproximar para fotografar de perto.
A família passou a tratar o quintal como uma área compartilhada
Nos dias seguintes, João redobrou os cuidados. Os cães continuaram presos ao entardecer, restos de comida deixaram de ficar do lado de fora e ninguém passou a circular próximo à mata sem necessidade.
A onça ainda apareceu mais duas vezes perto do tanque, mas os filhotes não voltaram a ser vistos na mangueira.
João conta que o mais difícil foi resistir à curiosidade. “A vontade era chegar mais perto, mas eu sabia que aquilo era justamente o que eu não devia fazer”, diz.
Depois das chuvas, a onça parou de aparecer
Quase duas semanas depois, as primeiras chuvas voltaram e pequenos cursos de água da região começaram a encher novamente. As visitas ao tanque ficaram menos frequentes até cessarem completamente.
João continuou recolhendo os cães mais cedo por algum tempo e manteve a área próxima à mata tranquila.
A mangueira nunca mais pareceu um lugar comum para ele
Meses depois, João ainda olha para a árvore sempre que passa pelo limite da propriedade. Não sabe onde a fêmea levou os filhotes nem se voltará a vê-los.
O que começou como medo de encontrar uma onça a poucos metros de casa terminou como uma lição de distância e convivência. João não tentou domesticar, alimentar ou expulsar o animal. Apenas mudou sua própria rotina e deixou que a família de onças utilizasse aquele pedaço de sombra enquanto precisou. Desde então, o tanque continua no mesmo lugar, mas nenhuma noite seca voltou a parecer completamente silenciosa.
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Fonte: Catraca Livre