Xi, Trump e uma guinada para evitar que o barco colida
Por Fernando Capotondo — Brasil 247
Na tradição cultural e política da China, as metáforas sobre a água e as embarcações nunca são casuais. Quando a diplomacia de Pequim classifica a relação entre China e Estados Unidos como um “grande barco”, recorre a um conceito profundamente enraizado na visão de mundo chinesa: o tóng zhōu gòng jì (同舟共济), a milenar premissa de “atravessar o rio juntos na mesma embarcação”. Para a filosofia oriental, um grande navio simboliza o peso e a estabilidade necessários para resistir a qualquer tempestade, mas também representa a inevitabilidade de um destino compartilhado, no qual as diferenças individuais ficam subordinadas à sobrevivência coletiva. Se o barco naufragar, ninguém se salva. Ou, nas palavras da geopolítica, “China e Estados Unidos devem ser parceiros, não rivais; devem encontrar a forma correta de se relacionar”, como afirmou o presidente Xi Jinping logo após chegar a Washington, em uma visita de Estado realizada pouco mais de quatro meses depois da viagem de Donald Trump a Pequim.
Em uma de suas primeiras declarações na Casa Branca, e como já havia destacado em outras ocasiões, Xi reiterou que está disposto a trabalhar com Trump “para conduzir por um rumo estável o gigantesco barco das relações China-Estados Unidos”. “A cooperação entre os dois países — sustentou — talvez não resolva todos os problemas do mundo, mas sem ela seria difícil solucionar muitos deles”.
“A presença de Xi nos Estados Unidos é uma grande visita, somos bons amigos e mantivemos uma cooperação profunda e próxima. As relações entre os dois países serão bem administradas sob nossa condução”, respondeu Trump.
Nesse contexto, Xi destacou que as equipes econômicas e comerciais dos dois países realizaram uma nova rodada de consultas e chegaram a um acordo que, por ora, acalma as águas. “Uma relação estável exige tanto ampliar a lista de áreas de cooperação quanto reduzir a lista de problemas”, afirmou, horas depois da confirmação da extensão por dois meses da trégua comercial — o Acordo de Busan — até 10 de janeiro de 2027.
A Inteligência Artificial foi outro dos temas da agenda bilateral sobre o qual recaíam todas as atenções, levando em conta que, nesta mesma semana, Trump utilizou o palco da Assembleia Geral das Nações Unidas para expressar sua rejeição a qualquer tentativa “de construir um plano globalista” para regular aquilo que decidiu chamar de “superinteligência”. Os dois presidentes concordaram que os países “devem manter o diálogo e fortalecer a cooperação bilateral”, embora Xi tenha deixado claro que, em sua avaliação, o mundo precisa — e sobretudo deve — “garantir que o desenvolvimento da IA permaneça sempre sob controle humano”. Mais claro, impossível: DeepSeek.
Ao abordar o delicado tema de Taiwan, Xi também não fez muitos rodeios diante do que Pequim considera uma linha vermelha que ninguém deve tentar ultrapassar. Nem mesmo os Estados Unidos. Fiel à histórica defesa do “princípio de uma só China”, o chefe de Estado fez um apelo à prudência de Washington e, em tom diplomático, destacou que espera que o país mantenha sua posição de oposição às reivindicações de independência da ilha.
Em relação à soberania e à segurança dos países, o presidente chinês instou Estados Unidos e Irã a retomarem as negociações de paz, recuperarem o Memorando de Entendimento de Islamabad e, finalmente, encerrarem a guerra declarada por Washington há sete meses. Também discutiram a situação geral do Oriente Médio, a crise da Ucrânia e a Península Coreana, além de confirmarem apoio mútuo para a organização da Reunião de Líderes Econômicos da APEC e da Cúpula de Líderes do G20 deste ano.
Na maior parte dos temas, o tom das declarações lembrou um déjà vu da cúpula de maio. Com nuances, naturalmente. No encontro em Pequim, Xi havia lançado uma pergunta que ainda repercute nos debates acadêmicos: “China e Estados Unidos poderão superar a armadilha de Tucídides e criar um novo paradigma nas relações entre grandes países?”. Não passou muito tempo, mas o conceito do risco de guerra quando uma potência emergente ameaça deslocar uma potência dominante voltou a pairar sobre o encontro. Desta vez, isso ocorreu quando o presidente chinês propôs que as forças armadas dos dois países mantenham um diálogo regular e aprimorem tanto a comunicação quanto os mecanismos de prevenção de crises. “A armadilha de Tucídides pode ser superada”, pareceu avançar Xi.
Essas cúpulas de altíssimo nível costumam deixar detalhes que, às vezes, viralizam e dizem mais do que mil palavras. Durante a recepção oferecida pelo presidente norte-americano a Xi na Base Conjunta Andrews, um bombardeiro B-1 Lancer realizou um chamativo sobrevoo, perfeitamente sincronizado com o fim do hino nacional dos Estados Unidos. O estrondo provocou expressões de aparente surpresa e admiração em Trump, enquanto seu colega chinês permaneceu indiferente, limitando-se a lançar um olhar para a aeronave mobilizada para a ocasião. Foram duas demonstrações de poder.
Como notas de cor, ficaram o convite de Xi para que 100 mil jovens norte-americanos viajem à China nos próximos cinco anos; o envio de um casal de pandas-gigantes ao zoológico de Atlanta, na Geórgia; a visita das primeiras-damas Peng Liyuan e Melania Trump ao Museu Nacional de Arte Asiática; e o jantar de Estado na Casa Branca com a presença de vários líderes tecnológicos dos dois países.
O poeta Edmond Jabès escreveu certa vez que “longe do porto, o barco cresce”. É uma imagem semelhante à do “gigantesco barco” das relações entre China e Estados Unidos, que Xi Jinping destaca sempre que pode. Na antiga expressão chinesa tóng zhōu gòng jì, aqueles que compartilham uma embarcação têm plena consciência de que ninguém se salva sozinho. Em Washington, ficou no ar uma mensagem semelhante. O barco em que seguimos aos empurrões não deve naufragar.
Fonte: Brasil 247