Xi e Trump em Washington: em busca do chão comum entre a Armadilha de Tucídides e a Síndrome de Gulliver
Por Evandro Menezes de Carvalho — Brasil 247
O encontro entre Xi Jinping e Donald Trump, em Washington, interessa muito além da China e dos Estados Unidos. As decisões das duas maiores economias do mundo afetam investimentos, cadeias produtivas, preços, acesso à tecnologia e outros temas que impactam os países que não participaram da conversa. Por isso, há uma pergunta que todos se fazem: conseguirão Washington e Beijing encontrar um terreno comum capaz de sustentar uma cooperação benéfica para seus povos e, também, para o restante do mundo?
Quando uma disputa que inicialmente era sobre tarifas se estende à tecnologia, às finanças ou à segurança nacional, seus custos se espalham rapidamente. Logo, espera-se que a competição entre as duas potências ocorra dentro de limites que preservem a cooperação entre elas e, sobretudo, fortaleçam o multilateralismo. Cabe aos dois países reconhecerem essa responsabilidade. Naturalmente, as questões mais difíceis não desaparecerão apenas porque os presidentes se reuniram por alguns dias. A diplomacia tem seu próprio tempo para produzir resultados. E o tempo diplomático não tem a mesma velocidade dos avanços tecnológicos nem dos riscos neles embutidos.
Para avaliar o alcance do encontro, convém distinguir duas pautas. A primeira reúne assuntos com maior margem de negociação. A segunda envolve interesses estratégicos e concepções distintas sobre segurança, capacidade militar e ordem internacional. A fronteira entre elas não é rígida: uma decisão comercial sobre preços, quantidades e prazos pode adquirir significado estratégico. Ainda assim, a distinção ajuda a medir o que um acordo pode resolver e o que terá de ser administrado ao longo dos anos.
A soja pertence principalmente à primeira pauta. As vendas para a China são importantes tanto para os produtores americanos quanto para a política interna dos Estados Unidos. Para o governo chinês, o produto integra uma cadeia essencial ao abastecimento de óleo vegetal e de ração animal. Beijing pode negociar o aumento de sua importação de soja dos EUA, mas precisa considerar os preços e a segurança do abastecimento. Além disso, deve levar em conta que tal decisão alterará rotas comerciais e as expectativas de produtores de outros países. Tarifas também admitem negociação, embora revelem desacordos mais profundos. Os Estados Unidos questionam práticas industriais chinesas e alegam defender suas próprias indústrias. A China, por sua vez, critica as restrições americanas que dificultam as exportações chinesas, as quais violam princípios caros ao livre-comércio.
Já outros temas estão em campo minado para a diplomacia. É o caso das terras raras. Aparentemente um assunto comercial, mas que inevitavelmente atravessa a fronteira da pauta negociável para a pauta estrutural. As terras raras são utilizadas, entre outras aplicações, na fabricação de ímãs para veículos, equipamentos industriais e tecnologias de defesa. A posição da China no processamento desses materiais lhe confere influência sobre cadeias produtivas internacionais e, por isso, considera legítimo administrar as exportações de recursos e tecnologias que julga estratégicos. A inteligência artificial é outro tema crítico na agenda bilateral. Washington procura preservar sua liderança em chips avançados e tecnologias relacionadas. Beijing, por sua vez, quer desenvolver capacidade própria e rejeita a ideia de que seu progresso dependa permanentemente da autorização americana. A boa notícia é que Xi e Trump reconhecem que há riscos comuns, como o uso indevido da IA. Ambos os líderes defenderam a continuidade do diálogo e da cooperação nessa área para desenvolver protocolos que evitem incidentes relacionados ao uso da IA, como ciberataques e potenciais riscos biológicos. É um sinal útil, desde que se reconheça a dificuldade de negociar a segurança da tecnologia enquanto se disputa o acesso aos meios de desenvolvê-la.
Taiwan é outro tema da agenda estrutural, mas situado em outro patamar. Trata-se de uma questão central de soberania e de integridade territorial para a China. Aqui, a expectativa realista não é a de uma solução por meio de concessões comerciais; mas de comunicação cuidadosa, capaz de impedir que gestos, interpretações equivocadas ou cálculos de curto prazo provoquem uma crise cujas consequências atingiriam o mundo inteiro. A China espera que este assunto seja resolvido sem qualquer intervenção americana e respeitando a vontade do povo chinês envolvido. Há outras divergências tais como as relacionadas às sanções e às crises internacionais. China e Estados Unidos avaliam de maneira diferente os conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia.
Por trás de cada ponto crítico, há um obstáculo mais profundo: chineses e americanos adotam métodos distintos para identificar um problema, estabelecer prioridades e buscar uma solução. O método de cada um revela, implicitamente, suas distintas formas de ver o mundo. O modo como lidam com os problemas entre eles e os problemas da humanidade expressa o que cada sociedade aprendeu com sua história, quais valores procura proteger e que papel atribui ao Estado, ao mercado e às instituições internacionais. Os Estados Unidos desenvolveram uma cultura diplomática marcada pela defesa intransigente de sua liderança, pela negociação de compromissos específicos que não comprometessem seus interesses nacionais e pelo uso de instrumentos de pressão. Na China, ganham destaque a atenção às tendências de longo prazo, com uma diplomacia orientada para ganhos mútuos, a coordenação entre o desenvolvimento doméstico e a política externa, com foco nas parcerias econômicas, e a busca de condições para administrar as diferenças sem interromper a boa relação diplomática com seus parceiros. Essas descrições não esgotam a diversidade de práticas de nenhum dos dois países. Trump imprime às negociações um estilo pessoal e uma urgência próprios. Diferentemente, Xi atua dentro de uma tradição política e diplomática que valoriza a a estabilidade e a continuidade das relações, o respeito aos ritos, o não improviso nas ações diplomáticas e a formulação de objetivos duradouros.
Durante muito tempo, hábitos, valores e métodos associados às potências ocidentais influenciaram decisivamente a linguagem da diplomacia internacional. Com a China, isto está mudando. Por isso, é bem-vindo o anúncio feito por Xi, durante a visita, de um convite para que 100 mil jovens americanos visitem a China para intercâmbio e estudo nos próximos cinco anos. A iniciativa não resolverá divergências sobre chips ou Taiwan, mas permitirá que mais americanos conheçam diretamente uma sociedade sobre a qual frequentemente formam opiniões à distância. Compreender o método do outro exige contato com as pessoas e as experiências que o formaram.
Ao fim da visita, Xi observou que a China e os Estados Unidos possuem histórias, culturas, sistemas sociais e trajetórias de desenvolvimento diferentes, embora seus povos compartilhem a aspiração a uma vida melhor. Recordou o sonho americano de prosperidade e o sonho chinês de rejuvenescimento nacional. Daí decorre uma questão diplomática concreta: como cada país pode perseguir seu futuro sem exigir que o outro renuncie ao seu? E mais: sem prejudicar os sonhos de outras nações, sobretudo as que estão em desenvolvimento?
Os realistas são céticos quanto à pertinência destas questões. A sombra da chamada “Armadilha de Tucídides” os faz desistir antes mesmo de tentarem. Afinal, acredita-se, a potência estabelecida temeria tanto a ascensão da outra que acabaria por levar ambas ao confronto. A metáfora alerta para um perigo real, mas perde utilidade quando converte o risco em destino. Para pensar a atitude de Trump, temos proposto outra imagem, a Síndrome de Gulliver. Tal como o gigante da narrativa, os Estados Unidos conservam uma força extraordinária, mas descobriram que não podem mover-se sem sentir os efeitos dos vínculos que os ligam aos demais. Trump pode elevar tarifas, restringir tecnologias e exigir concessões. Cada medida, porém, provoca reações que também atingem interesses americanos. A metáfora não diminui o poder dos Estados Unidos. Ela apenas lembra que grandeza e liberdade de ação não são a mesma coisa. Quanto maior a presença de um país na economia mundial, maior será sua exposição às consequências de seus próprios atos. O governante que ignora esses vínculos arrisca-se a descobrir tarde demais que sua força foi comprometida pela forma como a exerceu.
A Armadilha de Tucídides pergunta se uma potência dominante aceitará pacificamente perder o pódio para a potência concorrente. A Síndrome de Gulliver nos leva a perguntar se essa potência saberá agir em um mundo em que já não controla sozinha os resultados. Em outras palavras, o destino da humanidade não está apenas nas mãos dos EUA e da China, mas também nas mãos de todos os países. Para Trump, cooperar com a China em assuntos de interesse mútuo exige reconhecer limites sem abandonar os interesses americanos. Ocorre que os EUA demonstram dificuldade em reconhecer seus próprios limites. É exatamente aí que os demais países do mundo devem entrar em ação, não para amarrar o gigante, mas para não se deixarem pisar por ele. E, para isso, a China é uma aliada importante.
O chão comum entre China e Estados Unidos será construído quando ambos obtiverem resultados práticos na pauta negociável, reconhecerem que a pauta estrutural exige uma nova preparação diplomática para esta nova realidade e, sobretudo, mantiverem abertas as vias de diálogo. Os demais países têm interesse direto nisso e uma expectativa legítima. Afinal, China e Estados Unidos têm o direito de realizar seus projetos de prosperidade, e o restante do mundo tem, por sua vez, o direito de esperar que o façam com a consciência de que os caminhos para o desenvolvimento se cruzam e de que a cooperação entre eles pode beneficiar muito mais a humanidade do que seus próprios cidadãos.
Fonte: Brasil 247