‘Unicultura’: extrema-direita aposta em censura às artes para impor controle social

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Por Augusto Diniz — Carta Capital

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Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Do caso Queermuseu ao cancelamento de exposições e shows, o movimento revela um projeto sistemático para sufocar a diversidade

O marco inicial da onda de perseguição às artes no Brasil contemporâneo data de 2017, com a exposição Queermuseu, no centro cultural do Santander, em Porto Alegre (RS). Na ocasião, um forte movimento nas redes sociais mobilizou críticas sob a alegação de que a intervenção artística atentava contra os “bons costumes”. Pressionada, a mostra terminou em poucos dias.

O caso de intolerância mais recente ocorreu na exposição Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade, no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. A mostra, que deveria seguir até agosto, foi encerrada em maio deste ano, após sofrer acusações de apologia ao crime.

Outro episódio notório culminou no cancelamento da 11ª edição da Festa Literomusical (FLIM) de São José dos Campos (SP), no ano passado, após a prefeitura vetar a participação da jornalista Milly Lacombe devido às suas críticas públicas ao conceito de família tradicional.

No campo da música, o cantor e compositor Johnny Hooker teve shows cancelados em Niterói (RJ), em 2024, e em Boa Vista (RR), em 2023, após o resgate de um vídeo antigo em que o artista comentava a peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, monólogo escrito pela autora britânica Jo Clifford no qual Jesus Cristo é representado como uma mulher transexual.

O que une todas essas ofensivas é a articulação de um projeto sistemático de captura e controle cultural por grupos de extrema-direita. A cultura exerce historicamente um papel transformador na disseminação de valores e ideias.

O cerne do problema reside no fato de que a investida desses movimentos afronta diretamente a liberdade de expressão. O que eles pregam, na prática, é a imposição de uma “unicultura”, sufocando trabalhos artísticos que vocalizam a igualdade de gênero, a liberdade sexual e a tolerância social e religiosa.

A face mais didática dessa estratégia é a tentativa de minar instituições culturais — sejam públicas ou privadas — que fomentam a pluralidade e a diversidade. A extrema-direita não tem interesse na multiplicidade de vozes, mas na convergência absoluta ao seu próprio ideário por meio de tutela direta.

No fundo, o objetivo é suprimir direitos individuais e coletivos, centralizar o poder e exercer o controle social por meio da cultura. Essa é a verdadeira política cultural da extrema-direita, que precisa ser constantemente lembrada e esclarecida.


Augusto Diniz

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Fonte: Carta Capital

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