Vozes femininas — Sônia Maria Santos: a poética da contenção, da transcendência e das sublimes linguagens
Por Redação — Jornal Opção

Elizabeth Abreu Caldeira Brito
Sônia Maria Santos nasceu em Anápolis (GO), em 12 de julho de 1945. Filiada à União Brasileira de Escritores – Seção Goiás (UBE-GO), é uma das poucas goianas integrantes do “Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras”, organizado por Nelly Novaes Coelho.
A autora possui uma voz lírica de contenção expressiva, com ampla densidade metafórica e simbólica, além de uma profunda imersão espiritual e existencial. Sua narrativa poética, demonstra um compromisso rigoroso com a depuração estética.

A obra soniana reflete o que Clarice Lispector definiu como a “simplicidade alcançada por muito trabalho”. Elizabeth Abreu Caldeira Brito, no ensaio “A simplicidade na perfeição” (jornal “Diário da Manhã”, 08/01/2009), identifica na autora uma escrita que vai chegando com pausa, com literariedade e delicadeza, mas se sustenta por firmeza interior e consciência de linguagem precisa de quem sabe a que veio e onde alcançar a poesia, sempre presente em suas narrativas líricas.
Tal postura estética aproxima Sônia Maria Santos de uma linhagem de poetas que, como Cecília Meireles, souberam aliar leveza formal e densidade ontológica, fazendo da palavra um lugar de escuta do mundo e de si.

O escritor e crítico Miguel Jorge, no prefácio de “Todas as Fábulas” (2006), observa que a poetisa “testemunha a existência do mundo e do ser humano desde o seu princípio”, sugerindo uma escrita que se funda na experiência vital como matéria primeira do poema.
O escritor e pesquisador José Asmar (1924-2006) escreveu no prefácio de “Casa do Tempo” (1995): “[…] Seu poema dispensa guardas e salvaguardas normativas. Tem conteúdo de alma – a alma da autora na busca da paz com as almas alheias. Conta da linguagem, às vezes, metafórica, mas pura, direta da produtora aos consumidores”.

Sua linguagem, marcada pela economia verbal e pela precisão imagética, confirma a observação de Oscar Berthold acerca de sua “bondade adivinhada”, que se manifesta no cuidado de não “esmagar as entrelinhas com palavras”, conforme Elizabeth Brito. Essa assertiva vai ao encontro àquilo que Maurice-Jean Lefebve define como o discurso poético onde não há explicações, embora se abra à interrogação ontológica. Assim, convoca o leitor atento e sensível a se conscientizar sobre o ser das coisas.
No campo temático, Sônia Maria Santos mergulha em núcleos recorrentes: a religiosidade católica, a mitologia clássica, a morte, a alma, a natureza e a memória. Esses elementos configuram uma poética de forte densidade metafísica, situada, conforme análise de Adalberto de Queiroz (2020), nas “fronteiras do sagrado”.

Ao compará-la à poesia mística de Dora Ferreira da Silva, Queiroz insere Sônia Maria numa linhagem de autoras para as quais o poema se torna espaço de sacerdócio, rito e transcendência.
A presença da mitologia grega, com figuras, como Ariadne, e símbolos, como o rio Lete, articula-se, em sua obra, à tradição cristã. Compõe um imaginário sincrético que amplia as possibilidades simbólicas do texto. Essa convivência entre mito e fé dialoga com a leitura de Robert Graves, para quem o conhecimento dos mitos constitui uma das riquezas fundamentais do poeta. Em “Matéria da Alma” e “Recônditas Miradas”, a travessia do Lete figura como metáfora de purificação e esquecimento, enquanto a alma se apresenta como espaço privilegiado do conflito entre finitude e transcendência.
A reflexão sobre a morte, ora explícita, ora subliminar, aproxima a narrativa poética de uma tradição lírica que inclui Manuel Bandeira e José J. Veiga. Esse último, em carta dirigida à autora, reconhece nela a rara capacidade de “ver, ouvir e sentir tudo como se fosse para sempre pela primeira vez”, atributo que confere à sua voz lírica delicadeza e permanência. Tal sensibilidade confirma a concepção junguiana do artista como aquele que expressa a “alma inconsciente e ativa da humanidade”.

Premiada em 2007 com o Prêmio Colemar Natal e Silva, da Academia Goiana de Letras e com o Prêmio Francisco da Silva Nobre, da UBE-Rio, ambos pelo livro “Todas as Fábulas”. É acadêmica da Academia Goianiense de Letras.
Sônia Maria Santos faleceu em 21 de março de 2020. Imortalizada, estará sempre entre nós pelas instituições a que pertenceu e pela obra que legou ao mundo. Suas publicações permanecerão como espaço de revisitação crítica e sensível, a se renovar em novas leituras e interpretações. Sua narrativa poética, composta de silêncio, oração e rigor, confirma-se como uma das mais densas expressões do sagrado na lírica brasileira contemporânea.
Publicações de Sônia Maria Santos
1
“A teia dos dias” (Goiânia: UCG, 1985)
2
“Casa do Tempo” (Goiânia: Kelps, 1995 e 2ª ed. 2011)
3
“Mar Invisível” (Goiânia: Kelps, 2000 e 2012)
4
“Todas as Fábulas” (Kelps, 2006)
5
“Matéria da Alma” (Kelps, 2011)
6
“Lúcida chama” (Goiânia: Kelps, 2015).
Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag) e filiada à União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. É colaboradora do Jornal Opção.
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Fonte: Jornal Opção